1. Introdução
A poesia nas Escrituras tem o objetivo de expor a verdadeira
religião, a saber: a religião do Deus de Israel. Os Livros Poéticos foram
escritos de maneira simples, clara e compreensível por homens ungidos pelo
Espírito Santo. Seus ensinos são universais e abrangem assuntos de importância
máxima e interesse de todos. Suas palavras são pensamentos do homem refletindo
e proclamando a verdade inalterável do Altíssimo.
São cinco livros poéticos na Bíblia: Jó, Salmos, Provérbios,
Eclesiastes e Cantares. Destes, três são considerados também livros da
Sabedoria: Jó, Provérbios e Eclesiastes. O primeiro apresenta sabedoria para
aquele que sofre na provação. O segundo ocupa-se da sabedoria para aquele que
deseja crescer e frutificar na vida espiritual, isto é, sabedoria prática. O
último expõe a sabedoria para aquele que procura a razão da existência humana, isto
é, sabedoria filosófica. Todos são livros de sapiência, escritos de forma
poética.
2. O Livro de Jó: por que o sofre o justo
Não há certeza sobre quem escreveu o livro de Jó. Muitas são
as possibilidades e, dentre elas, o mais aceito é Moisés, de acordo com o
Talmude (Livro Sagrado dos Judeus), devido à forma de escrita e sacrifícios
apresentados no livro, que se assemelham aos dos patriarcas.
Jó é um livro didático, com pensamento-chave baseado nas
provações. Ele foi admirado e exaltado por teólogos como Lutero pelo exemplo de
relacionamento entre o homem e seu Criador.
A localização da terra natal de Jó seria a leste de Canaã,
talvez na atual Arábia Saudita. Ele viveu em uma região onde havia pastagem e
água para seu gado. Possivelmente, sua residência principal era na cidade,
deixando os animais e a lavoura aos cuidados dos muitos servos.
Temos em Jó um livro doutrinário. Esta antiga obra,
divinamente inspirada, fala da doutrina de Deus, do homem, de Satanás, do
pecado, da justiça, da fé, da disciplina, da criação e de outras.
As quatro partes principais do livro são: Prólogo, Diálogo,
Monólogo e Epílogo. Sabemos que esta é uma história real, pois este homem é
citado como exemplo em Ezequiel 14.14 e Tiago 5.11.
Jó era um homem dedicado, constante no louvor a Deus e que
amava muito os filhos (1.5). Era reto, íntegro, temente a Jeová e desviava-se
do mal. Era também uma pessoa respeitada pelo povo da sua comunidade; um
conselheiro sábio que socorria os pobres; um homem bom e honrado (29.7-25).
A história de Jó acrescentam-se outros quatro personagens:
os três “amigos”, mais Eliú. Sem eles não teríamos a explicação (falha) da
mente humana para o sofrimento dos justos. Conhecendo esses amigos de Jó,
compreendemos suas críticas e contendas:
Elifaz parece ser
o porta-voz dos três homens que se dispuseram a falar com Jó e talvez o mais
idoso. É também o de mais maturidade e raciocínio dentre eles. É nobre, sincero
e culto. Ele diz que Deus é soberano, justo e puro (4.17) e que o homem é
causador dos seus próprios problemas (5.7).
Bildade é o
tradicionalista do grupo (8.8-10) e, mais argumentador que Elifaz. Acusa Jó de
impiedade (8.13) e seu argumento-chave é o de que Deus jamais perverte o
direito (8.3).
Zofar é
dogmático, severo e moralista, exibindo às vezes uma atitude convencida de ser
mais santo do que o próximo. Acusa Jó de jactância (11.2-6).
Eliú era o mais
jovem dos quatro e sem grande intimidade com Jó. Um dos seus argumentos-chave é
o de que Deus é sempre bom e misericordioso (33.24).
Independente de qualquer qualidade destes homens, precisamos
reconhecer que eles foram os únicos que saíram das suas terras e foram prestar
condolências a Jó, sentando ao seu lado e permanecendo em silêncio por um longo
tempo, em sinal de luto e apoio.
No trecho do capítulo 1.6-22, vemos o primeiro ataque de
Satanás contra Jó. Ressalta-se que, antes da morte e ressurreição de Cristo
Jesus, Satanás tinha acesso, vez por outra, à presença de Deus, quando
questionava a sinceridade e retidão dos fiéis (Ap 12.10). Hoje Jesus é o nosso
Advogado e nenhuma acusação permanece, pois fomos lavados pelo sangue dEle.
Conforme o texto supracitado há um diálogo entre Deus e
Satanás que revela que o inimigo das nossas almas não é onipresente, pois, se
fosse, não teria que ficar rodeando a terra e o mesmo está sempre em atividade,
a serviço do seu reino tenebroso, procurando destruir a fé dos cristãos. Além
disso, vemos que Satanás acusa falsamente os servos do Senhor e depende da
permissão do Altíssimo para provar os crentes.
Com a permissão de Deus, Satanás sai da presença do
Altíssimo decidido a destruir a fé de Jó. Usando os sabeus como instrumento,
ele ataca e destrói primeiramente os animais domésticos e os empregados de Jó.
Após, através da força da natureza, os filhos do patriarca morrem, no que ele
se levantou, rasgou o manto, rapou a cabeça, lançou-se ao chão em sinal de e
adorou a Deus.
O inimigo estava esperando a blasfêmia de Jó contra o
Senhor, mas ao invés disso, ele O adorou, pois percebeu, antes de perder tudo,
que Deus o tinha abençoado grandemente e tudo havia sido dado pelo Senhor e Ele
podia tirar.
No capítulo 2, Satanás volta à presença de Deus acusando Jó,
pela segunda vez. O inimigo está irritado porque perdeu a primeira peleja.
Jeová reafirma que Jó continua servindo-O fielmente, mesmo depois de ter
perdido os bens e filhos.
