quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

EP. PAULINAS 1 - ROMANOS E GÁLATAS



1.    Introdução
Uma epístola pode ser definida, etimologicamente, através do prefixo grego epi (por cima) mais o substantivo estola (manta). Conta-se que, na época da Igreja Primitiva, as cartas eram colocadas nas bolsas que ficavam nas duas pontas de uma manta; essa manta era colocada sobre o lombo de um jumento que as levava ao destinatário. Então, nesse caso, epístola era o recipiente que levava as cartas.
Semanticamente, convencionou-se chamar epístola (do grego epistolé) de carta devido ao uso frequente desse termo. Lembremos que o Novo Testamento foi escrito em grego. Paulo usa a palavra carta em I Coríntios 5.9.
Portanto, é correto anuncia Epístolas aos Romanos, Epístola aos Gálatas, etc., tanto quanto Carta aos Romanos, Carta aos Gálatas, etc. Uma epístola ou uma carta era geralmente longa e continha ensinamentos ou instruções especiais para grupos ou indivíduos.
As Epístolas aos Romanos e aos Gálatas tratam em profundidade de assuntos associados à doutrina da salvação, como a Justificação pela Fé e a Liberdade Cristã, respectivamente. Segundo Paulo, se o pecador for salvo por meio da fé, mas, após a conversão, viver como bem lhe apraz, qual a necessidade de o Filho de Deus ter vindo ao mundo e morrido em sacrifício pela humanidade? Está é uma das questões abordadas nas epístolas aos Romanos e aos Gálatas.
A Epístola aos Romanos particularmente é uma resposta completa, lógica e inspirada à grande pergunta dos séculos: “... como pode o homem ser justo para com Deus?” (Jó 9.2). Em resposta à esta inquietante indagação, Paulo fala da justificação dos pecadores, da santificação e da glorificação dos crentes santificados, como atos realizados pela fé em Jesus pelo Evangelho e pelo poder operante de Deus.
Já a Epístola aos Gálatas diz respeito à controvérsia judaizante, motivo que levou a se reunir o Concílio de Jerusalém (At 15). Ela não foi escrita como um trabalho de história contemporânea do autor, mas constitui, antes, um protesto contra a distorção do Evangelho de Cristo, provocada pela ação dos “judaizantes” que seguiam após o apóstolo Paulo, com o propósito de prejudicar o seu profícuo ministério.
Que sejamos guiados pelo Espírito Santo no estudo dessas epístolas e que possamos continuar crescendo na graça e no conhecimento do nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo (II Pe 3.17).

2.    A Epístola aos Romanos
Paulo inicia a Epístola aos Romanos enfatizando sua entrega pessoal total a Cristo como Senhor, como servo chamado e separado para o Evangelho de Deus. Em seguida, cumprimenta seus leitores com saudação peculiar a quase todas as epístolas de sua autoria. Em seguida expressa seu desejo e esperança de visitar, pela primeira vez, a igreja em Roma, a capital do Império.
Após as saudações, o apóstolo toca no assunto que mais interessa nesta epístola. Nos primeiros três capítulos, Paulo aborda a condenação universal dos pecadores, sejam eles gentios ou judeus, mostrando que todos, sem distinção, estão debaixo do pecado (Rm 3.9).
A aparente “inocência” do gentio ou a alegada “lealdade” do judeu ou o elevado “conhecimento” filosófico do grego não são motivos suficientes ou capazes de justificar o pecador ou livrá-lo da condenação divina. Somente o reconhecimento da gravidade de se viver em pecado e a decisão de abandoná-lo para seguir a Cristo colocam o homem a salvo da ira de Deus.

2.1.       A condenação dos pecadores (Rm 1.1-3.30)
O tema da Epístola aos Romanos é “A Justificação pela Fé”. Paulo se declara apóstolo dos gentios; apresenta um esboço da história religiosa do mundo gentio como revelação que Deus lhe dera; afirma que a salvação é também para os gentios e que não há distinção no que diz respeito à fé cristã, proclamando que a salvação é de âmbito universal.
Como poderíamos reconhecer a justiça de Deus ou descobrir o modo de nos tornarmos justos sem uma revelação dEle? Em Romanos 1.17,18, Paulo fala de uma dupla revelação do céu:

1. A revelação da justiça de Deus pelo Evangelho e;
2. A revelação da ira de Deus como resposta da Sua santidade ultrajada pela rebelião e pecado do homem.

