1. Introdução
O Livro de
Atos não é uma unidade separada, completa em si mesma. Ele é apontado como uma
continuação do Evangelho de Lucas. O autor fala em “primeiro livro” (At 1.1) e sua dedicatória a Teófilo indica
relação com o Evangelho dirigido a essa mesma pessoa. O sumário do primeiro livro, apresentado no Livro de
Atos, concorda exatamente com o conteúdo do Evangelho de Lucas e dá
prosseguimento à primeira narrativa partindo do ponto onde o autor a deixou.
Parece não
haver nenhuma dúvida para nós, hoje, quanto ao fato de que Lucas, o “médico amado” (Cl 4.14), autor do
terceiro Evangelho, seja o autor do Livro de Atos. Já desde o ano de 185 d.C.,
em um escrito de Irineu, um dos “Pais da Igreja”, temos a afirmação de que
Lucas é o autor de ambos os livros.
Quanto à
vida particular de Lucas, pouco conhecemos. A tradição registra que ele era
gentio, possivelmente de Antioquia da Síria; falava o grego fluentemente; era
um médico de refinada educação e; após convertido ao Cristianismo, abandonou as
funções médicas e se dedicou a viajar com o apóstolo Paulo, de quem se fez
médico e amigo inseparável.
O Livro de
Atos contém a historia do estabelecimento e do desenvolvimento da Igreja
cristã, bem como da proclamação do Evangelho ao mundo então conhecido. Ele
poderia ser chamado de “Atos do Espírito
Santo”, pois Ele é quem direciona os apóstolos e a Igreja em todos os
feitos.
Ao
escrever Atos, Lucas tinha em mente o propósito de narrar a história da
formação, desenvolvimento e expansão da Igreja, começando em Jerusalém e
concluindo em Roma. A data da sua escrita foi, possivelmente, por volta de 60
d.C., ano da chegada de Paulo a Roma. Admitindo-se que o livro não poderia ser
escrito antes dos últimos eventos nele registrados, é de se supor que Lucas o
tenha escrito imediatamente depois do encarceramento de Paulo, o que aconteceu
no ano 60, em Roma.
Assim como
o Evangelho de Lucas, o Livro de Atos foi escrito e destinado a um oficial de
nome Teófilo que, em grego, significa que
ama a Deus. O alvo foi apresentar a este oficial e pessoas interessadas uma
defesa do Cristianismo; para mostrar que não se tratava de um ramo herético do Judaísmo
e que não era uma organização política, contrária ao Estado e ao Império
Romano.
A
“Manifestação do Espírito Santo” é o tema teológico predominante no Livro de
Atos. A promessa do derramamento do Espírito Santo, feita pelo Cristo
ressurreto foi cumprida entre os discípulos no dia de Pentecostes, no capítulo
2, e entre os crentes gentios, no capitulo 10. A narrativa do Livro de Atos
torna-o um livro de informações do mais alto valor para uma fase extremamente
significativa da história da Igreja e da civilização mundial.
Por fim,
dentre os muitos aspectos do elemento teológico constantes no Livro de Atos,
destacamos:
a. A
continuação do propósito de Deus na História;
b.
A missão e a mensagem da
Igreja;
c.
O avanço do Evangelho a
despeito da oposição;
d.
A inclusão dos gentios no
povo de Deus e;
e. A
vida e organização da Igreja.
2. A Fundação da Igreja
A missão
terrena de Jesus chegara ao fim. Ele ressuscitara triunfante e glorioso! Dentro
em pouco, voltaria para o seio do Pai. Porem, a obra por Ele inaugurada estava apenas
iniciando. Aos Seus apóstolos caberia dar continuidade ao que Ele começara e,
para isso, dependiam da proteção e da direção do Espírito Santo.
“Eis que envio sobre vós a promessa de meu Pai;
permanecei, pois, na cidade, até que do alto sejais revestidos de poder”.
Essa foi a palavra de Jesus aos apóstolos, mas não seria uma tarefa fácil de se
cumprir. Apenas com a ajuda do Espírito Santo, eles poderiam levar a bom termo
tão importante obra.
Quarenta
dias decorreram entre a ressurreição e a ascensão de Jesus aos céus. Esse
espaço de tempo tinha um duplo propósito, o de apresentar aos discípulos:
1. A incontestável prova de que
Jesus de fato ressuscitara;
2. As diretrizes acerca do Reino de
Deus (v.3).
A
ressurreição de Cristo pareceu reacender no coração dos discípulos o
nacionalismo antes apagado por causa da Sua morte na cruz. No entanto, só de
uma coisa queriam saber: quando o reino de Israel seria restaurado (v.6). Jesus
respondeu solenemente: “Não vos compete
conhecer os tempos ou épocas”. Os discípulos, como resposta à Sua pergunta,
receberam uma promessa e uma comissão, mas não a satisfação da sua curiosidade.
“Mas recebereis poder, ao descer sobre
vós o Espírito Santo, e sereis minhas testemunhas tanto em Jerusalém como em
toda a Judeia, Samaria e até aos confins da terra” (At 1.8). Os discípulos
tinham que esperar e a verdadeira espera inclui expectativa, oração e
consagração.
Após o
diálogo, um verdadeiro êxtase encontrava-se sobre os discípulos, pois com os
olhos e corações elevados para o céu, viam o Mestre amado subindo às alturas,
ressurreto e triunfante, até que uma nuvem O encobriu! Foi nesse momento de
contemplação e emoção que “dois varões
vestidos de branco se puseram ao lado deles e lhes disseram: Varões galileus,
por que estais olhando para as alturas? Esse Jesus que dentre vós foi assunto
ao céu virá do modo como o vistes subir” (v.10-11).
Com
relação a ascensão de Jesus Cristo, devemos destacar que significou um final,
pois os apóstolos já não tinham a presença física de Jesus e terminou o
discipulado. Mas também significou o começo da evangelização e fé em ação, com
o envio do “outro Consolador”, a saber, o Espírito Santo.
Os
discípulos foram confortados, pois tiveram uma perda, mas em compensação,
recebiam a promessa do derramamento do Espírito Santo e de que Ele mesmo,
Jesus, haveria de voltar ao encontro dos que O aguardassem. A promessa da Sua
volta serviu de combustão às atividades evangelísticas levadas a efeito pela
Igreja nos primeiros cem anos da sua história.
Obedecendo
a Cristo, os discípulos foram para Jerusalém e ficaram no cenáculo (uma sala
ampla, geralmente num andar superior) da casa de Maria, mãe de João Marcos,
onde tinha sido a última Ceia de Jesus com os discípulos. Ali, permaneceram em
oração.
Ao
apostolo Pedro coube a liderança da comunidade cristã primitiva, cujo exercício
teve, todavia, curta duração, uma vez que ele logo abraçou a atividade
missionária. Após a morte de Judas Iscariotes, oraram ao Senhor e pediram a
revelação sobre qual ficaria no lugar do apóstolo morto. Lançaram sortes e
recaiu sobre Matias (At 1.24,26).
Após a
descida do Espírito Santo sobre a Igreja, nunca mais se ouviu falar, no Novo
Testamento, em “lançar sorte”. Sem o Consolador, ainda se dependia dessa
prática tradicional. A escolha caiu sobre Matias. Alguns comentadores bíblicos
ensinam que Deus não aceitou Matias como um dos doze apóstolos, mas, sim,
Paulo. Entretanto, as Escrituras dizem o contrário:
a. Matias
foi contado com os onze (At 1.26);
b.
A expressão “Pedro com os
onze” (2.14) inclui Matias;
c.
Havia doze apóstolos antes da
conversão de Paulo (At 6.2);
d.
Matias foi escolhido para
cumprir a profecia (At 1.16-20; Sl 69.25; 109.8);
e.
Matias tinha qualificações de
apóstolo (At 1.21-22);
f.
A escolha de Matias se deu em
resposta a oração (At 1.24; Jo 14.13-14);
g.
Paulo não contou a si mesmo
como um entre os doze (At 9.15; Gl 2.7-9);
h.
Paulo não era um dos doze de
que faz menção em I Coríntios 15.5;
i.
Paulo tinha as qualificações
de apóstolo, mas não como um dos doze, porque não seguira os discípulos desde o
batismo de João (At 1.21-22).
3. A Igreja revestida do
Espírito (At 2)
O capítulo
2 descreve que a descida do Espírito Santo aconteceu “ao cumprir-se o dia de
Pentecostes” (At 2.1). O Pentecostes era uma festa judaica que tipificava
Cristo. Para entendermos melhor, ressaltamos a 3 principais festas dos judeus:
1.
Páscoa ou Festa dos Pães
Asmos: do hebraico “Pessah”, significa
passagem ou libertação das garras egípcias.
2.
Pentecostes, Primícias ou
Festa das Semanas: 50 dias ou 7 semanas após a
Páscoa, era quando os judeus entregavam os primeiros frutos da terra!