Agora, o desafio do inimigo é para que Deus toque no corpo
de Jó e o fira. Satanás está convencido de que, se perder a saúde, Jó negará ao
seu Senhor. Assim, o inimigo fere o corpo de Jó com chagas malignas. A Bíblia
diz que as feridas o cobriram “desde a
planta dos pés ao alto da cabeça”.
Jó sofre com tamanha coceira que ele pega um caco de telha
para se raspar. Sua aflição é de tal forma que ele procura aliviar a dor e o
calor insuportável que sente no corpo. Para piorar, um intenso sofrimento
emocional se abate sobre Jó. É verdade que sua alma permanece ligada ao
Criador, mas isso não impede que ele busque com ansiedade a razão da sua dor.
Sabemos muito pouco sobre a esposa de Jó, mas não há dúvidas
de que ela estava lá. Observemos a situação: uma senhora casada com um homem
rico, crente, conhecido e honrado em sua comunidade, com uma família grande,
muitos empregados e vivendo confortavelmente, tem, de uma hora para outra, uma
mudança radical. Seus filhos e empregados foram aniquilados. Os bens, saqueados
e destruídos. O marido, sentado no meio da cinza do monturo, sofria agonia
intensa, tendo seu corpo coberto por chagas repugnantes. O coração de mãe e
esposa não suportou a tamanha calamidade. Ficou grandemente magoada, ressentida
contra Deus e se tornou um agende do adversário (2.9).
No versículo 11, os três amigos de Jó se reúnem ao chegarem
cada um do seu lugar. Esta reunião teve como objetivo coordenar a assistência
ao amigo, que se encontrava em estado lastimável. O problema de Elifaz, Bildade
e Zofar é que se tornaram impacientes e precipitados em seus julgamentos.
O diálogo é parte mais extensa do Livro de Jó, permeando do
capítulo 3 ao 31 ou quase 75% do livro. Vinte capítulos são palavras de Jó e
nove são palavras de seus amigos.
Logo no início do capítulo 3 vemos o que poderíamos chamar
de “O desabafo de Jó”. Nos primeiros versículos, o patriarca amaldiçoa o dia do
seu nascimento e a noite da sua concepção (v.3). Jó lamenta porque não morreu
no ventre da sua mãe ou pelo menos ao nascer, significando que ele quer
repousar.
Na última parte deste capítulo, o desânimo de Jó aumenta e,
nesta situação desesperadora, ele vê a morte e o túmulo como algo mais desejoso
que tesouros ocultos (v.21). Só sabe o tamanho do sofrimento, quem o está
vivendo.
Nos capítulos 4 e 5, Elifaz fala e, logo de início,
mostra-se impaciente com Jó ao perguntar: “Se
intentar alguém falar-te, enfadar-te-ás?”. Ele mostra seu espírito acusador
logo no começo, indicando que Jó não é inocente de pecado e nem reto. Sua
“autoridade” é baseada em uma visão noturna (4.13). Um “espírito” que passou
diante dele, fazendo-o arrepiar os cabelos (4.15).
Precisamos tomar muito cuidado com “visões” e “sonhos”, pois
nem sempre provêm de Deus. Há “revelações” que vêm do inimigo, da carne ou de
uma mente doentia.
Replicando às acusações de Elifaz, no capítulo 6, Jó defende
a razão de suas mágoas e lamentos. Ele declara que suas palavras foram
precipitadas porque se sente como um alvo do Altíssimo. No versículo 14, o
patriarca diz que se deve mostrar compaixão ao aflito. Os seus amigos não são
amigos de verdade. Jó compara os três a um ribeiro sazonal, que no verão se
seca e no inverno torna-se uma torrente. Assim são seus colegas: quando
deveriam ficar em silêncio, falam demais, usando palavras vãs e sem conteúdo;
quando Jó anela ouvir declarações confortantes, eles não têm respostas
adequadas para as perguntas.
No capítulo 7, Jó dá vazão à amargura da sua alma,
dirigindo-se a Deus. Ele achava que a mão de Deus estava pesando sobre sua
vida. Achava que se o Senhor se afastasse dele um pouco, ele ficaria aliviado
da sua enfermidade. O patriarca desejava saber se havia algo errado para que
ele concertasse.
Bildade inicia seu atace contra Jó no capítulo 8, afirmando
que suas palavras são como vento impetuoso. Ele diz que Deus não perverteria o
direito e a justiça. Ele ainda diz que os filhos de Jó haviam pecado e por isso
morreram. Se fosse o contrário, o Senhor não o estaria castigando.
No capítulo 9 Jó responde, concordando, em parte com
Bildade. Ele, de fato indaga: “como pode
o homem ser justo para com Deus?” (9.2). A majestade do Todo-Poderoso é tão
alta que o homem comum não pode responder a Deus.
O patriarca passa a reclamar da severidade de Deus contra
ele, no capítulo 10. A situação se torna mais séria e mais grave e suas queixas
e dúvidas aumentam em número e proporção. O sofrimento emocional e a noção que
tem sobre a justiça domina sua mente aflita.
Os capítulos 11 a 14 registram o primeiro debate entre Zofar
e Jó. Zofar, o naamatita, inicia seus argumentos dizendo que Jó é um tagarela.
Ele acha que o patriarca fala sobre coisas que não entende. Zofar está dizendo
que Deus é até tolerante demais com Jó e que ele merecia um castigo maior do
que o que já está recebendo.
Notamos ironia nas palavras do patriarca, quando ele começa
a responder a Zofar. No versículo 1 do 12º capítulo, Jó declara: “vós sois o povo, e convosco morrerá a
sabedoria”. Ele está zombando de Zofar e dos demais, pondo em descoberto a
insinceridade e falsidade dos seus argumentos.
O texto de Jó 13.20-14.22 revela o ponto mais crítico que
chegou Jó na sua prova. Sua esperança está enfraquecendo cada vez mais. Ele não
tem a mínima confiança em seus amigos. Deus o mantém mudo. A dor continua a
latejar e a causar deterioração no corpo e desânimo na alma.
