1. Introdução
Uma
epístola pode ser definida, etimologicamente, através do prefixo grego epi (por cima) mais o substantivo estola (manta). Conta-se que, na época
da Igreja Primitiva, as cartas eram colocadas nas bolsas que ficavam nas duas
pontas de uma manta; essa manta era colocada sobre o lombo de um jumento que as
levava ao destinatário. Então, nesse caso, epístola era o recipiente que levava
as cartas.
Semanticamente,
convencionou-se chamar epístola (do grego epistolé)
de carta devido ao uso frequente desse termo. Lembremos que o Novo Testamento
foi escrito em grego. Paulo usa a palavra carta em I Coríntios 5.9.
Portanto,
é correto anuncia Epístolas aos Romanos, Epístola aos Gálatas, etc., tanto
quanto Carta aos Romanos, Carta aos Gálatas, etc. Uma epístola ou uma carta era
geralmente longa e continha ensinamentos ou instruções especiais para grupos ou
indivíduos.
As
Epístolas aos Romanos e aos Gálatas tratam em profundidade de assuntos
associados à doutrina da salvação, como a Justificação pela Fé e a Liberdade
Cristã, respectivamente. Segundo Paulo, se o pecador for salvo por meio da fé,
mas, após a conversão, viver como bem lhe apraz, qual a necessidade de o Filho
de Deus ter vindo ao mundo e morrido em sacrifício pela humanidade? Está é uma
das questões abordadas nas epístolas aos Romanos e aos Gálatas.
A Epístola
aos Romanos particularmente é uma resposta completa, lógica e inspirada à
grande pergunta dos séculos: “... como pode o homem ser justo para com Deus?”
(Jó 9.2). Em resposta à esta inquietante indagação, Paulo fala da justificação
dos pecadores, da santificação e da glorificação dos crentes santificados, como
atos realizados pela fé em Jesus pelo Evangelho e pelo poder operante de Deus.
Já a
Epístola aos Gálatas diz respeito à controvérsia judaizante, motivo que levou a
se reunir o Concílio de Jerusalém (At 15). Ela não foi escrita como um trabalho
de história contemporânea do autor, mas constitui, antes, um protesto contra a
distorção do Evangelho de Cristo, provocada pela ação dos “judaizantes” que
seguiam após o apóstolo Paulo, com o propósito de prejudicar o seu profícuo
ministério.
Que
sejamos guiados pelo Espírito Santo no estudo dessas epístolas e que possamos
continuar crescendo na graça e no conhecimento do nosso Senhor e Salvador Jesus
Cristo (II Pe 3.17).
2. A Epístola aos Romanos
Paulo
inicia a Epístola aos Romanos enfatizando sua entrega pessoal total a Cristo
como Senhor, como servo chamado e separado para o Evangelho de Deus. Em
seguida, cumprimenta seus leitores com saudação peculiar a quase todas as
epístolas de sua autoria. Em seguida expressa seu desejo e esperança de
visitar, pela primeira vez, a igreja em Roma, a capital do Império.
Após as
saudações, o apóstolo toca no assunto que mais interessa nesta epístola. Nos
primeiros três capítulos, Paulo aborda a condenação universal dos pecadores,
sejam eles gentios ou judeus, mostrando que todos, sem distinção, estão debaixo
do pecado (Rm 3.9).
A aparente
“inocência” do gentio ou a alegada “lealdade” do judeu ou o elevado
“conhecimento” filosófico do grego não são motivos suficientes ou capazes de
justificar o pecador ou livrá-lo da condenação divina. Somente o reconhecimento
da gravidade de se viver em pecado e a decisão de abandoná-lo para seguir a
Cristo colocam o homem a salvo da ira de Deus.
2.1. A condenação dos pecadores
(Rm 1.1-3.30)
O tema da
Epístola aos Romanos é “A Justificação pela Fé”. Paulo se declara apóstolo dos
gentios; apresenta um esboço da história religiosa do mundo gentio como
revelação que Deus lhe dera; afirma que a salvação é também para os gentios e
que não há distinção no que diz respeito à fé cristã, proclamando que a
salvação é de âmbito universal.
Como
poderíamos reconhecer a justiça de Deus ou descobrir o modo de nos tornarmos
justos sem uma revelação dEle? Em Romanos 1.17,18, Paulo fala de uma dupla
revelação do céu:
1. A
revelação da justiça de Deus pelo Evangelho e;
2. A
revelação da ira de Deus como resposta da Sua santidade ultrajada pela rebelião
e pecado do homem.