3.
Tabernáculo ou Festa das
Tendas: Os judeus colhiam o restante da
colheita.
Sentido Espiritual: Páscoa é a libertação do pecado;
o Pentecostes é o batismo e revestimento com o Espírito Santo e o Tabernáculo é
a evangelização em massa.
Todos
reunidos num mesmo lugar. Eram quase 120 corações que palpitavam como um só,
enquanto assentados, juntos aguardavam o poder que os habilitariam a testificar
do Senhor Jesus Cristo. “de repente, veio
do céu um som” intenso e penetrante, que vinha de cima, “do céu”. O som que, no começo parecia
distante, foi chegando mais e mais perto, como o ruído de um redemoinho, o
estrondo de uma tormenta “como de um
vento impetuoso”.
O fato é
que as “línguas, como que de fogo”
pousando sobre cada um deles indicava que tinha início ali uma nova
dispensação, na qual o Espírito de Deus já não seria concedido à comunidade
como um todo e sim a cada membro individualmente. As línguas repartidas
indicavam que o dom sobrenatural de línguas tinha sido outorgado a esse grupo
de pessoas.
Notemos
alguns fatos importantes com respeito ao falar em línguas:
·
O impacto do Espírito de Deus
sobre a alma humana é tão direto e com tanto poder, que sua mente fica
totalmente controlada por Ele, passando a se expressar, no momento do batismo,
em línguas estranhas.
·
Para os discípulos, o falar
em línguas era a evidência de estarem completamente revestido pelo poder do
Espírito que lhes fora prometido por Cristo.
·
Alguns argumentam que a
manifestação do falar em línguas foi limitada à época dos apóstolos como forma
de ajudá-los a estabelecer o Cristianismo. Mas a própria história da Igreja
prova que Deus continua a dispensar este precioso dom a tantos quantos O
buscam.
2.1. Que quer isto dizer?
Milhares
de judeus se concentravam atônitos diante do Cenáculo, atraídos pelo misterioso
som, como de uma tormenta naquela manhã calma. Mais do que isto, a multidão
atônita iria presenciar mistério maior que o do som estranho e das línguas
flamejantes – o da diversidade de línguas. Esses forasteiros ficaram perplexos
ao notarem que os galileus, identificados como seguidores de Jesus de Nazaré,
não estavam falando o idioma comum da Galileia, mas em “outras línguas”. Alguns
dentre eles descobriram que essas “outras línguas” eram seus próprios idiomas!
Diante
disto dois tipos de reação suscitaram:
1.
Que quer isto dizer? (At
2.12): Era esta uma pergunta concernente à
manifestação das línguas pelo Espírito Santo, no que Pedro responde conforme a
profecia de Joel (2.16-18).
2.
Estão embriagados (At 2.13):
No meio da multidão havia aqueles que zombavam dizendo: “Estão embriagados!” e
aos que disseram isso, Pedro respondeu: “Estes homens não estão embriagados,
como vindes pensando”.
2.2. O sermão de Pedro
No dia de
Pentecostes, o Espírito Santo sobreveio a cerca de 120 discípulos, fazendo com
que se tornassem os primeiros da Igreja, ungindo-os e capacitando-os para uma
missão de alcance mundial.
Pedro,
cheio de altruísmo, de covarde para ousado, se levantou com os onze e, erguendo
a voz começou a pregar. O tema do seu sermão está declarado em Atos 2.36: “Esteja absolutamente certa, pois, toda a
casa de Israel de que a este Jesus, que vós crucificastes, Deus o fez Senhor e
Cristo”. Em outras palavras, Jesus é o Messias – fato comprovado pela Sua
ressurreição.
Pedro
jamais esteve sob tão forte unção do Espírito Santo como quando falou no dia de
Pentecostes. Suas palavras eram como flechas perfurando a casca dura do
preconceito judaico, a ponto de seus ouvintes sentirem remorso diante da ideia
de haverem assassinado o próprio Messias. Queriam saber como seriam perdoados
por tão grande pecado e como seriam aceitos no reino do Messias. Tal pergunta é
o primeiro passo a ser dado por aqueles que buscam a conversão.
Em face da
indagação da multidão compungida, solenemente respondeu o apóstolo Pedro:
Arrependei-vos (At 2.38), pois para vós outros é a promessa (At 2.39). Como
resultado, os que aceitaram a palavra foram batizados, havendo um acréscimo
naquele dia de quase três mil pessoas.
Nosso
trabalho deve ser semelhante ao dos apóstolos. Aonde o Evangelho for pregado no
poder do Espírito Santo haverá conversão, batismo com o Espírito Santo e
batismo em água, como aconteceu ali.
Até aqui,
a maior barreira encontrada pelo judeu era “o escândalo da cruz”; mas, isto se
explica satisfatoriamente à luz da ressurreição. Vencido este obstáculo,
milhares de judeus aceitaram a Jesus como Messias. Logo, o número de conversos
subiu a cinco mil (At 4.4). Mais tarde, o Livro de Atos nos diz que crescia
mais e mais a multidão de conversos; tanto homens como mulheres eram
acrescentados à Igreja (5.14).
Os novos
convertidos ou cristãos primitivos viviam e se relacionavam perseverando na
comunhão, no partir do pão e nas orações; em cada alma havia temor, muitos
sinais e prodígios eram feitos; as pessoas vendiam as suas propriedades e bens
e louvavam a Deus.
3. As primeiras perseguições (At
3-5)
No
capitulo 3 do Livro de Atos, Lucas dá um exemplo dos “prodígios e sinais” operados por meio dos apóstolos. Uma tarde,
quando Pedro e João iam em direção ao templo, à hora do sacrifício – hora nona
(15:00h), ao passarem pela porta chamada “Formosa”, que levava do pátio dos
gentios para o pátio das mulheres, a atenção deles foi atraída para um homem
coxo de nascença, que, ali prostrado, pedia esmola aos transeuntes.
Chamando-lhes a atenção, Pedro ordenou-lhe que se levantasse e andasse,
invocando a autoridade de Jesus, o Messias. Ajudado a erguer-se sobre os pés, o
homem andou e, cheio de júbilo pela renovação de suas forças, elevou a voz em
louvor a Deus, saltando de modo tal que todo o povo presente podia observá-lo.
É provável
que os crentes tivessem três reuniões diárias, sugeridas pelos horários do
culto divino no templo, ou seja:
a.
À terceira hora (9h) –
sacrifício da manhã;
b.
À hora sexta (12h) – havia um
culto de ação de graça;
c.
À hora nona (15h) –
sacrifício da tarde.
Foi neste
ultimo horário que Pedro e João entraram no templo para um período de culto,
juntamente com os outros crentes.
Em face do
grande volume de pessoas que acorreu ao templo por causa da cura do coxo de
nascença, outra vez levantou-se Pedro para falar à multidão, como havia feito
na manhã do Pentecostes.
O objetivo
principal de Pedro foi convencer aqueles judeus e não simplesmente condená-los.
Daí a advertência de Pedro, que os convidava ao arrependimento e a voltarem
para Jesus.
Na parte
final do seu sermão, Pedro trata de assuntos relacionados aos israelitas
concernentes ao estabelecimento do Reino de Deus em forma global (v.21). Essa
demora aparente no estabelecimento do Reino em nada significava negligência da
parte de Deus. Reflete, sim, a demora no arrependimento deles.
Em meio ao
sermão de Pedro, com o ponto central pautado na prova convincente da obra messiânica
de Jesus, antes que os convertidos se manifestassem, sacerdotes e guardas,
forçando o caminho no meio da multidão, levaram Pedro e João presos, sob a
alegação de perturbação da ordem e pregação de heresia.
No dia
seguinte, Pedro e João compareceram diante do concílio religioso dos judeus,
chamado Sinédrio. A acusação foi sugerida pela pergunta: “Com que poder ou em nome de quem fizestes isto?” (4.7). Sem
gaguejar, Pedro diz que foi em “nome de
Jesus Cristo, o Nazareno, a quem vós crucificastes, e a quem Deus ressuscitou
dentre os mortos, sim, em seu nome é que este está curando perante vós!”
(At 4.10).
A cura do
coxo despertou a perseguição aos discípulos, que, ao invés de deixarem de lado
o ministério da cura, permaneceram em oração para que houvessem curas, sinais e
prodígios por intermédio do nome de Jesus. De fato, a oração é o recurso mais
poderoso que a Igreja tem à sua disposição para lançar mão quando se vê
ameaçada pelo poderio mundano.
Movidos
pelo amor cristão para com os menos favorecidos de bens materiais, bem como
para com a causa do Evangelho, os membros da congregação em Jerusalém
espontaneamente vendiam suas propriedades, depositando o valor alcançado aos
pés dos apóstolos que, então, com amor e cuidado, distribuíam a tantos quantos
necessitavam (4.32-35).