Os capítulos 15-21 denota a segunda série de debates onde os
amigos de Jó tentam se convencer que ele está em pecado enquanto o mesmo
procura provar a sua justiça. No capítulo 15, Elifaz replica a Jó, insinuando
que suas palavras são como o vento oriental (15.2). Também acusa Jó de pensar
que Deus fale com ele pessoalmente (15.8). Em suma, a acusação, neste capítulo,
é a de que Jó é um homem impiedoso, que falta com reverência e respeito ao
Senhor.
Jó relata as injúrias que são todos “consoladores
miseráveis”, “que continuam jogando lenha em seu holocausto, ao invés de
tentarem ajudar a achar a justa resposta para a sua angústia. Que Deus é o seu
advogado (16.19) e há de o defender. Jó sabia que sua esperança está se
esgotando (17.15-16), mas a fé no Altíssimo resiste e Ele irá o justificar”.
Bildade também equipara Jó aos ímpios (18.5). Os
“consoladores” de Jó, que primeiro haviam lhe dirigido acusação indireta, estão
agora sendo mais rígidos e passam a deferir incriminações diretas.
Jó 19.23-27 narra o grito de vitória do patriarca. Ele
declara “... o meu Redentor vive...”
e acrescenta: “Vê-lo-ei por mim mesmo”
(v.27).
No capitulo 20 Zofar prossegue descrevendo a sorte
calamitosa do homem perverso. Está sugerindo que tal será a herança de Jó se
ele não confessar sua transgressão ao Todo-Poderoso. Porém, Jó contra-ataca,
mostrando que os perversos, em muitas ocasiões, gozam de prosperidade e paz.
Porque um homem é corrupto não quer dizer que ele sofrerá grandes perdas e
aflições.
Encontramos, nos capítulos 22 a 26 do Livro de Jó, os
últimos discursos dos amigos do patriarca. No capítulo 25, Bildade lança seu
último dardo. Ele nega a possibilidade do homem se justificar perante Deus
(25.4).
Os três amigos de Jó não queriam desistir de disputar suas
opiniões triviais e restritas. Para salvar as aparências, exigiam de Jó uma
confissão. O patriarca contra-ataca novamente com ironia ou sarcasmos e
prossegue descrevendo o poder de Deus; contrasta, então, a sabedoria e o
conhecimento dos homens com o poderio infinito do Senhor.
O último discurso de Jó se inicia no capítulo 27, onde ele
defende novamente sua integridade, depois prossegue relatando o fim dos homens
corruptos e maldosos. Nos capítulos 29 a 31 observamos algumas falhas da parte
do patriarca que começou quando ele olhou para trás, para o que era antes e
compara com o presente, na tentativa de justificar seu comportamento.
O problema principal de Jó neste trecho é a sabedoria, o
orgulho. Note na Bíblia, nos capítulos 29 e 30, como ele usa com frequência as
palavras: “eu”, “me”, “mim”, etc., e
no capítulo 31, a repetição da palavra “se”.
Não sabemos por quanto tempo Eliú ouviu as palavras de Jó e
seus três amigos. Pode ter sido desde o início dos debates. Agora, no capítulo
32, o jovem começa a falar, demonstrando irritação. Note no primeiro versículo
que a razão dos conselheiros de Jó terem silenciado foi o fato de concluírem
que o próprio Jó se considerava “justo
aos seus próprios olhos”, mirando ser mais justo do que Deus.
Eliú esperou que os três terminassem seus discursos, antes
de fazer suas declarações. Aguardou sua vez por respeitar sua idade e julgar
que a velhice significasse sabedoria. Eliú concordou com os três, afirmando que
Jó tem pecado no seu coração, embora não concorde com as conclusões e pontos de
vistas que apresentam.
Ironicamente, as palavras de Eliú tinham mais peso do que as
dos demais consoladores de Jó. Não eram ideias perfeitas, mas, pelo menos,
chegavam mais perto da resposta que viria da boca de Deus. Se tivesse mostrado
compaixão e meiguice, Eliú poderia ter ajudado o patriarca no seu sofrimento.
A ênfase de Eliú é a de que Deus fala através do sofrimento
para livrar o homem da soberba e guarda a sua alma da cova. Ele declara que o
Altíssimo fala a Seus servos por meio de sonhos e visões, bem como através da
angústia. O jovem vai dizer que Deus, como Soberano que é, tem o direito de
agir da maneira como desejar. Segundo Eliú, ao defender exageradamente a sua
integridade, Jó insinua que o Senhor é injusto.
Jó, no capítulo 36, reconhece que as palavras de Eliú são
corretas, porém a atitude do jovem está começando a aborrecê-lo. O quarto
“consolador” de Jó termina seu discurso falando sobre a majestade de Deus,
dizendo que o Senhor não olha para os que são sábios aos seus próprios olhos.
A ciência (Elifaz), a tradição (Bildade) e o dogma (Zofar)
tinham apresentado seus argumentos. Defenderam suas teses, mas não resolveram o
problema. A sabedoria e o conhecimento humano não acertaram o alvo. Deus ficara
em silêncio até agora, mas, finalmente, no capítulo 38, chegara o momento da
manifestação divina.
De início, Deus mostra que muitas das declarações de Jó não
são próprias de um filho de Deus; alguém convencido, que ousa pensar que
compreende todos os caminhos do Senhor.
Deus inicia o Seu discurso. Encontramos 32 interrogações
somente no capítulo 38. A fala do Senhor contém essencialmente perguntas, as
quais revelam a suprema grandeza do Altíssimo. Demonstram a majestade e o poder
da Sua criação. Jeová está apresentando a Jó evidências e provas da Sua
divindade e inteligência infinita. As palavras do Senhor permeiam até o
capítulo 40, indicando que o patriarca ainda hesitava quanto as razões do seu
sofrimento. A sua autojustiça ainda controlava, em partes, seus pensamentos. O
problema não consiste em Jó ter feito interrogações, mas em exceder os limites
da graça de Deus, defendendo demasiadamente a sua própria integridade.