Deus, que
é justo e bom, concede a cada pessoa a recompensa que seus atos merecem. O
castiço ajusta-se à ofensa. Colhe-se o que se semeou (Gl 6). A ira de Deus
contra o pecado não é irracional ou injusta como tantos a julgam. Por que é
santo, Deus é, por natureza, contrário a toda e qualquer espécie de pecado.
A culpa
dos Gentios: O homem se afastou de Deus de tal
modo, tornando o mundo imensamente corrupto e desprezível aos olhos divinos,
que Ele teve de enviar o dilúvio como punição pelo pecado. Por outro lado,
Paulo descreve o mundo gentio do seu tempo e afirma que também os gentios
tiveram uma revelação de Deus e a rejeitaram (Rm 1.21-23, 25, 28, 32).
A culpa
dos Moralistas: Paulo prova que todos são
pecadores, seja qual for o seu modo de vida, inclusive os moralistas. Eles,
tendo o próprio padrão de moralidade, criticam o que não se guiam por esse
padrão. Consideram-se bons demais e condenam os outros. Segundo Paulo, são “inescusáveis” e não escaparão do
julgamento de Deus (Rm 2.1) porque Deus julga o homem com base nas
oportunidades e conhecimentos que lhes foram dados (Rm 2.12) e que a justiça
humana é como “trapo da imundícia”
diante dEle (Is 64.6).
Ressalta-se
que a consciência humana por si só não constitui um guia infalível em assuntos
de salvação, mas ela apenas dá a ideia de certo e errado ante a necessidade de
uma decisão por parte do homem. O único padrão infalível e capaz de guiar-nos
em direção à salvação é a Palavra de Deus.
A culpa
dos Judeus: Os judeus buscavam encobrir seu
pecado usando a religião como pretexto, mas sua vida não transformada os
desmentia, trazendo maior condenação (Rm 2.21-22). Diante disso, Paulo diz que
maiores privilégios implicam em maiores responsabilidades. Quanto maior a
revelação recebida de Deus, maior é a nossa responsabilidade diante dEle.
A culpa
Universal: Depois de apresentar a extensão do
pecado, Paulo mostra o domínio deste sobre nós, da cabeça aos pés. A passagem
de Romanos 3.13-18 diagnostica a terrível doença moral e espiritual da raça
humana: “todos... estão debaixo do
pecado” (Rm 3.9). A necessidade de salvação é universal e o veredito final
é arrasador: “... que se cale toda boca,
e todo o mundo seja culpável perante Deus” (Rm 3.19).
2.2. A Justificação dos Perdoados
Justificar
é declarar justo. É o ato pelo qual Deus declara posicionalmente justa a pessoa
que a Ele se chega através da pessoa de Jesus Cristo. Esta justificação envolve
dois atos: o cancelamento da dívida do pecado na “conta” do pecador o
lançamento da justiça de Cristo em seu lugar.
A
justificação está relacionada com a graça de Deus que é a sua fonte; o sangue
de Jesus que é a sua base e; a fé, que é o seu meio e condição de recepção.
Esses três elementos atuam em conjunto!
Quando
Deus justifica o pecador, Ele não apenas o torna justo, como também o reconhece
como tal. Essa justiça se revela através
de uma real experiência pessoal com Cristo. Isto é, alguma coisa que dantes não
existia agora acontece e é real. Em Cristo começa uma nova época.
Há duas
palavras em Romanos 3.24,25 que nos mostram como Deus equacionou o problema do
pecado: redenção e propiciação.
O termo redenção
nos fala de um mercado de vendas de escravos. Redenção consiste na compra de um
escravo e sua imediata libertação. Já o termo propiciação é a vindicação
da justiça divina descrita na lei, mediante um sacrifício substituto e
reparador, o qual leva sobre si as penas da lei, como resultado dos pecados do
mundo, removendo ao mesmo tempo o impedimento para Deus extravasar o Seu amor e
assim salvar o pecador.
A
Justificação pela fé não é nenhuma revelação nova. Ela já fora demonstrada no
Antigo Testamento e, portanto, não consiste em uma forma nova de salvação. Como
exemplo disso, Paulo apresenta Abraão (Rm 4.1-8).
Romanos
4.24,25 mostra-nos três aspectos que devem estar incluídos na fé em Deus, da
qual depende a nossa justificação, a saber:
a. Aceitarmos
Jesus como Salvador;
b.
Crermos que Deus enviou Jesus
Cristo para morrer em nosso lugar, a fim de nos salvar e;
c. Crermos
que Deus ressuscitou Jesus para nos dar nova vida.