A paz e
alegria espiritual reinavam entre os crentes, mas Satanás achou o joio no meio
do trigo através de Ananias e Safira. Pedro recebera, evidentemente, uma
revelação especial da parte do Espírito Santo quanto a isso, pois, por si mesmo
não conseguiria conhecer o que aquele casal alimentava em seus corações. Era o
dom ao qual Paulo chama de “palavra de
conhecimento” (ICo 12.8) que dava a Pedro o poder de “ver” e de disciplinar
aqueles servos infiéis.
A Igreja,
composta de pessoas redimidas pelo sangue de Cristo, não pode abrigar em seu
seio membros insinceros, hipócritas. É impossível a aproximação de Deus quando
se vive uma vida pecaminosa: “... e o
santo continue a santificar-se” (Ap 22.11b).
No Cristianismo,
é importante que toda a corrupção seja afastada do seu meio – daí o terrível
castigo de Ananias e Safira. Tal castigo ensinou a todos que a Igreja é uma
instituição sagrada, que não tolera a desonestidade.
4. A prisão dos Apóstolos (At
5.17-42)
Com o
propósito de impedir a ação da igreja, as autoridades religiosas de Israel
mandaram prender os apóstolos, porém, apesar de sua hostilidade, obtiveram
pouco êxito.
A pregação
da ressurreição de Jesus era, naturalmente, causa da grande amargura para os saduceus,
que diziam não haver ressurreição (At 23.8). Os apóstolos foram presos, “mas, de noite, um anjo do Senhor abriu as
portas do cárcere e, conduzindo-os para fora...” (v.19). No dia seguinte,
prontos para o julgamento, os membros do Sinédrio aguardavam que os presos
fossem levados à sua presença. No entanto, foram surpreendidos com a notícia de
que os apóstolos não se encontravam na prisão.
Neste
momento, Gamaliel interfere. Ele foi discípulo de Hilel e mestre de Saulo. Com
toda a sabedoria, tomando a palavra, Gamaliel menciona Teudas e Judas que,
prometendo separar as águas do Rio Jordão, como nos dias de Josué, fracassou e
foi atacado e morto.
Após citar
exemplos, Gamaliel deu o seu sábio parecer:
“... dai de mão a estes homens, deixai-os; porque, se este conselho ou esta
obra vem de homens, perecerá” (At 5.38).
5. O crescimento da Igreja
A cidade
crescia rapidamente e a Igreja também, mas a organização não podia ser deixada
de lado. A Igreja não poderia dar escândalo e os apóstolos não conseguiriam
fazer tudo sozinhos. Daí veio a necessidade de instituir diáconos.
No
princípio, a Igreja em Jerusalém cuidava dos seus membros pobres, especialmente
das viúvas. Devido à falta de organização na execução desse trabalho social, as
viúvas que pertenciam ao grupo de crentes de fala grega (helenistas) estavam
sendo negligenciadas pelos judeus de fala hebraica.
Em face do
problema e a possível instauração da desordem no seio da congregação, os
apóstolos convocaram uma reunião com toda a comunidade cristã de Jerusalém e
apresentaram o problema e a solução da seguinte maneira:
“Não é razoável que nós abandonemos a palavra de
Deus para servir às mesas. Mas, irmãos, escolhei dentre vós sete homens de boa
reputação, cheios do Espírito Santo e de sabedoria, aos quais encarregaremos
deste serviço; e quanto a nós, nos consagraremos à oração e ao ministério da
palavra.”
(At
6.2-4)
Parecendo
bem à congregação, foram indicados para exercer a função diaconal, os seguintes
irmãos: Estevão, Filipe, Prócoro, Nicanor, Timão, Pármenas e Nicolau. Dois dos
sete, Estevão e Filipe, estavam destinados a deixar marcas permanentes nos seus
serviços à Igreja. Ambos se projetaram muito além dos limites desta função
especial, para a qual foram designados.
Uma lição
que podemos aprender aqui é que deve haver distinção entre os oficiais da
Igreja: uns devem dedicar-se a “servir às mesas”, administrar as finanças e
cuidar dos necessitados e outros à pregação e à oração, todos juntos, em prol
do engrandecimento do Reino de Deus.
5.1. O Martírio de Estevão
Dos sete
primeiros diáconos da Igreja em Jerusalém, dois se destacaram como bem
sucedidos pregadores: Estevão e Filipe. Estevão se destacou dos demais,
particularmente, como um homem cheio de fé, graça, sabedoria e poder
espiritual.
Nos dias
de Estevão, havia inúmeras sinagogas em Jerusalém, algumas das quais
construídas por grupos de judeus de várias nacionalidades, para uso particular.
Todos os sábados, após as cerimônias do culto, naquele mesmo recinto,
travavam-se acaloradas discussões sobre a pessoa e a doutrina de Jesus de
Nazaré.
Em meio a
essas discussões acerca de Cristo e de Sua obra, surge então, o diácono
Estevão, jovem israelita, de nome grego. Conhecedor profundo da história do
povo eleito por Deus (Israel), Estevão tinha sua fé fundamentada nas promessas
divinas. Por isso, seu dinamismo espiritual o impelia a um incessante
testemunho para provar a supremacia definitiva do Evangelho sobre a lei
mosaica. Ele inicia sua pregação em Gênesis 12, relatando todo o Antigo
Testamento, focando Moisés e a superioridade de Cristo, como o Messias.
Diz Lucas
que, enquanto Estevão falava, seu rosto brilhava “como se fosse rosto de anjo” (At 6.15). Não podendo resistir de
forma alguma às palavras de Estevão, seus adversários passaram então, a
acusá-lo.
A
princípio, Estevão foi acusado de atacar o templo – centro de culto e adoração
de Israel. Então, “subornaram uns homens
para que dissessem: Ouvimos-lhe proferir palavras blasfemas contra Moisés e
contra Deus” (At 6.11).
As
autoridades não hesitaram em levá-lo a juízo e Estevão viu-se perante o mesmo
Concílio que crucificara a Jesus, e que, dias antes, proibira os apóstolos de
falar em Seu nome (4.18). Ali estavam também os sacerdotes Anás e Caifás,
lançando-se contra ele como feras. No final de seu discurso, cheio do Espírito
Santo, disse Estevão: “Eis que vejo os
céus abertos e o Filho do Homem, em pé à destra de Deus” (At 7.56).
Depois,
fora da cidade, as demais testemunhas atiraram-lhe pedras. Neste momento, o céu
se abriu para lhe oferecer entrada. Estevão morreu como morrera Cristo, sem
qualquer ressentimento contra seus algozes, orando: “Senhor, não lhes imputes este pecado!” (7.60).
Saulo era,
provavelmente, o único doutor da lei que se achava presente no ato da execução
de Estevão. É possível que as últimas palavras de Estevão tenham atingindo, em
cheio, o alvo, alojando-se no fundo do coração de Saulo, descortinando o evento
ocorrido a caminho de Damasco (At 26.14). No dizer de Agostinho, “o Cristianismo deve a conversão de Saulo à
oração de Estevão”.
5.2. Perseguição e Dispersão da
Igreja
O capítulo
8 do Livro de Atos registra, em seus versículos iniciais, a primeira
perseguição à Igreja em Jerusalém.
Após a
morte de Estevão, a perseguição contra a Igreja se intensificou; ninguém era
poupado. Saulo assolava a igreja. Seu zelo levou-o a devastar a igreja em luta
feroz contra o que ele considerava uma insuportável heresia.
A perseguição
empreendida contra a Igreja provocou a dispersão de seus membros e, ao mesmo
tempo, levou-a a uma compreensão mais profunda sobre o Evangelho que Jesus
Cristo lhe mandara pregar. Contribuiu também para ampliar a visão quanto à
magnitude da obra que Deus lhe confiara através da pessoa de Jesus Cristo.
Esse
ataque levou a comunidade cristã de Jerusalém, com seus milhares de membro, a
se dispersar. Buscando segurança para suas vidas, espalharam-se por toda a
Judeia. Os cristãos, com o coração cheio de fé e fervor, levaram o Evangelho
por onde quer que fossem. Alguns chegaram à grande cidade de Antioquia, na
Síria. Nessa cidade, em meio a uma população grega, os exilados tornaram Jesus
conhecido tanto de gregos como de judeus.
Jerusalém,
o principal distrito da Judeia, então província romana, foi evangelizada. Disso
o próprio sumo sacerdote deu testemunho: “encheste
Jerusalém dessa vossa doutrina” (At 5.28). Porque, então, sairiam os
primitivos cristãos de Jerusalém? Ali se achavam tão bem! O prestigio dos apóstolos
tomara vulto e os pobres, sob a proteção e socorro dos irmãos, sentiam-se
amparados e felizes. Porem, para cumprir-se a imutável vontade de Deus,
sobreveio a perseguição. Essas lutas proporcionaram dias amargos aos lares
cristãos, quando mulheres, velhos e crianças sofreram terríveis ultrajes, na
tentativa de forçá-los a negar Cristo. Os que se recusavam eram açoitados e não
poucos foram mortos.