Jó 40.3-5 mostra a primeira resposta do patriarca, onde ele
reconhece que tem falado e murmurado demasiadamente. É o início do
arrependimento.
No capítulo 42, Jó se encontra descoberto perante o Senhor.
Ele reconhece a sua insignificância e a suprema grandeza e perfeição de Deus.
Reconhece que foi injusto em discutir e reclamar sobre o que era desconhecido
para ele. Reconhece que só o Senhor é justo.
A fé de Jó passou do plano auditivo para o visual. O
patriarca amadureceu espiritualmente, tornando-se mais reto e temente a Deus.
Após ter falado com Jó, o Senhor Se dirige a Elifaz, Bildade
e Zofar, dizendo-lhes que tinham feito declarações erradas sobre Ele e que o
patriarca tinha proclamado o que era reto (42.7-9). Depois de oferecerem
holocaustos e de Jó orar por eles, o Senhor não os tratou segundo o desatino que
haviam praticado. Foram perdoados porque Jó intercedeu por eles junto ao trono
do Altíssimo.
A Bíblia diz que Jó foi restaurado, obtendo família
novamente e seus bens restituídos em dobro (42.10-17). Aqui entendemos o porquê
de Deus ter preservado a mulher de Jó. A restituição familiar só seria possível
com os mesmos progenitores.
Observemos que os irmãos, irmãs e conhecidos apareceram
somente ao iniciar a restauração do patriarca. Infelizmente não revelaram
qualquer compaixão durante a sua dor. Só se prontificaram a consolá-lo quando o
pior já havia passado.
Jó teve o prazer de ter a família restaurada com filhos
sadios e filhas lindas. Ele viveu 140 anos após a provação e se tornou exemplo
para cada um de nós. Superou a crise, dor e mágoas, obteve amadurecimento e
crescimento espiritual.
3. O Livro de Salmos: As expressões da vida
diante da grandeza de Deus
Salmodiar significa, literalmente, no grego, cantar com
acompanhamento musical. No hebraico o título do Livro de Salmos era “Sefer
Tehilim”, que significa “Livro dos Louvores”.
Para os hebreus, os salmos não eram somente um livro de
cânticos, mas também um livro de oração. Nesse particular, o Livro de Salmos é
muito importante para todo crente que faz do louvor a Deus uma das prioridades
da sua vida, concentrando nele sua atenção e tendo como motivação a sublimidade
do caráter de Deus.
Os salmos foram escritos por vários autores, ao longo de
muitos anos, com raras exceções, no período que abrange do ano 1000 ao ano 500
a.C., aproximadamente, ou seja, a época entre o início do reinado de Davi e a
volta dos judeus do exílio babilônico. Possivelmente, a maioria dos salmos
tenha sido escrito durante os anos de maior glória dos reinados de Davi e
Salomão.
Louvor, adoração e exaltação ao Senhor é o tema deste maravilhoso
livro bíblico. Seus autores são: Davi, Asafe, os filhos de Coré, Salomão, Etã,
Hemã e Moisés. Além disso, 49 deles são de autores desconhecidos.
O mais extenso dos livros bíblicos é formado por poemas de
louvor a Deus e tem três propósitos principais:
1. Revelar o espírito de devoção do povo de Deus, através de
vários acontecimentos e incidentes ocorridos em sua vida;
2. Divulgar as profecias messiânicas, cujo cumprimento os
judeus tanto aguardavam e;
3. Convidar outros povos para se unirem aos filhos da
promessa a fim de, juntos, prestarem culto ao Senhor.
Os títulos abordam o tema principal do poema, além de instruções
musicais, autoria, tipo do salmo e o acontecimento que levou o autor a
escrevê-lo.
Um dos vocábulos mais repetitivos nos salmos é “selá”. Uma ideia comum e mais corrente
indica que este termo era usado também como pausa, mas no sentido de parar e
meditar sobre aquilo que estava sendo cantado ou entoado.
A característica mais destacada da poesia hebraica é o
paralelismo de ideias. Os hebreus ligavam mais para o conteúdo, o âmago, os
princípios e conceito da poesia do que para a estética literária. A vantagem
disto é que a mensagem do poema retém o seu efeito geral quando traduzido para
outra língua. Pouco se perde na tradução.
Há vários tipos de paralelismo poético bíblico, dentre os
quais destacamos os seguintes:
1. Sintético: A segunda parte amplia a mensagem da
primeira (Sl 119.97, 103);
2. Sinonímico: a segunda parte repete com sinônimos o
pensamento da primeira (Sl 20.2-3; Pv 23.24-25);
3. Antitético: A segunda parte é uma antítese da
primeira (Sl 71.7; Pv 12.1-2).
Quanto à classificação dos salmos, há diferentes opiniões,
sendo o consenso mais comum o de que há de 10 a 12 tipos de salmos. As classes
mais aceitas são:
1. Salmos Didáticos (Sl 1,15,50,94, etc.): Estes
poemas comunica algum tipo de ensinamento para o povo e visava instruí-lo sobre
o caminho do bem e da prosperidade espiritual.
2. Salmos de Gratidão e Louvor (Sl
30,75,105,106,146,150, etc.): Falam da gratidão e do louvor que o salmista
eleva a Deus. Outro nome para esses cantos de louvor é “Salmos de Aleluia”.
3. Salmos Históricos (Sl 77,81, etc.): São
recordações a respeito de acontecimentos e incidentes da história dos judeus,
envolvendo a escravidão do Egito, o Êxodo, guerras, cativeiro babilônico e
outras narrações de fatos notáveis.
4. Salmos Imprecatórios (Sl 35,58,59,109, etc.):
Estes salmos são invocações de males contra os inimigos da pessoa que escreveu
o poema ou contra os adversários do povo.
5. Salmos da Lei (Sl 19.7-14): Proclamam a grandeza e
a bondade das palavras e dos decretos de Deus. Salientam as bênçãos reservadas
àquele que a pratica.