Sendo a
justificação uma declaração legal de justiça, possível apenas mediante um
relacionamento perfeito com Cristo, muitas outras bênçãos nos advêm, como um
novo relacionamento com a Lei e com Deus; a libertação da culpa pessoal e uma
nova perspectiva do porvir.
Em Romanos
5.12-21, Paulo contrasta Adão e Cristo, mas a tentativa de comparação é para
deixar em relevo o duplo relacionamento que o cristão tem com um e com o Outro,
pois por causa do nosso relacionamento com Adão, a presença do pecado é uma
realidade na qual lidamos dia a dia. Por outro lado, o nosso relacionamento com
Cristo, devido à graça de Deus, nos faz constantemente vitoriosos sobre a
natureza adâmica que possuímos. Paulo diz que quanto maior o pecado, maior
também é a graça manifesta. Os benefícios do nosso relacionamento com Cristo
são “muito maiores” do que os perniciosos efeitos do relacionamento com Adão.
2.3. A Santificação dos
Justificados (Rm 6-8.39)
Santidade
é a condição de vida de uma pessoa separada para Deus e dedicada ao Seu
serviço. Inclui a separação do pecado e a libertação do Seu poder e, do ponto
de vista divino, a santificação é posicional e instantânea. Já do ponto de
vista humano, a santificação é progressiva e prática, consistindo em uma
maneira santa de viver o dia-a-dia perante os homens e diz respeito a um nível
de santidade vinculado à maturidade cristã.
Paulo fala
da experiência e do significado do batismo em água como uma razão poderosa para
não vivermos mais no pecado. Segundo o apóstolo, fomos batizados para a união
com Cristo, em Sua morte (6.3). A nossa posição como estando “em” Cristo, significa que estamos
mortos para o pecado.
O batismo
em água é um testemunho público que indica havermos morrido para o pecado e
começado a viver uma vida em Cristo. É também um mandamento do Senhor para os
que aceitam a Cristo. A obediência a este mandamento como parte da confissão da
nossa fé é de grande valor espiritual e precisa ser ensinado com profundidade a
todos os crentes, pois quando entendemos o seu significado, o batismo fortalece
a nossa fé e gera convicção para vivermos para Cristo.
Há
diferentes formas de se praticar o batismo nas diversas igrejas cristãs, mas o
por imersão é o fundamentalmente bíblico, retratando claramente a união do
crente com Cristo na Sua morte e ressurreição. O batismo em água é um símbolo
exterior da nossa morte, sepultamento e ressurreição com Cristo. A descida às águas
simboliza a nossa morte com Cristo; a imersão retrata o sepultamento e; a saída
das águas, a ressurreição com Cristo, para uma nova vida (Cl 2.12; Rm 6.4).
Paulo expõe
o pecado e a obediência a Deus como dois tipos de patrão. Antes, éramos
escravos do pecado, mas, pela nossa união com Cristo, morremos para a vida
velha. O nosso antigo patrão (o pecado) já não pode exigir nada de nós e
devemos seguir de uma posição justa para uma vida justa.
Entre os
cristãos, existem duas clássicas tentações quanto ao assunto em discussão: a
primeira delas é dizer: “Eu tenho
salvação por fé, portanto, não importa o meu modo de viver”, o que não é
bíblico. Como cristão, somos donos da nossa vida, mas não escravos do pecado! A
segunda tentação é a de pensar que estamos conservando a nossa salvação através
de boas obras. Achamos em Cristo a nossa verdadeira liberdade, mas devemos
render-nos ao nosso novo Senhor em obediência voluntária (Rm 6.17).
Em Romanos
7.1-6, Paulo apresenta a questão do relacionamento do crente com a Lei de
Moisés, tomando por base a ilustração do casamento, no qual marido e mulher
prometem fidelidade um ao outro até que a morte os separe. Como salvos,
morremos com Cristo quando Ele morreu por nós. Deste modo, estamos mortos para
a Lei, que antes nos condenava. Estamos livres para nos unirmos a outro – a
Jesus Cristo.
Nos versos
7 a 25 do capítulo 7 de Romanos, Paulo descreve o conflito interior com sua
própria carne, que é um alerta para todos os homens. É evidente que Deus não
espera que vivamos uma vida cristã normal como resultado dos nossos próprios
esforços; mas Ele espera que deixemos Cristo viver em nós, pelo Seu Espírito e
em nós produzir vida abundante e vitoriosa.
Podemos
tirar vantagens espirituais a partir dos versos 15-25, inserindo o “velho homem”
e o “novo homem” nos lugares onde aparece o pronome “eu”, assim: “porque o que o velho homem faz, o novo
homem não aprova, pois, o que o novo homem quer, isso o velho homem não faz,
mas o que o novo homem aborrece, isso o velho homem faz!”.