Como
resultado da perseguição e da dispersão da Igreja, Filipe, um dos sete diáconos
da igreja em Jerusalém, partiu para a Samaria. A população samaritana passou a
ser por ele evangelizada. Até então, o Evangelho fora anunciado somente aos
judeus.
O Livro de
Atos registra ainda que, enquanto Filipe operava milagres, Simão, o mágico,
ficou perplexo e creu. Todavia, ele não queria deixar de lado as práticas pagãs
da magia. Desejou usar o que Deus deu a Filipe de forma a se exaltar e foi
fracassado. Ele foi enterrado vivo, prometendo reaparecer dentro de três dias,
mas não conseguiu. Ele não era Cristo. A literatura cristã posterior apresenta
Simão como o pai de todas as heresias.
Uma vez
estabelecido o trabalho do Evangelho em Samaria, o evangelista Filipe foi
enviado pelo Espírito Santo para entrar em contato com o eunuco, tesoureiro de
Candace, rainha dos etíopes. Ele estivera em Jerusalém para adorar e retornava
ao sul em uma carruagem. Enquanto viajava, lia ansiosamente e em voz alta a
maravilhosa profecia do Servo Sofredor, em Isaías 53. No entanto, era-lhe
necessário um intérprete da Palavra e Deus já o havia providenciado. Deus
enviou Filipe para anunciar-lhe Jesus e, após ouvir a exposição, o eunuco
aceitou a Jesus como Salvador, pediu para ser batizado e, depois, seguiu o seu
caminho desfrutando de muito júbilo.
Enquanto o
novo convertido seguiu sua viagem alegre, Filipe foi arrebatado pelo Espírito
do Senhor da presença do eunuco e achou-se depois em Azoto e “indo passando, anunciava o Evangelho em
todas as cidades, até que chegou a Cesareia” (v.40).
5.3. A Conversão de Saulo de Tarso
(At 9)
O capítulo
9 narra a conversão daquele que viria ser conhecido como o apóstolo dos gentios. Saulo era cidadão romano, por ter nascido na
cidade grega de Tarso, na Ásia Menor, à época pertencente ao Império Romano.
Ele teria sido levado para Jerusalém quando ainda criança, onde foi educado aos
pés de Gamaliel, notável doutor da lei e membro do Sinédrio. Para Saulo, a lei
de Moisés tinha validade eterna e o templo de Jerusalém era o inatingível
santuário do Senhor dos Exércitos. Este homem não só se empenhou no extermínio
do Cristianismo em Jerusalém, como também foi ao encalço daqueles que haviam
fugido para Damasco, a fim de conduzi-los de volta a Jerusalém, onde seriam
julgados e condenados à morte.
Já no
caminho para Damasco, aproximando-se da cidade, um jato de luz sobrenatural e
poderoso cegou Saulo e fê-lo cair por terra sob o som de uma voz que dizia: “Saulo, Saulo, porque me persegues?”.
Era Deus intervindo! Humilhado, o célebre fariseu pergunta: “Quem és tu Senhor?”. Respondendo-o,
Jesus disse: “Eu sou Jesus, a quem tu
persegues; mas levanta-te e entra na cidade, onde te dirão o que te convém
fazer”. A disposição de Saulo de ouvir e obedecer à voz de Jesus fez dele o
principal arauto do Evangelho no mundo então conhecido.
Cego,
Saulo, sob instrução divina, foi conduzido pelos homens que o acompanhavam à
casa de Judas, em Damasco, na Rua chamada Direita. A esse tempo, o Senhor já
havia falado ao Seu servo Ananias para fosse ao encontro de Saulo e lhe
impusesse as mãos para que recuperasse as vistas.
O próprio
Ananias ficou temeroso, pois conhecia os terríveis males feitos por Saulo aos
cristãos. Porém o plano de Deus era precioso e Ananias não teve mais dúvida ao
ouvir o Senhor dizendo que Saulo era um
instrumento escolhido. Após a conversão, de perseguidor que era Saulo
passou a ser perseguido. A fúria contra ele foi tão grande que teve que fugir
de Damasco e, somente três anos depois, voltar a Jerusalém.
Escreve
Lucas: “A Igreja, na verdade, tinha paz!”
(v.31). Isto quer dizer que a primeira grande onda de perseguição à Igreja
chegava ao fim com a conversão de Saulo, antes seu perseguidor-chefe.
6. A Fundação da Igreja
Gentílica
A Igreja,
fundada depois do dia de Pentecostes, era composta exclusivamente de judeus,
mas Deus tinha planos para os gentios também. Para que isso acontecesse, muitos
dogmas e preconceitos por parte dos judeus tinham que ser derrubados e Deus
sabia exatamente como fazer isso.
Cornélio
foi o primeiro gentio, no plano de Deus, a receber a mensagem do Evangelho.
Tratava-se de um oficial do exercito romano de Cesareia, a capital romana da
Judeia, onde ficava o comando geral militar da província. A coorte à qual
Cornélio integrava como centurião era, presumivelmente, a guarda do próprio
governador.
Lucas
descreve Cornélio com palavras elogiosas: “piedoso
e temente a Deus com toda a sua casa” (At 10.2); dava esmolas e era homem
de oração. Cornélio foi instruído a enviar mensageiros a Jope, onde Pedro se
encontrava. Este era portador da palavra e conduziria o centurião romano à
salvação que tanto ansiava. Enquanto isso, Deus preparava igualmente a Pedro
para este encontro histórico (At 10.9-16).
Sem
dúvida, Pedro teria negado a atender o chamado do gentio Cornélio, se não fosse
a visão especial recebida da parte do Senhor (o lençol com diversos animais),
pois seu exclusivismo religioso o teria impedido. Obedecendo a voz divina, foi
para Cesareia, pregou a palavra e não apenas Cornélio, mas a família e alguns
amigos foram convertidos e cheios do Espírito Santo. Na casa de Cornélio, o
gentio, se repetiu a experiência do dia de Pentecostes e eles foram aceitos
como membros da Igreja. Não há dúvida de que este advento muito contribuiu para
a fundação da igreja de Antioquia.
Lemos que
os que eram da circuncisão (11.2) procuraram contender com Pedro. Os judeus
estavam prontos a se associarem aos gentios, mas àqueles que estivessem
circuncidados, jamais a incircuncisos. Era-lhes muito difícil aceitá-los,
claro, devido ao seu orgulho, ou ainda por falsa interpretação do Antigo
Testamento. Pedro fora iluminado por Deus a respeito de que:
a.
Chegara a hora de os gentios
ingressarem na Igreja de Deus (10.17-20);
b.
Mediante Cristo, chegara a
hora de não haver distinção entre judeus e gentios (10.8);
c.
Era da vontade de Deus que
judeus crentes entrassem no lar de gentios, para com eles terem plena comunhão,
participando, inclusive, das refeições em comum (10.17; 11.2-3);
d.
As leis mosaicas com respeito
à alimentação haviam sido abolidas, bem como as demais leis que criavam
barreiras entre os judeus e os gentios (15.1,10,11,24,28,29).
À grande
multidão extasiada que, prostrara diante do Cenáculo, na manhã do dia de
Pentecostes, respondera o apóstolo Pedro:
Arrependei-vos,
e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo, para perdão dos
pecados; e recebereis o dom do Espírito Santo; Porque a promessa vos diz
respeito a vós, a vossos filhos, e a todos os que estão longe, a tantos quantos
Deus nosso Senhor chamar. (Atos 2:38,39)
O que
Pedro dissera naquela oportunidade era simplesmente admirável e prático. Não muitos
dias depois, essa profecia se cumpria na vida dos samaritanos que foram
alcançados pelo Evangelho, através do poderoso ministério do evangelista Filipe.
Poucos
anos depois, o Espírito Santo foi, mais uma vez, derramado efusivamente, agora
sobre os gentios que, em expectativa, ouviam as palavras do apostolo Pedro na
casa do centurião Cornélio, em Cesareia.
Interessante
que seis homens da Judeia acompanharam Pedro até Cesareia. Era a providência
divina, pois estes seriam as testemunhas oculares de tudo que iria acontecer na
casa de Cornélio. Foram, pois, estes homens que “admiraram-se, porque também sobre os gentios foi derramado o dom do
Espírito Santo; pois, os ouviam falando em línguas e engrandecendo a Deus”
(At 10.44-46).
6.1. Os Discípulos em Antioquia
Chamada de
“Antioquia, a Bela” e “Rainha do Oriente”, a cidade era embelezada com tudo
quanto a riqueza romana, a estética grega e o luxo oriental podiam produzir.