6. Salmos Messiânicos (Sl 2,22,45,50, etc.): São
poemas que prefiguram o Cristo Rei e o Cristo sofredor. Estes salmos falam
sobre o sofrimento e a glória do Ungido de Deus e Seus dois adventos – o
primeiro, em humilhação, o segundo, em glória.
7. Salmos da Natureza (Sl 8,29,104, etc.): Estes
cânticos enfatizam o poder criador de Deus, manifesto no universo.
8. Salmos Penitenciais (Sl 6,38,51, etc.): Neles, o
salmista roga o perdão de Deus, reconhecendo as suas falhas e erros.
9. Salmos de Peregrinação (120-134): Eram cânticos
que os judeus entoavam quando subiam de suas cidades para o templo em Jerusalém
para as suas festividades nacionais ou quando subiam as escadas do próprio
templo, ao participarem das suas festas.
10. Salmos de Súplica (Sl 5,17,71,86, etc.): Através
deles o salmista clama pelo socorro do Senhor.
Há também os salmos alfabéticos ou acrósticos, em que as
estrofes começam com as letras e a ordem do alfabeto hebraico.
4. O Livro de Provérbios: conselhos sábios
para cada dia
Provérbios é o livro clássico da Bíblia sobre a verdadeira
sabedoria. Seu método de ensino é o do contraste entre o bem e o mal, a justiça
e a impiedade, a sabedoria e a loucura, e assim por diante. Neste livro
bíblico, a sabedoria é apresentada de maneira personificada.
A maior parte do livro foi escrito por Salomão, filho de
Davi. Conforme 1Reis 4.32, ele compôs 3.000 provérbios e 1.005 cânticos. Crê-se
que tenham sido escritos entre os anos 1000-700 a.C., aproximadamente.
A palavra “provérbio”
na língua hebraica é mashal e deriva
de uma raiz que significa para ser
semelhante ou para representar.
Provérbios são, então, declarações e expressões curtas sobre princípios e
verdades da vida, geralmente expressas por intermédio de analogias ou
paralelismos.
O tema do Livro de Provérbios é: “O temor do Senhor é o princípio da sabedoria” (9.10). É o alicerce
do livro e pensamento fundamental das instruções.
Todo o propósito do livro é o de ajudar o “filho” de Salomão
a fazer a própria escolha entre o convite da sabedoria (1.23) ou dos pecadores
(1.11). “Filho” significa alguém que está sendo instruído ou aprendendo de
alguém. Este termo de afeto era usado no AT para alunos que sentavam aos pés
dos mestres.
O destino de cada jovem ou adulto depende de sua escolha
nesta vida de aceitar ou rejeitar o temor a Deus. O tolo confessa que não Deus.
O sábio confessa que Deus é o Senhor e é instruído nos caminhos da justiça,
pelo o que viverá inteligente e eternamente.
O escritor continua exortando o “filho”, nos capítulos 2 e
3, concernente à excelência da sabedoria. Aquele que achar a sabedoria crescerá
em conhecimento. Os mistérios de Deus se tornarão compreensíveis para ele.
Conhecendo bem a ciência do alto, entenderá o temor do Senhor, a justiça, o
juízo, a equidade e todas as boas veredas (v.5-9).
Nos primeiros cinco versículos do capítulo 3, encontramos a
palavra “coração” mencionada três
vezes. O coração é o centro das emoções, o âmago do nosso ser; o homem
interior. No coração devemos guardar os sábios mandamentos do Senhor. Com todo
o nosso coração devemos confiar nEle. Somos aconselhados também a reconhecê-lO
(v.6), temê-lO (v.7), honrá-lO (v.9) e a não rejeitar a Sua disciplina (v.11).
O homem que assim fizer será feliz. Muitas bênçãos o alcançarão, vida longa e
paz (v.2), uma boa reputação diante de Deus e dos homens (v.4), caminhos retos
(v.6), saúde (v.8) e promessas de bens materiais (v.10).
Nos versos 19 a 35 somos ensinados sobre o que não devemos
fazer para que a nossa fé não seja comprometida:
a.
Quanto for possível, não deixe de
fazer o bem a quem dele precisa (3.27);
b.
Não maquines o mal contra o teu próximo...
(3.29);
c.
Não tenha inveja do homem violento... (3.31)
O capítulo 4 enfatiza a aquisição de sabedoria para viver
feliz. O escritor salienta a necessidade do filho em ouvir bem os conselhos do
seu progenitor. O verdadeiro pai instrui os seus filhos com prudência e bom
siso. “A sabedoria é a coisa principal:
adquire-a, pois com tudo o que possuis, busque o conhecimento”.
O capítulo 5 salienta dois pontos principais: “afasta o teu caminho da mulher adúltera”
e “alegra-te com a mulher da tua
mocidade” (5.8; 18). O sábio Salomão reconhecia que a maior tentação para o
jovem é a sensualidade. A lascívia leva à ruína; estraga por completo a
juventude e destrói a pureza daquele que é enganado por ela. Não só produz
problemas físicos, psíquicos e emocionais, como polui, corrompe e destrói a
integridade, que deve ser preservada para o matrimônio.
Provérbios 6.1-19 contêm três advertências ao filho: não ser
fiador, ser contra a preguiça e ser contra a maldade. Em junção com o capítulo
7, o escritor salienta enfaticamente o perigo, o mal e a destruição causada
pelo adultério. Mas o jovem que atar os mandamentos do seu pai ao coração será
guardado e guiado pela sabedoria (6.20-23; 7.1-5).
O capítulo 8 mostra que o desejo da sabedoria é inundar os
locais e os homens com sua prudência e ciência. “Toda pessoa que ouvir a sua voz e aceitar os seus conselhos tonar-se-á
verdadeiramente sábia: falarei coisas excelentes, meus lábios proferirão coisas
retas, minha boca proclamará a verdade, são justas e retas todas as palavras da
minha boca” (v.6-9).
O temor do Senhor consiste em aborrecer o mal, a soberba, a
arrogância do caminho mal e da boca perversa (8.13). Aborrecendo tais caminhos
de Satanás e do mundo e procurando a sabedoria divina, o filho encontrará a
verdadeira felicidade que deseja.