O segredo
da vitória espiritual consiste em deixarmos de olhar para nós mesmos e em
concentrarmos-nos no Senhor Jesus Cristo. Além disso, devemos lembrar que a
nova natureza não pode viver pecando.
Em Romanos
8, descobrimos o poder para desenvolvermos a nova vida que Cristo nos concede e
o segredo de uma vida vitoriosa sobre o pecado. Trata-se da vida no Espírito ou
andar no Espírito. A culpa é coisa do passado, o castigo foi cancelado, a lei
do pecado e da morte foi anulada e nós estamos livres! O Espírito Santo veio
para operar em nós e esta é a vitória que Cristo providenciou para os que O
amam.
A vida
cristã não consiste apenas da experiência ocorrida do novo nascimento, mas em
uma experiência diária e contínua. Após o nascimento, precisamos sair da
incubadora, crescer e aprender a andar; isto é “andar no Espírito” e ser
“guiado pelo Espírito”.
2.4. A Dispensação de Israel (Rm
9-11)
O primeiro
problema tratado por Paulo nesta passagem de Romanos é o da resistência de
Israel ao Evangelho. Sua tristeza leva-o a desejar sacrificar a sua própria
vida se isto, de alguma forma, contribuísse para salvar o seu povo (9.3), uma
atitude já manifestada também por Moisés (Êx 32.32).
O problema
dos judeus se reveste de grande importância quando analisado à luz dos muitos
privilégios que lhes foram concedidos como nação; privilégio que nenhum outro
povo obteve! Em Romanos 9.4-5, Paulo enumera as bênçãos das quais o povo de
Israel tem desfrutado, que são: “adoção”,
“glória”, “pactos”, “a lei”, “o serviço”, “as promessas”, “os pais” e “Cristo”.
Deus não tratou dessa maneira com nenhuma outra nação.
Deus
escolhe a quem lhe apraz para levar a Sua vontade ao mundo; por isso “nem todos os de Israel são, de fato,
israelitas” e “nem por serem
descendentes de Abraão são todos seus filhos”. Filho verdadeiro é aquele
que participa das promessas (9.8). O que Israel não compreendeu é que o homem
recebe a justiça de Deus pela fé em Cristo e não por obras humanas (9.30-33).
No
capítulo 10 da Epístola aos Romanos, Deus trata os judeus como indivíduos e não
como nação. Eles precisam de salvação, diz Paulo em sua oração, o que é
oferecido e assegurado por Deus mediante a justificação pela fé, sem levar os
méritos humanos em consideração. Muitas vezes erramos em pensar, assim como
os judeus, que a salvação é coletiva. Deus não vai arrebatar nações e sim
pessoas.
Tão certos
estavam os judeus de obterem a justificação pela Lei que não só falharam em
seus esforços, como não reconheceram Deus e a Sua justiça, revelada em Cristo: “porque o fim da lei é Cristo, para justiça
de todo aquele que crê... Pois, não há distinção entre judeu e grego.” (10.4,12).
É isto que Paulo insiste em mostrar a Israel, objetivando que a salvação é pela
fé, segundo o Evangelho e, por isso, não há salvação para os que rejeitam a
Cristo.
Do ponto
de vista humano, salvação consiste em colocar a nossa fé na revelação da
justiça de Deus, segundo o Evangelho (Rm 6.12-15). Paulo nos assegura que a
maneira de sermos salvos é muito simples, a considerar que Cristo já desceu dos
céus para nos salvar (Gl 4.4; Rm 8.3) e já ressuscitou dentre os mortos, consumando
a obra da redenção.
Precisamos
proclamar as boas novas que Cristo trouxe, pois ninguém pode ser salvo se o
Evangelho não for pregado por aqueles aos quais Deus enviou. Não foram os anjos
comissionados para pregar o Evangelho, mas nós e “como pregarão, se não forem enviados? Como está escrito: Quão formosos
são os pés dos que anunciam coisas boas!” (Rm 10.15).
O método
empregado por Deus para alcançar almas para a salvação em Cristo é homens
“enviados” que:
a. Pregarão
(Rm 10.15b);
b.
Pregando, os homens os
“ouvirão” (Rm 10.14c);
c.
Ouvindo, “crerão” (Rm
10.14b);
d.
Crendo, “invocarão” (Rm
10.14a);
e. Invocando,
salvar-se-ão (Rm 10.13).
Este
método torna indesculpável a incredulidade do homem!