Todavia, era uma das mais sórdidas e depravadas cidades do mundo. O culto a
Astarote pelas mulheres de Antioquia era tão indecente que Constantino mais
tarde o aboliu pela força.
Mas
multidões do seu povo aceitaram a Cristo. Em Antioquia, os discípulos de Jesus
foram chamados de “cristãos” pela
primeira vez. A cidade tornou-se, então, o centro de um esforço organizado para
a cristianização do mundo.
Quando a
notícia dessa “inovação” chegou a Jerusalém, desejosos de averiguar o caso, os
apóstolos mandaram para Antioquia o homem apropriado para esse fim: Barnabé.
Quando ele chegou, ao invés de se escandalizar com a mistura de judeus e
gentios, regozijou-se diante desse precioso sinal da graça de Deus e quis
auxiliar, no que fez a obra de Deus progredir rapidamente.
Foi por
esse tempo que o profeta Ágabo anunciou, na igreja de Antioquia, que estava por
vir grande e generalizada fome sobre o mundo. Nesse tempo, Barnabé e Saulo
foram enviados a Jerusalém pela igreja de Antioquia, conduzindo à igreja-mãe o
produto de uma oferta especial que a igreja-filha levantara para ajudar os
cristãos palestinenses em sua situação angustiosa.
A
perseguição ordenada por Herodes Agripa I aos cristãos foi o terceiro grande
ataque das forças do mal contra os discípulos. O primeiro fora chefiado pelos
saduceus; o segundo, pelos fariseus.
Herodes
usou a Lei contra os apóstolos, pois era um crime um judeu comer com um gentio
incircunciso e mandou executar Tiago, o filho de Zebedeu e prender Pedro (que o
anjo o libertou). As palavras “vendo ser
isto agradável aos judeus” (v.3) são significativas pelas razões já
expostas.
Herodes
Agripa I era filho de Aristóbulo e neto de Herodes, o Grande, e de Mariana,
neta de João Hircano. A narrativa da sua morte vem mais uma vez confirmar o
poder de Deus, em cujas mãos está o controle de toda a História. Em um dia
designado, Herodes, vestido de trajo real, assentado no trono, dirigiu a
palavra ao povo e eles clamavam: “É voz
de um deus e não de homem”. Herodes teve a petulância de querer ser visto
pelo seu povo como se fosse Deus, colocando de lado o próprio Criador, e o
povo, com o fim de agradá-lo, gritava que era a voz de um deus. O rei não rejeitou a aclamação e, por causa
disso, o anjo de Deus o feriu e morreu comido por vermes.
7. A Vocação Missionária da
Igreja (At 13-17)
A partir
do capítulo 13, estaremos diante do missionário PAULO, home que, diríamos,
viveu intensamente o antes e o depois. Isto é, antes sem Cristo e depois com
Cristo. Diz Lucas: “Todavia, Saulo,
também chamado Paulo” (13.9).
Voltando
Barnabé e Saulo de Jerusalém para Antioquia, levaram consigo João Marcos, o
sobrinho de Barnabé e, por algum tempo, continuaram ministrando a Palavra de
Deus à igreja naquela cidade. Além de Barnabé e Paulo, a Igreja de Antioquia
tinha mestres ilustres, como Lúcio de Cirene, Simeão por sobrenome Níger e
Manaém.
Todavia, o
Espírito Santo tinha outra obra a realizar, pelo que orientou à igreja em
Antioquia (possivelmente, através de um daqueles profetas) para que separasse
Barnabé e Saulo para executarem o trabalho para o qual os tinha chamado. Nisto,
João Marcos partiu com eles como cooperador e bem os serviu pelo fato de
possuir melhor conhecimento do Evangelho.
Ressaltamos
aqui que o caráter missionário é um dever e privilégio da Igreja e envolve um
relacionamento trino:
1) com
Deus; 2) com seus membros e; 3) com o mundo
7.1. A Primeira Viagem Missionária
Saindo do
porto de Antioquia, Barnabé, Paulo e João Marcos desembarcaram em Salamina, na
ilha de Chipre e ali começaram a pregar nas sinagogas dos judeus. Chegando em
Pafos encontraram um individuo chamado BarJesus (Elimas), falso profeta que
pertencia à roda íntima de Sérgio Paulo, procônsul da província. Com medo de
perder sua posição junto ao procônsul, BarJesus procurou levar Sérgio Paulo a
desacreditar na mensagem que Paulo pregava. Em razão disso, Paulo declarou que
o falso profeta ficaria cego por zombar de Deus, o que aumentou o desejo de
conversão de Sérgio Paulo que, maravilhado, creu na doutrina do Senhor.
De Chipre,
a comitiva missionária atravessou de navio para a Ásia Menor. Tendo chegado a
Perge da Panfília, João Marcos decidiu abandonar a Barnabé e Saulo, voltando
para Jerusalém. Assim, sem o jovem, ambos dirigiram-se para o interior,
chegando a Antioquia da Pisídia, colônia romana de Galácia, onde ficaram por
algum tempo e ganharam vidas para Cristo.
Deixando
Antioquia da Psídia, Barnabé e Saulo foram para Icônio, onde tiveram uma
temporada abençoada com a salvação de muitos judeus e gentios, mas foram
obrigados e a deixar a cidade, sob intensa perseguição. De lá chegaram a Listra
e Derbe, onde fundaram muitas igrejas e, após, voltaram por Listra, Icônio e Antioquia
da Pisídia, encorajando os discípulos, dizendo-lhes: “através de muitas tribulações, nos importa entrar no Reino de Deus”
(14.22), e consolidando as igrejas novas com a eleição de presbíteros
(pastores) em cada uma delas. Seguindo, foram pregando o Evangelho por onde
passavam até alcançarem a cidade portuária de Atália, onde embarcaram com
destino à Antioquia da Síria “onde tinham
sido encomendados à graça de Deus para a obra que haviam já cumprido” (14.26).
Admite-se
que entre a partida e a volta, esta primeira viagem missionária de Paulo deve
ter durado de dois a três anos, mais ou menos, entre 46 e 48 d.C.
7.2. O Concílio de Jerusalém
As igrejas
fundadas por Paulo e Barnabé durante sua primeira viagem missionária foram as
da Galácia, às quais Paulo dirigiu a carta que hoje conhecemos. Não muito
depois de ter deixado aquelas igrejas, surgiu no meio delas uma crise de ordem
doutrinária. Essa crise foi provocada pelos judaizantes, que ensinavam aos
gentios convertidos: “se não vos
circuncidardes segundo o costume de Moises, não podeis ser salvos” (At
15.1). Nem todos os cristãos judeus concordavam com Paulo que o Novo Concerto
se estabelecera pela fé, mas, sim, pela circuncisão. Ensinavam, então, que,
para serem salvos, os gentios precisavam ser circuncidados, de acordo com os
ensinos de Moisés.
Tendo
tomado conhecimento desse fato, Paulo, que se achava em Antioquia,
escreveu-lhes uma carta urgente, na qual logo no início mostra o seu desagrado
diante do que estava ocorrendo: “Admira-me
que estais passando tão depressa... para outro evangelho” (Gl 1.6).
De acordo
com Gálatas 2.11, os judaizantes faziam prevalecer seu ponto de vista com tanto
vigor que até Pedro, que estava em Antioquia nesse tempo, foi induzido a uma
discussão com Paulo, que se fez contrário a tudo aquilo. Pedro havia afastado
dos gentios incircuncisos por causa da pressão judaizante e Paulo o exortou
duramente. Após, na assembleia em Jerusalém, que se seguiu, Pedro apoiou
completamente a argumentação de Paulo.
O fato de
ter a noticia da conversão dos gentios produzido “grande alegria a todos os
irmãos” favoreceu, de modo especial, a posição de Paulo e de Barnabé naquela
assembleia. Por fim, Tiago assume a palavra e apresenta um resumo judicioso e
propõe um decreto que foi submetido à aprovação da assembleia. A carta
apresentava o seguinte teor:
Aos
apóstolos, anciãos e presbíteros, aos irmãos dentre os gentios que estão em
Antioquia, e Síria e Cilícia, saúde. Porquanto ouvimos que alguns que saíram
dentre nós vos perturbaram com palavras, e transtornaram as vossas almas,
dizendo que deveis circuncidar-vos e guardar a lei, não lhes tendo nós dado
mandamento, pareceu-nos bem, reunidos concordemente, eleger alguns homens e
enviá-los com os nossos amados Barnabé e Paulo, homens que já expuseram as suas
vidas pelo nome de nosso Senhor Jesus Cristo. Enviamos, portanto, Judas e
Silas, os quais por palavra vos anunciarão também as mesmas coisas. Na verdade
pareceu bem ao Espírito Santo e a nós, não vos impor mais encargo algum, senão
estas coisas necessárias: Que vos abstenhais das coisas
sacrificadas aos ídolos, e do sangue, e da carne sufocada, e da fornicação, das
quais coisas bem fazeis se vos guardardes. Bem vos vá.