O capítulo 9 mostra o banquete da sabedoria, realizado com
requinte, convidando o filho para dele degustar. Em contraste, a loucura também
faz um convite para “assentarmos à sua mesa”. Todavia, a “refeição” que ela
oferece se baseia em águas roubadas e pão comido às ocultas.
Provérbios 10.2 diz: “os
tesouros da impiedade de nada aproveitam, mas a justiça livra da morte”. A
primeira parte do versículo indica que aquilo que é adquirido por meios
desonestos de nada vale para o homem, principalmente na hora da sua morte. Mas,
o resultado da justiça se evidencia numa vida abençoada e equilibrada em todos
os aspectos. Esta vida também resulta em ampla colheita de almas. Notemos,
porém, que esta colheita provém por intermédio da sabedoria.
O prudente teme de todo o coração ao seu Deus. O insensato,
entretanto, fecha os olhos para o seu caminho e escarnece da prudência, zomba
do pecado (14.9) e menospreza a sua alma ao rejeitar a disciplina (15.32).
O capítulo 11 mostra que o íntegro anda em veredas retas,
enquanto o injusto cai e perece. Aquele que ouve as palavras da sabedoria é
estabelecido na terra como uma pessoa de caráter equilibrado.
“O que lavra a sua
terra será farto de pão...” (12.11): a palavra “farto”, neste versículo, não indica que o trabalhador tenha
riquezas supérfluas. O sentido no original é que o trabalhador diligente terá
satisfeito as suas necessidades diárias como o alimento, vestimentas, etc. (1Tm
6.8).
“Cuida dos teus
negócios lá fora, apronta a lavoura no campo e, depois, edifica a tua casa”
(24.27): se alguém tenta construir uma casa sem primeiro ter os recursos, falha
na sua tentativa. Se, entretanto, tiver os seus negócios em dia, estiver seguro
no emprego e receber salário adequado, poderá iniciar o trabalho de edificar o
que planejou.
Uma das piores pragas deste mundo é a preguiça. É evidente
que há muitas pessoas impossibilitadas de trabalhar, mas existem muitos que
simplesmente não querem trabalhar. Este tipo de gente é um peso para a
sociedade e o Livro de Provérbios descreve estas pessoas (12.27, 20.4, 24.33, 26.13-15).
O preguiçoso inventa qualquer desculpa para ficar em casa. Ser pobre não é uma
desgraça, mas quando a pobreza é resultado da preguiça, a pessoa infeliz só
pode culpar a si mesma. Que Deus nos livre da indolência e da imprudência!
Provérbios 10.14 mostra que aquele que é prudente guardará
bem a sabedoria para usá-la quando necessário. Já o tagarela demonstra falta de
conhecimento ao falar sem discernimento. Falar em demasia reflete falta de
ciência. Aquele que se gaba do pouco que sabe revela ignorância. O sábio fala
quando é preciso, denotando sabedoria e prudência. Que assim seja em nossa
vida! Que o nosso falar evidencie a nossa aceitação e entesouramento do
conhecimento do alto.
Salomão diz que um encontro com uma ursa desfilhada é melhor
do que encontrar-se com um louvo na sua insensatez. A ênfase dessa advertência
é que a devastação causada por um tolo é maior do que a que pode ser causada
por um animal feroz (Pv 17.12,23).
“Tens
visto o homem que é sábio a seus próprios olhos? Pode-se esperar mais do tolo
do que dele” (26.12): encontramos aqui uma raridade no Livro de Provérbios
– alguém que é pior do que o tolo. É a pessoa que se julga autossuficiente. É o
homem ou a mulher que diz não precisar de ninguém, nem mesmo de Deus. É alguém
convencido de que a sua sabedoria seja suficiente para guiar o seu destino. Mas
a Palavra de Deus diz: “Maior esperança
há no insensato do que nele”. O homem que passa da insensatez à
autossuficiência dificilmente será convencido de que precisa de Deus e do Seu
perdão.
Para termos um relacionamento sadio
entre pessoas, é fundamental conservarmos uma boa atitude. Atitudes certas
estabelecem a base para a edificação de uma grande amizade: “o coração alegre aformoseia o rosto...” (15.13);
“... a alegria do coração é banquete
contínuo” (15.15); “o coração alegre
é bom remédio” (17.22).
O Livro de Provérbios também fala sobre amigos verdadeiros e
suas qualidades:
1. Ele não comenta com ninguém as falhas do outro (17.9,17);
2. Ama a pureza de propósito (22.11);
3. É franco com seu amigo nas suas repreensões (27.5-6);
4. Apega-se àquele a quem ama (27.17);
5. É hábil conselheiro (27.9);
6. É leal em todos os momentos (27.19);
7. É amigo a toda hora, em todas as circunstâncias (27.10).
O capítulo 30 do Livro de Provérbios registra as palavras de
Agur, um grande observador e sábio da época de Salomão. No seu comentário, Agur
escreve sobre os mais variados assuntos. Suas palavras são qual vitamina que,
uma vez tomada, fortalece a alma e vivifica o espírito. Ele trata sobre a grandeza
de Deus (v.4); a pureza da Palavra de Deus (v.5-6); o pedido de uma vida
equilibrada e sem falsidade (v.7-9); não ser uma pessoa caluniosa, nem egoísta
(v.10-16); não desprezar a autoridade dos pais (v.17); não se deixar dominar
por paixões (v.18-20); não desprezar as crianças (v.24-28); não ser vaidoso
(v.29-31) e; o proceder insensato produz contendas (v.32-33).
O capítulo 31 registra as palavras do rei Lemuel, ou da sua
mãe, especificamente. O rei simplesmente as publica. Note que a mãe de Lemuel
lhe ensinou estas coisas. Os primeiros sete versículos salientam a importância
da preservação da integridade moral e da autodisciplina. Os últimos dois
versículos ressaltam a necessidade de se julgar com equidade. O crente, um “rei
espiritual”, deve se esforçar para seguir estes conselhos e assim glorificar ao
Rei Supremo.