A maior e
mais positiva evidência que temos de que Deus não rejeitou Israel para sempre é
a conversão de Paulo, sendo ele um israelita (Rm 11.2). Elias também recebeu
forte e pronta repreensão da parte de Deus: “Reservei
para mim sete mil homens, que não dobraram joelhos diante de Baal.” (Rm
11.4).
2.5. Exortações Práticas (Rm 12-16)
O corpo do
crente é o veículo de expressão da alma redimida, como também o templo do
Espírito Santo que nele habita. Daí o apelo: “Um sacrifício vivo”. Segue-se a atitude de prontidão para todo
serviço que Deus requeira de nós: “não
vos conformeis, mas transformais-vos”. Estas palavras responsabilizam o
crente quanto ao dever de oferecer sacrifícios espirituais a Deus.
O servo
não pode estar separado do serviço e a qualidade do serviço é determinada pela
qualidade do servo. Parte de nossa transformação provém de nossa atitude para
com a vontade de Deus. Parte da renovação das nossas mentes vem pela aceitação
da Epístola aos Romanos 12.16, ao exortar: “Tende
o mesmo sentimento uns para com os outros; em lugar de serdes orgulhosos,
condescendei com o que é humilde; não sejais sábios aos vossos próprios olhos”.
Notemos que a transformação vem pela renovação da nossa mente.
O corpo
tem muitos membros e cada um tem uma obra ou serviço específico a executar.
Trate-se dos dons ou capacidades concedidas pelo Espírito Santo. Devemos saber
qual é o nosso dom a ministrar, conforme Romanos 12. Nos versos 9 a 21, Paulo
enumera diversos mandamentos que se explicam por sim mesmos. O desafio não está
em compreendê-los, mas sim, em praticá-los, pois o amor divino é o princípio
controlador da vida cristã.
Com
respeito às relações com o governo humano, o serviço cristão implica em
submissão a ele. Porque Paulo entrou nesse assunto? Pelo fato dos cristãos, por
alegarem lealdade somente a Cristo, não queriam se submeter às autoridades
humanas constituídas, no que o apóstolo descreve: “...aquele que se rebela contra a autoridade está se colocando contra o
que Deus instituiu e aqueles que assim procedem trazem condenação sobre si
mesmos” (Rm 13.2).
Nenhum
membro da Igreja de Cristo está isento das responsabilidades para com o governo
civil, segundo Romanos 13.1. Ninguém deve ignorar ou sentir-se livre para
violar as leis estabelecidas pelas autoridades governamentais, uma vez que “não há autoridade que não proceda de Deus”.
Nem sempre
queremos fazer o melhor para nossos irmãos em Cristo. Nos versos 1 e 2 do
capítulo 15, há três atitudes que, como cristãos, temos a responsabilidade de
fazer para com os nossos irmãos mais fracos: suportar suas fraquezas, não
agradar especificamente a nós mesmos e agradar ao próximo.
O apóstolo
Paulo faz também alusão ao profeta Isaías, inserindo os gentios no seu
contexto: Da raiz de Jessé viria o Messias, descendente de Davi, “para governar os gentios...”. Aqui está
confirmada a doutrina que Paulo ensinou aos romanos e também aos gálatas. Os
judeus e gentios que confiam em Cristo formam a Sua Igreja, para que, juntos,
possam glorificá-lO (Rm 15.9-12).
O apóstolo
Paulo encerra sua epístola alertando os irmãos contra aqueles que promovem “divisões e escândalos”. Uma artimanha
de Satanás é a de tentar destruir a Igreja, dividindo-a em facções. As
diferenças doutrinárias têm sido um instrumento seu para fazer mudar opiniões e
causar as divisões e os escândalos. O remédio preventivo para isso é: “afastai-vos deles”, isto é, dos que
promovem divisões por meio do desacordo com a doutrina cristã.
3. A Epístola aos Gálatas
A Epístola
aos Gálatas diz respeito à controvérsia judaizante, motivo pelo qual se reuniu
o Concílio de Jerusalém (At 15). Não foi escrita como um trabalho de história
contemporânea, antes constitui um protesto contra a distorção do Evangelho de
Cristo causada pela ação dos falsos mestres judaizantes que seguiam após o
apóstolo Paulo, com o propósito de prejudicar o seu profícuo ministério.
Paulo
destinou essa epístola às pessoas residentes na região conhecida como “Galácia”
com o propósito de refutar os falsos mestres e os erros doutrinários. Seu tema
é “A Justificação pela Fé e a Liberdade Cristã” e nela, o apóstolo mostra que
há importância naquilo que se crê e usa a sua conversão para mostrar isso. Ele
ensinava que em Cristo podemos ser salvos e vivermos uma vida agradável a Deus.