(Atos 15:23-29) .
(Atos 15:23-29) .
7.3. A Segunda Viagem Missionária
de Paulo
Dirimidas
as dúvidas quanto à questão dos judaizantes, Paulo e Barnabé concordaram em
fazer uma visita às igrejas estabelecidas durante a primeira viagem missionária
que haviam feito. Porém, João Marcos foi ponto de discórdia entre ambos.
Barnabé
decidira levar João Marcos com eles, mas Paulo rejeitou a ideia, alegando que o
jovem havia deixado a primeira viagem e poderia fazer isto novamente. Esta
contenda causou divisão entre ambos e Barnabé, levando João Marcos, foi
novamente para Chipre, enquanto que Paulo, levando Silas em sua companhia, saiu
para percorrer a Ásia Menor, visitada na primeira viagem missionária, ocasião
em que entregou às igrejas as cópias da decisão apostólica tomada na assembleia
de Jerusalém.
Partindo
de Antioquia, Paulo e Silas chegaram a Listra, onde encontraram Timóteo. Paulo
se agradou tanto dele que o levou consigo. No versículo 10 do capítulo 16, o
escritor Lucas deixa de usar o pronome “ele” e passa a usar o “nós”, sugerindo
que, em Trôade, Lucas juntou-se a Paulo e seus companheiros.
De Trôade,
o grupo missionário seguiu para Filipos (16.11-40). A primeira pessoa
convertida nessa cidade foi Lídia, negociante de púrpura, proveniente de
Tiatira. Possivelmente foi ela a organizadora da igreja naquela cidade. Convém
lembrarmos que foi ainda na cidade de Filipos que se deu a linda conversão do
carcereiro que tomava conta de Paulo e Silas (16.27-40).
Da cidade
de Filipos, Paulo e seus companheiros seguiram para a maior cidade da
Macedônia, que era a Tessalônica (17.1-9). Nessa região, muitas pessoas se
converteram e inimigos acusaram o grupo de “transformar
o mundo” (At 17.6), um ‘elogio’ nada pequeno face à magnitude de sua obra.
Partindo
de Tessalônica, os missionários foram a Bereia. Ali, Paulo teve um ministério
bem aceito, pois os bereanos mostraram-se receptivos às verdades das
Escrituras. De Bereia, Paulo alcançou a grande cidade de Atenas, onde pregou o
conhecido sermão sobre O DEUS DESCONHECIDO. Partindo dali, o apóstolo seguiu
para Corinto e após voltou a Jerusalém e Antioquia.
7.3.1. Paulo chega a Atenas
Durante
mil anos, de 500 a.C. a 500 d.C., Atenas foi o centro da filosofia, da
literatura, da ciência e da arte; sede também da maior universidade do mundo.
Atenas era regida por um conselho denominado “Areópago”, que não era um lugar,
mas um conselho que tinha também autoridade sobre tudo o que era ensinado.
Poderíamos dizer que Atenas era uma cidade religiosa; suas ruas eram cheias de
ídolos, altares e templos.
Na Ágora,
Paulo disputou a argumentação com os adeptos das duas escolas mais ilustres de
Atenas, formadas pelos estoicos e pelos epicureus, que o levaram à corte do
Areópago, para que expusesse o seu ensino.
O discurso
de Paulo perante aquele grupo de pessoas, conforme a narrativa de Lucas,
começou com uma referência ao altar dedicado ao DEUS DESCONHECIDO: “...passando eu e vendo os vossos
santuários, achei também um altar em que estava escrito: AO DEUS DESCONHECIDO.
Esse pois, que vós honrais não o conhecendo, é o que eu vos anuncio.”(At
17.23). Paulo declarou, pois, que a sua missão era tornar conhecido esse Deus a
que todos os atenienses adoravam sem conhecer! Enfatizou que Deus não deveria
ser adorado segundo o sistema idolátrico de Atenas e do mundo pagão em geral e
prosseguiu conclamando a todos a se arrependerem, porquanto Deus “tem determinado um dia em que com justiça
há de julgar o mundo, por meio do varão que destinou” (v.31).
Cristo, o
Homem designado para executar esse juízo, havia ressurgido dentre os mortos. Os
ouvintes, que até então haviam se mostrado interessados nas palavras de Paulo,
passaram para uma segunda posição: não concordaram com ele, ao mencionar
“ressurreição”. Passaram a escarnecer e a zombar do que Paulo dizia. A
imortalidade da alma era um ponto comum para as diversas escolas filosóficas de
Atenas, porém a ressurreição do corpo era para eles tão absurda quanto
indesejável. Houve, porém, alguns homens que se agregaram a ele e creram; entre
eles estava Dionísio, o areopagita, uma mulher chamada Dâmaris e, com eles,
outros mais (v.34).
7.3.2. Paulo em Corinto
Saindo de
Atenas, Paulo seguiu para Corinto, grande cidade comercial, a maior de todas
que já visitara. Esta, por muito tempo ficou conhecida como uma cidade de
extrema imoralidade. Em Corinto, fora edificado um templo dedicado à Afrodite,
chamada de “deusa do amor”. Nesse templo haviam prostitutas “consagradas” e
dedicadas ao culto da orgia e da imoralidade.
Paulo
conhecia a importância de se fundar uma igreja naquela cidade, razão pela qual
passou ali dezoito meses, onde encontrou o casal Áquila e Priscila, que lhe
prestou relevante auxílio em seus trabalhos posteriores.
O
ministério de Paulo na cidade de Corinto começou na própria sinagoga da cidade,
mas não tardou muito para que os judeus fechassem as suas portas para ele.
Então, Tício justo, que era temente a Deus, abriu as portas da sua casa e Paulo
passou a prega ali, ocasião em que “...
muitos dos coríntios, ouvindo, criam e eram batizados”. Ao deixar Corinto,
Apolo fica em seu lugar.
7.4. A Terceira Viagem Missionária
de Paulo
Evangelizar
os povos gentílicos constituiu, indiscutivelmente, a meta principal do
ministério do apóstolo Paulo e as perseguições sofridas não exerceram qualquer
influência negativa que o impedisse.
Chegara o
momento de realizar a terceira viagem missionária, que viria a ser, na verdade,
a última, e “... saiu, atravessando
sucessivamente a região da Galácia e Frígia, confirmando todos os discípulos”
(18.23).
Saindo de
Jerusalém, Paulo passou em Éfeso, visitou partes da Macedônia e Corinto, na
Grécia, onde escreveu sua carta aos romanos. Seguiu para Trôade, onde
ressuscitou o jovem Êutico; prosseguiu para Mileto, depois Tiro, Cesareia e por
fim, de volta a Jerusalém, onde foi preso enquanto adorava no templo.
Quando
Paulo chegou à Éfeso, encontrou doze discípulos de João Batista, que haviam
crido na mensagem por ele pregada e batizados nas águas. Todavia, eles
ignoravam a pessoa de Cristo e Seu ministério. Então, após falar de Jesus a
eles, Paulo impôs-lhes as mãos e veio sobre eles o Espírito Santo, no que
começaram a falar outras línguas e a profetizar. Lucas deixa claro no capítulo
19 de Atos que Éfeso fora alcançada pelo Evangelho bem antes da chegada de
Paulo à cidade, mas ao apóstolo coube completar a obra.
Éfeso era
uma cidade rica, populosa e centro administrativo da província asiática.
Abrigava uma população pervertida, corrompida por chocantes imoralidades, como
assassinato, dissolução, concupiscência, gula e bebedeiras que se disseminavam
por toda parte.
Durante
três meses Paulo ensinou na sinagoga, procurando alcançar os judeus com o
Evangelho. Depois, por dois anos, diariamente, ensinou na escola de Tirano (uma
sala de aula de um filósofo). Desta pequena sala, Paulo abalou a cidade até os
alicerces.
Durante o
tempo em que permaneceu em Éfeso, Paulo teve um ministério de milagres
indiscutivelmente proporcional ao êxito alcançado. Esses milagres foram
concedidos por Deus naquele momento específico com os propósitos de derrotar
Satanás e libertar seus prisioneiros espirituais, desmascarar embusteiros e
propagar o Evangelho.
Após
profícuo ministério em Éfeso, Paulo decidiu ir para Jerusalém. Depois dessa
visita a Jerusalém, a intenção de Paulo foi navegar do Mediterrâneo Oriental em
direção ao Ocidente, passando pela cidade de Roma a caminho da Espanha. Após
sua entrada em Filipos, o apóstolo seguiu juntamente com Lucas para Trôade.
Nessa cidade, para despedir-se, Paulo pregou um longo sermão, que durou até o
amanhecer. Foi por volta da meia-noite que se deu um fatal acidente em que um
jovem de nome Êutico, vencido pelo sono, cai da janela do terceiro andar, onde
se encontrava assentado. Todavia, sua vida foi restaurada miraculosamente
através de Paulo.