O último capítulo de Provérbios destaca a nobreza e a
distinção da mulher virtuosa. É um acróstico na língua hebraica em que cada
versículo ou estrofe começa com uma letra do alfabeto hebraico. Esta virtuosa é
uma excelente mulher, extraordinária esposa, fantástica mãe e respeitável
vizinha.
Deus deseja que cada mulher procure desenvolver os seus
talentos pessoais. Ele não está procurando perfeição, mas dedicação. A
consagração ao Senhor na vida da mulher lhe será valiosa como esposa.
5. O Livro de Eclesiastes: o pregador
apresenta a plena satisfação em Deus
Salomão começa seu livro como homem natural, completamente
desiludido com a vida. Reclama que nada é novo sobre a terra. Os dias começam e
terminam com o nascer e o pôr do sol. Tudo existe e tem existido da mesma forma
desde a criação do mundo.
Tudo e vaidade. Assim queixa-se Salomão. As palavras
proferidas nos primeiros onze versículos do capitulo 1 refletem uma atitude de
desânimo e desespero do autor. São declarações do homem natural, derrotado que
perdeu a esperança. Ele alicerça suas descobertas na sabedoria humana e não na
sabedoria de Deus.
No capitulo 2, o escritor decide “provar” várias coisas para
ver se acha nelas a felicidade. Ele se entrega ao vinho, edifica casas, planta
vinhas, faz jardins e pomares, açudes, compra servos cantores e aumenta o número
das suas mulheres. O que ele viu e desejou, adquiriu e fez.
A única coisa gratificante desses experimentos foi o
trabalho árduo que Salomão executou com suas mãos. No fim desta experiência, Salomão
percebe que as possessões, os prazeres e as proezas puramente humanas não
produzem real felicidade.
A passagem tão conhecida do capítulo 3 mostra um comentário
sucinto sobre os ciclos da vida: para tudo há um tempo determinado. O tempo faz
parte do plano total de Deus. O homem, porém, não tem condições de enxergar
este plano no seu todo. Ele vê só uma parte e isto o frustra. Sendo finito, não
pode compreender o infinito. Sendo mundano, não entende o celestial. Sendo
imperfeito, não interpreta a perfeição. No seu estado natural, como mero
descendente de Adão, o homem jamais compreenderá os propósitos do Senhor, ainda
que seja ele o mais sábio dos homens.
O capítulo 4 narra que a terra está cheia de desonestidade,
tribulações, tristezas e tolices. Nos versículos 9 a 12, Salomão destaca a
importância do companheirismo que deve haver entre os homens, do desempenho dos
seus afazeres. Segundo Salomão, a vantagem que duas pessoas têm sobre uma só é
que: têm melhor paga do seu trabalho (v.9); se caírem, um levanta o companheiro
(v.10); se dois dormirem juntos, eles se aquentarão (v.11); se alguém quiser
prevalecer contra um, os dois lhe resistirão (v.12).
Sucesso e posição pouco valem para aquele que os alcançou se
este não abrir a sua mente para as sugestões e os conselhos de outrem. Riqueza,
posição e fama são inúteis se forem adquiridas pela cobiça ou pela ambição
desonesta. Mesmo os bens adquiridos legalmente e pelo esforço próprio, não
constituem segurança contra o fracasso.
No trecho dos capítulos 5 e 6, o escritor ressalta a
importância da religião verdadeira, alicerçada no temor a Deus. Por ele somos
admoestados a tomar cuidado com a hipocrisia. Devemos conduzir nossa vida na
certeza de que um dia daremos contas a Deus. O pregador aborda também sobre
qual deve ser o nosso procedimento na casa de Deus (5.1-2).
O verso 5 diz que não devemos fazer votos impensados. Quando
tivermos que fazer um voto perante o Senhor, devemos fazê-lo com discernimento
e com a decisão de cumpri-lo, pois ‘melhor
é que não votes do que votes e não cumpras’.
Eclesiastes 5.10 declara que ser rico não é pecado, mas é
evidente que o homem que se deixa dominar pela cobiça do dinheiro atrai
maldição para si. “Quem ama o dinheiro
jamais dele se farta...”.
Outro mal que o escritor observa relaciona-se ao homem que
tem tudo, mas não pode comer bem, porque não tem boa saúde (6.2); pode ter
muitos filhos, sem que estes o confortem (6.3). Isto é futilidade e desespero.
No capítulo 7 o autor escreve que a morte é melhor do que o
nascimento e a mágoa e a tristeza são melhores que o riso, porque nos ensinam
compaixão e firmeza de propósito.
No primeiro versículo do capítulo 7, encontramos o tema
deste trecho: “Estabelecer e Desenvolver um Bom Nome, ou Boa Fama”. A
maturidade depende da nossa aceitação destes conselhos, lembrando sempre que o
Senhor tem designado os passos da nossa vida e que, quando nos submetemos a
Ele, o nosso caráter é sempre melhorado.
Sejamos pessoas equilibradas. Não sejamos demasiadamente
justos, isto é, não deixemos influenciar por uma religião artificial e sem o
genuíno zelo, pois tal conduta geralmente leva à hipocrisia e ao legalismo
desvirtuado. De igual forma, não permitamos que o pecado e as paixões nos dominem.
Andemos nas veredas do Senhor e seremos moderados, de temperamento estável
(7.15-22).
No capítulo 8 somos advertidos a obedecer aqueles que foram
constituídos autoridades sobre nós. Aquele que obedece aos seus superiores,
experimenta o bem e evidencia sabedoria em cumprir as ordens do rei (v.4-5).
Tudo sucede igualmente a todos (9.2). O fim chega para
todos! A humanidade inteira caminha para a morte; sejam justos ou injustos,
puros ou impuros, salvos ou pecadores. Enquanto estivermos neste mundo, sugere
Salomão que devemos nos esforçar para fazermos o bem, gozarmos a vida, comermos
e bebermos com alegria (9.7-10).