É bem verdade que o apóstolo não ficava satisfeito em ver as pessoas apenas
aceitando Jesus como seu Salvador, ele queria se certificar de que elas estavam
crescendo na fé e na verdade, aceitando Jesus também como o Senhor de suas
vidas. O apóstolo estabelecia igrejas nos lares cristãos e após saía a pregar
em outras regiões, mantendo contato com elas através de epístolas.
Ao lermos
a Epístola aos Gálatas, notamos que Paulo sente uma profunda responsabilidade
pelas igrejas sob seu cuidado, isto por ter sido ele o fundador delas. Ocorre
que seus membros estavam prestes a naufragar na fé em Cristo. Paulo, seu pai na
fé, amava-os e queria protegê-los desse perigo (Gl 4.19). Por isso, não nos
admiremos por ter ele escrito uma carta tão urgente e franca ao saber do risco
que corriam. A doutrina foi e sempre será de vital importância na vida de
uma igreja.
A Epístola
aos Gálatas foi escrita para um grupo de igrejas da região da Galácia que
enfrentavam o mesmo problema e Paulo mostra que o Evangelho anuncia a salvação
pela fé (Gl 3.11) e que a fé em Cristo conduz a uma vida cheia do Espírito e de
vitória sobre o pecado, o mundo e a carne, enquanto que o esforço humano para
obter salvação conduz à derrota.
3.1. Deus concede a Paulo o seu
Evangelho
Que ideia
fazemos sobre a chamada divina para o ministério cristão de tempo integral?
Deus ainda hoje chama pessoalmente as pessoas para o ministério? Devemos ter em
mente estas perguntas ao aplicarmos Gálatas 1.1 à nossa própria vida e ao
ministério que Deus nos confiou.
Observemos
com atenção a palavra igrejas, no
verso 2. Esta epístola é dirigida a diversas igrejas locais. A palavra igreja é tradução do grego ekklesia, que significa assembleia, isto é, no caso específico
da teologia cristã, um povo especial,
chamado do mundo para pertencer e servir a Deus e para adorá-lO. Atentemos
agora para o Senhor Jesus Cristo: Ele é o centro do Evangelho de Paulo, que
diz: “...Cristo em vós, a esperança da
glória” (Cl 1.27).
O
Evangelho é a revelação final de Deus. Não há mais revelação a se acrescentar à
mensagem redentora de Deus. Ela não pode ser substituída ou trocada por uma
nova revelação. O Evangelho – as boas-novas de salvação pela fé em Cristo – é o
verdadeiro e imutável Evangelho. Por essa razão, Paulo diz que aquele que
anuncia outro evangelho seja anátema (Gl 1.9).
Em muitas
ocasiões, Paulo enfatiza quão zeloso fora ele com a fé judaica antes de sua
conversão ao Cristianismo (At 26.9-11). Somente uma revelação divina poderia
convencê-lo da verdade do Evangelho. Ele era um “apóstolo” da Lei e apenas Deus
poderia transformá-lo em um apóstolo de Cristo. Foi a intervenção divina que o
fez sair do Judaísmo frio e sem vida para o Cristianismo vivo e poderoso, tendo
Cristo como a sua razão de ser.
Se Paulo
pregasse um falso evangelho, Pedro e Tiago o teriam corrigido. A verdade é que
não temos qualquer relato de problema ocorrido nesse sentido; pelo contrário,
há um registro de Paulo ser sempre bem recebido em todas as igrejas da Judeia
(Gl 1.23).
No
capítulo 2, Paulo continua a defesa da fé cristã com argumentos históricos,
relembrando aos gálatas que o Evangelho fora aceito pelos líderes da igreja de
Jerusalém. Eles poderiam ver a dedicação e a sinceridade de Paulo quanto ao
Evangelho da liberdade cristã à medida que lessem a carta.
Nos
versículos 1 e 2 do referido capítulo, Paulo faz alusão à visita que fizera a
Jerusalém 14 anos após a sua conversão que, segundo ele, foi por uma revelação
divina. Ao encontrar os apóstolos responsáveis pela igreja de Jerusalém, houve
o reconhecimento e a prova definitiva de haver um único Evangelho pregado,
tanto aos judeus quanto aos gentios.
Os
apóstolos reconheceram que Deus concedera a Paulo um ministério especial, o da
incircuncisão (isto é, aos gentios) e que, de igual modo, concedera a Pedro o
ministério da circuncisão (isto é, aos judeus). Em razão disso, os responsáveis
pela igreja de Jerusalém aprovaram o Evangelho de Paulo e reconheceram o seu
apostolado como havendo sido concedido por Deus.