Logo ao
amanhecer, Paulo se encontra com os presbíteros da igreja de Éfeso em Mileto, o
que é importante, pois é o único registro de um sermão seu diante de um
auditório formado só de cristãos. O sermão lança luz sobre o curso dos
acontecimentos ocorridos com Paulo há pouco e sobre seu futuro próximo, embora
nada o faça temer diante da determinação de levar adiante a obra divina a ele
destinada e de concluir sua carreira jubilosamente. Ao apóstolo importava
pregar a Cristo e glorificar o nome de Deus, ainda que isso significasse
desobedecer à vontade dos homens e consequente risco de vida.
Chegando
em Cesareia, Paulo encontra Filipe novamente. Ele era um dos sete diáconos
escolhidos pelos apóstolos em Jerusalém e famoso evangelista, conforme já
estudamos. Ei-lo, agora, em sua própria casa, com as quatro filhas profetisas.
Tanto em Tiro como Cesareia, o Espírito Santo continuou a revelar a Paulo o que
estava para lhe acontecer quando chegasse em Jerusalém, predizendo a sua prisão
(At 20.23; 21.4,10-12).
Nesse
momento, todos os que queriam o bem de Paulo, rogou a ele que não subisse a
Jerusalém, mas o apóstolo respondeu: “Que
fazeis chorando e quebrantando-me o coração? Pois estou pronto não só para ser
preso, mas até para morrer em Jerusalém pelo nome do Senhor Jesus” (v.13).
Quando
Paulo chegou à Jerusalém, foi recebido pelos cristãos, os quais lhe dispensaram
um tratamento autêntico na fraternidade cristã. No dia seguinte à sua chegada,
Paulo encontrou-se com Tiago, a quem contou a respeito da atuação divina entre
os gentios e juntos glorificaram a Deus.
Os
cristãos de Jerusalém estavam cientes do perigo que estavam correndo e
sugeriram a Paulo que demonstrasse publicamente que ele não era contrário à
prática dos costumes judaicos. Paulo disse: “Procedi,
para com os judeus, como judeu, a fim de ganhar os judeus” (ICo 9.20).
Ao chegar
o último dia da prática do rito de purificação, alguns judeus não-cristãos da
Ásia viram Paulo no templo e, então, tumultuaram o ambiente. Lançaram quatro
acusações, alegando que Paulo:
1.
Não era leal ao seu próprio
povo;
2.
Pregava que os cristãos não
eram obrigados a participar das festas em Jerusalém nem das cerimônias do
templo;
3.
Pregava que não era
necessário guardar as leis de Moisés e;
4.
Introduzira gregos no
interior do templo, profanando o santo lugar.
Assim,
irrompeu um grande alvoroço, enquanto o povo, cheio de ira, arrastava Paulo
para fora do templo, espancando-o. Porém, quando estava sendo acorrentado para
receber os açoites, Paulo declarou ser cidadão romano, o que lhe favoreceu
escapar da sanha popular e dos flagelos que lhe seriam impostos pela guarnição
romana.
Como as
acusações contra Paulo envolviam aspectos da lei judaica, Lísias, o comandante
da guarnição romana, encaminhou o apóstolo à presença do Sinédrio para ser
julgado. Agora, Paulo se sentia de igual para igual. Olhando detidamente para o
Conselho, dirigiu-se a seus membros, chamando-os de irmãos. Paulo não teve
receio de declarar a eles a convicção de estar fazendo a vontade de Deus.
Ousado e destemido, o apostolo conseguiu conduzir o assunto de forma a gerar
controvérsia doutrinária. Ele havia reconhecido, a esta altura, estar diante de
dois grupos: os saduceus e os fariseus. Se ele pertencera ao Sinédrio, conhecia
as divergências dos dois grupos quanto à doutrina da ressurreição, dos anjos e
dos espíritos. Paulo afirmou que estava sendo julgado porque pregava a
ressurreição dos mortos, o que provou sério conflito entre os dois grupos e o
julgamento foi frustrado e ele foi enviado para Cesareia, na presença de Félix,
o procurador romano da Judeia.
Sempre
fizera parte dos planos de Paulo visitar Roma, entretanto, não surgira qualquer
oportunidade até aquela data. Eis que, de repente, Paulo ouve a voz do Senhor: “Coragem! Pois, do modo por que deste
testemunho a meu respeito em Jerusalém, assim importa que também o faças em
Roma” (At 23.11). Paulo apena não imaginara, de forma alguma, ser conduzido
por Deus a Roma para ali testemunhar na condição de prisioneiro. O “pior”
método de Deus para tratar conosco e em nós continua sendo muitíssimo melhor do
que o “melhor” que nós mesmos possamos planejar para nossa vida.
Poucos
dias depois da chegada de Paulo a Cesareia, uma delegação do Sinédrio em
Jerusalém, tendo à frente o sumo sacerdote Ananias, assistido por um orador
medíocre chamado Tértulo – uma espécie de advogado, desceu à Cesareia para
apresentar uma acusação contra Paulo.
As queixas
eram de natureza política e religiosa: o apóstolo era, segundo conceito dos
judeus, “uma peste”, criador de
dissensões entre os próprios judeus de todo o mundo e o cabeça da seita dos
nazarenos. Também foi acusado de profanar o templo.
Paulo
refutou de maneira categórica a fala de Tértulo, dizendo exatamente o que o
trouxera a Jerusalém e o que fizera desde que aí chegara, insistindo outra vez
que toda a controvérsia entre ele e seus opositores se concentrava na questão
da ressurreição, que não era uma ideia por ele inventada, sendo inclusive
esperada pelos demais judeus.
Em parte,
Paulo admitiu a segunda acusação que lhe faziam, mas corrigiu-a em pontos muito
importantes. Confessou que, de fato, participava desse “Caminho” a que os judeus chamavam “seita”, mas tal Caminho era o
verdadeiro Judaísmo. Já a terceira acusação, referente à profanação do templo,
era absurda. Paulo afirmou que, muito ao contrario, achou-se “purificado no templo, sem ajuntamento e sem
tumulto”.
A essa
altura dos acontecimentos, o governador Félix adiou o prosseguimento da causa
até que o comandante Lísias descesse de Jerusalém para dar o seu depoimento.
Por outro lado, Félix estava convencido de que Paulo não tinha culpa de crime
algum que estivesse na alçada de seu tribunal, mas duas razoes havia no momento
para deixar Paulo detido: ele temia os judeus e esperava receber algum dinheiro
do apóstolo.
A
curiosidade de Félix por este prisioneiro fora despertada de tal forma que
pediu uma apresentação particular da sua mensagem. Foram, então, invertidas as
posições! Antes, tratava-se de Paulo diante de Félix e, agora, travava-se de
Félix diante de Paulo. As palavras do apóstolo sobre a “justiça, o domínio próprio e o Juízo vindouro” recaíam em cheio
sobre a casa real. A palavra de Paulo sobre o autocontrole podia ferir fundo a
vaidade, o ciúme e o mundanismo de Drusila. Como nada recebia em troca da sua
atenção pessoal, Félix mandou que Paulo fosse recolhido à prisão.
Pórcio Festo
(governador da província romana da Judeia na condição de procurador) chegou à
província da Judeia em certo dia do ano 59 d.C.; poucos dias depois, subiu de
Cesareia, sede do governo, a Jerusalém, a fim de encontrar-se com o sumo
sacerdote e o Sinédrio. Desejando agradar os judeus no início de sua gestão,
perguntou se Paulo queria subir a Jerusalém e lá, perante ele, ser julgado.
Temendo a fraqueza de Festo, o apóstolo tomou a decisão do seu privilégio de
ser cidadão romano, apelando para César.
Festo
tinha que redigir um documento, apresentando Paulo à Corte Imperial em Roma e,
aproveitando a visita de Herodes Agripa II e sua irmã Berenice, Festo os
procurou com o intuito de ajudá-lo nesta formulação. A dificuldade de Festo
girava em torno de “certo morto, chamado
Jesus, que Paulo afirmava estar vivo” (At 25.19).
Agripa
ficou tão interessado em Paulo que manifestou o desejo de vê-lo. Foi assim que,
no dia seguinte, Festo, Agripa e Berenice apresentaram-se em grande pompa e
luxo com a comitiva do procurador e as principais personagens de Cesareia.
Paulo foi trazido à presença de todos e obteve a permissão para expor o que
ocorria.
Depois das
palavras de gratidão a Agripa, Paulo tratou dos pontos de maior relevância em
sua vida e ministério, do seu Judaísmo completo; da sua conversão, que só
aconteceu por intervenção de Deus; do seu ministério para os judeus e os
gentios; da sua vida de obediência à vontade de Deus e; da sua crescente
afirmação do Evangelho do Cristo, que fora morto, mas agora está vivo. Por fim,
proclamou Jesus como a luz para o povo judeu e gentio (v.22-23).