Nos capítulos 11 e 12 temos conselhos finais, pautados na
estância de “Temer a Deus”: Lançar o pão sobe as águas; apreciar a luz do dia
sem se esquecer que há dias de trevas também; alegrar com o Senhor nos dias da
juventude e lembrar dEle durante a mocidade para desfrutar de uma velhice
tranquila são algumas orientações do pregador.
Depois de ter provado de tudo o que a vida oferece, Salomão
chega à conclusão de que é dever do homem temer a Deus e entregar-se de corpo,
alma e espírito a Ele. O escritor conclui que as únicas coisas que não são
vaidade neste mundo são: o temor a Deus e a guarda dos Seus mandamentos.
6. O Livro de Cantares: amor conjugal e sua
tipologia entre Cristo e a Igreja
Cantares não é somente um cântico, mas o cântico dos
cânticos. Salomão redigiu 1.005 cânticos, sendo este o mais sublime de todos.
Os principais personagens deste livro são: o rei Salomão, a
sulamita (habitante da terra de Suném) e as filhas de Jerusalém (o coro),
possivelmente companheiras ou servas da noiva.
O começo do diálogo amoroso entre Salomão e a sulamita
encontra-se no trecho de Cantares 1.2-2.1. Para a sulamita, o amor do seu amado
é tão forte que ela declara ser melhor do que o vinho. Por ter trabalhado por
muito tempo nas vinhas sob o sol abrasador, ela chama “morena” a si mesma
(1.5-6).
Nos versículos que seguem (2.3-6), a noiva relata o desejo
de receber o amor do seu noivo, de se banquetear e de ser feliz com ele. Na
sala do banquete, há um estandarte (2.4), representando proteção e segurança.
Tal bandeira ou faixa era um estandarte militar, mostrando que Salomão tinha
conquistado o coração da sulamita.
No capítulo 3.1-5, enquanto dorme, a sulamita sonha que
perdeu o seu amado e que não consegue achá-lo. Perturbada, sai noite adentro
procurando por ele. Quando o encontra, agarra-se para não soltá-lo mais. Faz
com que o rei entre na casa de sua mãe e apresenta-o como o seu amado, provando
assim que o amor dos dois é puro. A noiva não se envergonha do seu amado.
Até aqui há um simbolismo do namoro entre Salomão e a
sulamita. Cantares 3.6-5.1 narra o casamento. As primeiras palavras do rei à
sua noiva quando a vê no dia do casamento são: “Como és formosa, querida minha, como és formosa!” (4.1). Os olhos
dela brilham, seus cabelos descem ondulados. Os lábios são como um fio de
escarlate; as faces como romãs partidas (4.3). O pescoço da jovem é comparado a
uma torre, toda decorada como broqueis de soldados valorosos.
No fim do capítulo 4, a noiva aceita o convite do seu amado,
declarando ser totalmente dele. O noivo convida seus amigos para comerem e
beberem fartamente. Essa é a festa nupcial, ou seja, a recepção que se segue ao
casamento. A alegria do rei é evidente e ele deseja festejar com todos a sua
felicidade. Um banquete é preparado e o casamento é celebrado.
A vida conjugal é descrita em Cantares 5.2-8.14. Logo no
início a sulamita sonha pela segunda vez. No sonho, ouve a voz do seu esposo
pedindo para entrar no seu aposento (5.2); ela, porém, já estava deitada e,
mostrando indisposição em atendê-lo, informa que teria de se vestir e sujar os
pés recém-lavados, para abrir-lhe a porta. Quando decide levantar, constata que
ele foi embora. Daí, aflita, ela sai à procura do esposo. Não o encontra, é
espancada e ferida pelos guardas da cidade.
É provável que antes do sonho, tenha havido uma pequena
contenda entre o rei e a sua jovem esposa. Depois de acordar do seu sonho, a
sulamita procura fazer as pazes com o seu marido (5.8-16).
Resolvido o impasse, o rei retorna ao seu jardim (ou à sua
esposa). A sua amada declara: “Eu sou do
meu amado, e o meu amado é meu” (6.3). Agora, disposto a agradar a sua
amada, Salomão leva sua esposa para visita a sua terra.
Cantares 8.6 infere a ideia de que o verdadeiro amor não é apenas
sentimento, mas também é ação. O “selo no braço” fala do direito de posse que o
esposo tinha sobre a sua esposa.
O Livro de Cantares termina com um convite da sulamita ao seu
amado, lembrando os primeiros dias felizes de vida em comum. O amor constante, puro
e fiel que une dois corações, finalmente triunfa.
Espiritualmente, o Livro de Cantares prefigura a profunda comunhão
que há entre Cristo e a Igreja. O namoro é a apresentação de Cristo, o casamento
é a união (salvação) e a vida conjugal é a comunhão.
O estandarte do amor (2.4) simboliza a grande compaixão de Deus
pelo pecador. O amor de Deus refrigera sua alma cansada, faminta e sedenta. Com
ternura, aponta o caminho da salvação e da vida eterna ao pecador carente.
O pecador, ao saber e sentir que Deus o ama, apesar dos seus
muitos pecados, é atraído a Cristo e aceita-O como seu Salvador. Esta decisão culmina
em uma entrega total de si a Deus.
A comunhão segue-se à união. O pecador, agora resgatado, perdoado
e limpo dos seus pecados, passa a ter comunhão com Cristo. Mesmo que o amor seja
forte como a morte, há certos problemas a superar.
|
REFERÊNCIA
|
SENTIDO LITERAL
|
SENTIDO ESPIRITUAL
|
SÍMBOLO
|
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1.2-3.5
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Namoro
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Apresentação
|
Estandarte
|
|
3.6-5.1
|
Casamento
|
União
|
Coroa
|
|
5.2-8.14
|
Vida Conjugal
|
Comunhão
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Selo
|
“As muitas águas não podem
apagar o amor, nem os rios afogá-los!” (Ct 8.7)
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