Foi Pedro
quem proclamou primeiro o Evangelho do Reino de Deus aos pecadores, pregando
aos judeus e vendo o derramamento do Espírito Santo sobre os gentios. Então,
por qual razão Paulo se queixa de Pedro em Gálatas 2.12-13? A de se separar dos
cristãos gentios. A atitude de Pedro dava a entender que os cristãos gentios
eram espiritualmente inferiores aos cristãos judeus. Até mesmo Barnabé, com
todo seu preparo, foi levado pela dissimulação de Pedro e dos demais judeus
(2.13b). O problema exigia uma ação imediata e corretiva antes que se
intensificasse e Paulo, então, repreendeu Pedro na presença de todos (Gl 2.14).
Os versos
15 a 18 do capítulo 2 de Gálatas evidenciam que, em se tratando de salvação,
não existe meio termo: ou somos salvos por Cristo ou não somos salvos por
nenhum outro meio, nem mesmo pela Lei.
Nos
versículos 19-21, notamos três fatos da maior importância em torno do assunto
da nossa identificação com Cristo e o novo andar com Ele, a partir da nossa
conversão, a saber:
a. O
nosso “viver para Deus” (v.19) deve
ser ininterrupto;
b.
A nossa “fé no Filho de Deus” (v.20) é fator vital, pois “o justo vive por fé”;
c. A
constante dependência da “graça de Deus” (v.21); “Não anulo” nesse mesmo
versículo, tem o sentido original de não ignorar, não marginalizar.
3.2. As Escrituras ensinam o
Evangelho da Fé (Gl 3)
Paulo
inicia o capítulo 3 chamando os gálatas de “insensatos”
(v.1) pelo fato de terem sido enganados. O apóstolo considerava que eles tinham
possibilidades de resistirem aos falsos ensinos e a doutrina dos judaizantes
contradizia o Evangelho que Paulo lhes ensinara. Os gálatas não examinaram esse
novo ensino à luz da verdade divina que já haviam recebido do apóstolo.
Paulo
mostra aos gálatas que o Evangelho da fé por eles recebido é o mesmo que fora
concedido aos judeus desde Abraão, há muitos séculos. Em seu argumento
teológico, Paulo mostra que o método divino da justificação do homem sempre foi
pela fé e destaca Abraão como exemplo (v.6-9). Vale ressaltar que, os judeus
apontavam Moisés em seus argumentos, representando a Lei; já Paulo vai muito
além e cita Abraão que viveu antes da Lei.
A Lei foi
concedida para refrear a natureza humana caída e para tornar as más ações em ofensa
legal, também declarava errados determinados atos e os proibia. Todavia, a
Lei tinha uma duração: “... até que
viesse o descendente (Cristo)” (v.19). O limite temporal da Lei compreendia
do tempo em que o mediador a recebeu (Moisés) até o surgimento da descendência
de Abraão, a quem fora feita a promessa (Cristo).
O objetivo
da Lei, então, era mostrar-nos que éramos culpados pelo pecado e conduzir-nos à
salvação pela fé em Cristo, pois a promessa fora dada aos que creem (v.22) e,
quando somos justificados pela fé em Cristo, recebemos uma nova vida e também o
Espírito de Deus (Gl 3.2,3,14). Isto não significa que a Lei foi posta de lado,
pelo contrário, recebemos poder para vivermos de acordo com a Lei de Deus (Rm
8.3,4).
O crente
justificado é um membro da família de Deus e não um servo debaixo da Lei
(3.26). Ser filho de Deus não significa apenas um novo relacionamento com Deus,
mas uma nova vida. Todos se aproximam de Deus na mesma condição: pela fé
em Cristo. A união com Cristo é sem distinção de posição social, nacionalidade,
cultura e sexo. Todos os crentes formam a verdadeira Igreja Invisível de
Deus. Todos que estão em Cristo são igualmente descendentes e herdeiros de
Abraão, segundo a promessa.
3.3. O Evangelho só produz Filhos
(Gl 4.1-31)
Em Gálatas
4.1-3, Paulo fala de uma criança vivendo sob a orientação de tutores até a sua
maioridade. Esses tutores representam a Lei, o judeu é a criança e a maioridade
é a aceitação da obra de Cristo. Incluindo todos os judeus e gentios, Paulo diz
“Assim, também nós” (4.3).
Deus
enviou seu Filho e, através de Sua obra redentora no Calvário, tanto judeus
como gentios podem tornar-se filhos, através do plano divino da adoção.