Paulo já
falava com inflamado entusiasmo e, para Festo, um oficial romano, pagão e
ignorante nas Escrituras, um discurso público com descrições de visões,
revelações e ressurreição era demais! Foi a esta altura que interrompeu o
apóstolo, dizendo: “Estás louco, Paulo!
As muitas letras te fazer delirar” (v.24). O discurso eloquente de Paulo
fora interrompido, mas não fora abalada a sua firma confiança.
Mesmo sem
contar com a compreensão de Festo, Paulo direciona a Agripa e continua: “Acreditas, ó rei Agripa, nos profetas? Bem
sei que acreditas!”. Agripa respondeu: “Por
pouco me persuades a me fazer cristão”. Paulo continuou com sinceridade,
zelo e cortesia: “Assim Deus permitisse
que, por pouco ou por muito, não apenas tu, ó rei, mas todos os que hoje me
ouvem se tornassem tais qual eu sou, exceto estas cadeias”. Paulo queria
compartilhar sua fé sem compartilhar as perseguições das quais o fizera estar
preso.
Tendo
Paulo chegado ao fim de seu discurso, os membros do tribunal levantaram-se.
Festo, Agripa e Berenice, conversando entre si, chegaram à conclusão de que o apóstolo
não cometera nenhum crime. Portanto, não merecia morrer, nem continuar em
prisão. Bem podia ser solto se não houvesse apelado para César.
8. Paulo vai a Roma (At 27-28)
Ao
descrever a viagem de Paulo, Lucas procura sempre destacar a profunda confiança
que ele tinha no seu Senhor, até mesmo nos momentos mais difíceis. Paulo deu
perfeita demonstração de fé e segurança em Deus durante todo o tempo da viagem
a caminho de Roma. Lucas enfatiza também que ele e Aristarco de Tessalônica,
estavam com Paulo.
Paulo foi
entregue aos cuidados do centurião Júlio, de quem obteve um tratamento
especial. Acredita-se que Júlio tenha ouvido o discurso de Paulo diante de
Agripa, quando o apóstolo foi declarado inocente mais uma vez.
No dia
seguinte à saída de Cesareia, o navio que levava Paulo chegou à cidade de
Sidom, onde ele teve permissão para ver alguns amigos e receber deles alguma
assistência. Partindo de Sidom, os missionários navegaram ao longo da costa de
Chipre, atravessando o mar ao longo da Cilícia e Panfília, chegando a Mirra, na
Lícia. Foi aí que o centurião achou um navio alexandrino, abarrotado de trigo
com destino a Roma e fez embarcar neles todos os presos.
Na
primeira etapa de sua viagem a Roma, após várias dificuldades, Paulo chega a
Bons Portos, lugar para um breve descanso. Antes de retomar a viagem, como era
o final da estação para se navegar ali com segurança, admite-se que houve uma
reunião de comando de bordo, da qual Paulo, na qualidade de navegante
experiente, possivelmente participou.
Foi nesta
reunião que Paulo, por uma revelação especial de Deus, disse ao comandante de
bordo e à tripulação do navio: “Senhores,
vejo que a viagem vai ser trabalhosa, com dano e muito prejuízo, não só da
carga e do navio, mas também da nossa vida” (At. 27.10). Entretanto, diz
Lucas que o centurião que conduzia os presos dava mais crédito ao piloto e ao
mestre do navio do que ao que dizia o apóstolo.
A
princípio, parece que a viagem seria feita sem problemas. Todavia, não demorou
muito e levantou-se um tufão de um lado da ilha, batendo com ímpeto contra o
navio. Cedo o navio mostrou-se insuficiente para suportar a violenta tempestade
e a tripulação também, incapaz de conduzi-lo ao rumo certo, deixando-o então a
mercê da tormenta.
Num dos
momentos mais críticos da historia, documenta Lucas: “e, não aparecendo, havia já alguns dias, nem sol nem estrelas, caindo
sobre nós grande tempestade, dissipou-se afinal toda a esperança de salvamento”.
Tal era o desespero que os viajantes já não se alimentavam mais. Então, Deus
usou Paulo e ele informou aos 276 companheiros de bordo que, embora o navio
fosse se perder, nenhuma vida seria atingida.
8.1. O Naufrágio
Na décima
quarta noite de viagem, os marinheiros perceberam que o navio aproximava da
terra e as âncoras foram baixadas para evitar que a embarcação batesse nos
rochedos. Paulo, logo ao amanhecer, reunindo todas as forças e passando por
entre os companheiros de sofrimento, procurou encorajá-los e aconselhá-los a se
alimentarem. Havia 14 dias que estavam em jejum. Então, unindo o conselho ao
exemplo, Paulo “tomando o pão, deu graças
a Deus na presença de todos; e, partindo-o, começou a comer” e todos foram
movidos a segui-lo: “puseram a comer
também”.
Após terem
se alimentado, aliviaram a carga do navio, arremessando o trigo no mar e,
avistando uma praia, partiram rumo à ela. Inesperadamente, foram dar num
recife, causando um impacto, levando ao naufrágio.
Outro
exemplo do cuidado de Deus é que, temendo que os presos escapassem, os soldados
pretenderam exterminá-los. No entanto, o centurião Júlio, que tratava Paulo com
certa consideração, não concordou com a ideia dos soldados e assim ninguém foi
morto.
Que
momentos indescritíveis aqueles! Centenas de náufragos semimortos de fome e
cansaço, em luta contra a morte. Dentre eles, Paulo, o heroico soldado de
Cristo, emergiu das ondas do Mar Mediterrâneo, chegando à praia, vitorioso,
pois a promessa do Senhor de que ninguém morreria acabava de se cumprir.
Uma vez em
terra, verificaram que a ilha se chamava Malta (28.1) e Lucas narra com
diversidade de detalhes a maneira carinhosa como os náufragos foram recebidos e
hospedados pelos habitantes de Malta. Os naturais da ilha eram chamados “bárbaros”, pois não dominavam a língua
grega, mas foram muito gentis e ofereceram todo o conforto que puderam.
Enquanto
Paulo, ajudando na fogueira, lançava um feixe de varas no fogo, uma víbora
picou-lhe a mão. Todos pensaram que ele morreria, mas ao vê-lo lançar a víbora
no fogo, como se nada tivesse acontecido, passaram a pensar que o apóstolo era
um deus, no que Paulo aproveitou para pregar a respeito do verdadeiro Deus.
Lucas diz
que Paulo foi recebido na propriedade de Públio, o principal homem da ilha. Seu
pai estava gravemente enfermo. Paulo orou e o homem ficou curado, bem como
todos os outros doentes da ilha que por ele procuraram. Não sabemos se aqueles
três meses foram suficientes para a organização de uma igreja, contudo sabemos
que o Evangelho foi pregado.
8.2. Paulo chega a Roma
Após três
meses de permanência na ilha de Malta e terminado o inverno, embarcando em
outro navio alexandrino, Paulo e os demais dirigiram-se, definitivamente, para
Roma.
A viagem
transcorreu sem novidades até a Itália. Os cristãos ali receberam Paulo e sua
comitiva com sinais evidentes de fraternidade, cuidando deles por uma semana
inteira.
Embora
preso e cansado, Paulo sentia-se aliviado ante a realidade de que não estava
sozinho e abandonado. Paulo, ao contrário dos demais presos, recebeu ordem para
morar fora do quartel, ainda que sob a vigilância contínua de um soldado.
Diz-nos o verso 30 que ele foi morar numa casa alugada para este fim.
Três dias
depois de chegar em Roma, Paulo teve um encontro com os líderes judeus dali que
estavam interessados em conhecer os ensinos do Cristianismo, uma vez que tinham
ouvido que se falava disso por toda a parte. Paulo ficou em Roma por 2 anos,
ensinando aqueles que a ele se achegavam.
9. Conclusão
Lucas
inicia o Livro de Atos com a questão levantada pelos discípulos a respeito do
estabelecimento do Reino de Deus, isto é, eles esperavam que Jesus fosse
estabelecer o reino terrestre. Jesus lhes respondeu que não competia a eles
saberem tempo ou épocas dos acontecimentos, mas que esperassem a descida do
Espírito Santo e fossem Suas testemunhas de Jerusalém até os confins da terra,
e que lhes cabia a tarefa de proclamar o Evangelho.
A questão
dos discípulos sobre quando Deus haveria de restaurar o reino de Israel foi
respondida. Já não se limitava a Israel, mas estendia-se também às pessoas que
aceitavam, em qualquer que fosse a nação ou classe social a que pertencessem. O
Reino ia sendo estabelecido no poder do Espírito Santo, à medida que os que
criam iam testemunhando e proclamando as boas-novas de que todos que se arrependerem
e crerem nascerão espiritualmente para o Reino de Deus.
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