Entretanto, em termos de salvação, a adoção vai além da relação humana.
Recebemos uma nova natureza. Somos filhos, não só por adoção, mas também por nascimento.
Depois de
se tornarem filhos adultos, os gálatas estavam preferindo ser governados pela
Lei, dessa forma, começavam a negar sua relação filial com Deus, bem como a
negar Jesus que os redimira da salvação. Voltar à Lei significa renunciar à
nossa salvação de filhos. É abandonar o lugar superior e privilegiado de filhos
e retornar à servidão como um menino, que não difere em nada de um servo. Paulo
declara, no verso 11, temer que seus esforços para levar os gálatas a Cristo
tenham sido em vão e os roga para não abandonarem o Evangelho e diz: “Sede qual eu sou...” (v.12).
Em Gênesis
21.9-21, temos retratada tanto a posição da Lei como a da Graça. Recorrendo ao
exemplo dos filhos do patriarca Abraão, Paulo esclarece que, assim como o filho
da escrava Agar tinha que dar lugar ao filho da mulher livre, Sara, a Lei havia
dado lugar para à Graça (Gl 4.21-27).
3.4. A Liberdade Cristã (Gl
5.1-6.18)
Paulo já
provou pelas Escrituras, nos capítulos 3 e 4 de sua Epístola aos Gálatas, que
somos filhos livres, nascidos do Espírito, e que já recebemos a nossa herança.
Ele não era contrário à prática da circuncisão em si, mas contra o ensino de
que ela seria necessária para se alcançar a salvação. Acrescentando isso à obra
redentora de Cristo, estamos dizendo que a Sua morte não foi suficiente para
nos salvar. Paulo considera caído da graça aquele que procura circuncidar-se
para poder se salvar (Gl 5.4).
O homem
justificado pela fé experimenta uma transformação interior, operada pelo
Espírito Santo e esse privilégio se encontra apenas “em Cristo”. As observâncias exteriores não tem efeito algum no
plano da salvação, porquanto o que vale é a fé efetiva (Gl 5.3-6).
No
versículo 13, Paulo apresenta duas realidades: uma negativa, “...dar ocasião à carne”; e outra,
positiva, “...sede servos uns dos outros
pelo amor”. Este amor que Paulo está falando é o amor divino que o
Espírito Santo põe em nosso coração. Deus coloca o Seu amor em nós como um
controle positivo sobre a nossa natureza humana herdada e influenciada pelo
pecado.
Em Romanos
8.2-5, o apóstolo Paulo usa a frase “a
lei do Espírito” para se referir ao controle do Espírito Santo na vida do
crente. Receber o Espírito Santo é um passo vital quando o crente se coloca sob
o controle desse mesmo Espírito, e bem diferente é que: “...andemos também no Espírito” (Gl 5.25).
Paulo nos
fornece uma lista de obras da carne, alertando que “...não herdarão o reino de Deus os que tais coisas praticam”
(5.19-21). Agora ele nos oferece uma lista com os vários aspectos do fruto do
Espírito (5.22-26). O fruto do Espírito é resultado da presença e domínio do
Espírito Santo em nossa vida. Esse fruto não é algo que o homem pode produzir
ou fazer. Ele é visto em nós através da plena atividade do Espírito em nosso
interior.
Observemos
que os componentes do fruto do Espírito são nove. O primeiro é o amor e o
último é o domínio próprio.
Encerrando
a Epístola, Paulo trás a aplicação do evangelho na vida diária, através dos conselhos
a seguir:
a. Vós,
que sois espirituais, restaurem os que têm alguma falta, com espírito de
mansidão (Gl 6.1);
b.
Levai as cargas uns dos
outros, isto é um dever cristão (Gl 6.2);
c.
Prove cada um a sua própria
obra pelo padrão bíblico (Gl 6.4);
d. Cada
um levará o seu próprio fardo, sendo nós responsáveis por ajudar os fracos e
também manter nossas vidas em pureza (Gl 6.5).
Paulo
escreveu de próprio punho toda a Epístola aos Gálatas. Era o seu costume usar
um escriturário e, normalmente, ele assinava só o fecho da carta (I Co 16.21;
Cl 4.18; 2Ts 3.17). Porém, pelo caráter urgente da Epístola aos Gálatas, foi
necessário ser o mais pessoal possível.
No último
verso, Paulo não hesita em chamar os gálatas de “irmãos” e ora também por eles
para que tenham a graça divina, o favor imerecido de Deus para os homens. Graça
recebida não à base das próprias obras, mas à base do amor e da misericórdia de
Deus (Ef 2.8-9).
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