Deus, que é justo e bom, concede a cada pessoa a recompensa que seus atos merecem. O castiço ajusta-se à ofensa. Colhe-se o que se semeou (Gl 6). A ira de Deus contra o pecado não é irracional ou injusta como tantos a julgam. Por que é santo, Deus é, por natureza, contrário a toda e qualquer espécie de pecado.

A culpa dos Gentios: O homem se afastou de Deus de tal modo, tornando o mundo imensamente corrupto e desprezível aos olhos divinos, que Ele teve de enviar o dilúvio como punição pelo pecado. Por outro lado, Paulo descreve o mundo gentio do seu tempo e afirma que também os gentios tiveram uma revelação de Deus e a rejeitaram (Rm 1.21-23, 25, 28, 32).

A culpa dos Moralistas: Paulo prova que todos são pecadores, seja qual for o seu modo de vida, inclusive os moralistas. Eles, tendo o próprio padrão de moralidade, criticam o que não se guiam por esse padrão. Consideram-se bons demais e condenam os outros. Segundo Paulo, são “inescusáveis” e não escaparão do julgamento de Deus (Rm 2.1) porque Deus julga o homem com base nas oportunidades e conhecimentos que lhes foram dados (Rm 2.12) e que a justiça humana é como “trapo da imundícia” diante dEle (Is 64.6).

Ressalta-se que a consciência humana por si só não constitui um guia infalível em assuntos de salvação, mas ela apenas dá a ideia de certo e errado ante a necessidade de uma decisão por parte do homem. O único padrão infalível e capaz de guiar-nos em direção à salvação é a Palavra de Deus.

A culpa dos Judeus: Os judeus buscavam encobrir seu pecado usando a religião como pretexto, mas sua vida não transformada os desmentia, trazendo maior condenação (Rm 2.21-22). Diante disso, Paulo diz que maiores privilégios implicam em maiores responsabilidades. Quanto maior a revelação recebida de Deus, maior é a nossa responsabilidade diante dEle.

A culpa Universal: Depois de apresentar a extensão do pecado, Paulo mostra o domínio deste sobre nós, da cabeça aos pés. A passagem de Romanos 3.13-18 diagnostica a terrível doença moral e espiritual da raça humana: “todos... estão debaixo do pecado” (Rm 3.9). A necessidade de salvação é universal e o veredito final é arrasador: “... que se cale toda boca, e todo o mundo seja culpável perante Deus” (Rm 3.19).

2.2.       A Justificação dos Perdoados
Justificar é declarar justo. É o ato pelo qual Deus declara posicionalmente justa a pessoa que a Ele se chega através da pessoa de Jesus Cristo. Esta justificação envolve dois atos: o cancelamento da dívida do pecado na “conta” do pecador o lançamento da justiça de Cristo em seu lugar.
A justificação está relacionada com a graça de Deus que é a sua fonte; o sangue de Jesus que é a sua base e; a fé, que é o seu meio e condição de recepção. Esses três elementos atuam em conjunto!
Quando Deus justifica o pecador, Ele não apenas o torna justo, como também o reconhece como tal.  Essa justiça se revela através de uma real experiência pessoal com Cristo. Isto é, alguma coisa que dantes não existia agora acontece e é real. Em Cristo começa uma nova época.
Há duas palavras em Romanos 3.24,25 que nos mostram como Deus equacionou o problema do pecado: redenção e propiciação.
O termo redenção nos fala de um mercado de vendas de escravos. Redenção consiste na compra de um escravo e sua imediata libertação. Já o termo propiciação é a vindicação da justiça divina descrita na lei, mediante um sacrifício substituto e reparador, o qual leva sobre si as penas da lei, como resultado dos pecados do mundo, removendo ao mesmo tempo o impedimento para Deus extravasar o Seu amor e assim salvar o pecador.
A Justificação pela fé não é nenhuma revelação nova. Ela já fora demonstrada no Antigo Testamento e, portanto, não consiste em uma forma nova de salvação. Como exemplo disso, Paulo apresenta Abraão (Rm 4.1-8).
Romanos 4.24,25 mostra-nos três aspectos que devem estar incluídos na fé em Deus, da qual depende a nossa justificação, a saber:
a.     Aceitarmos Jesus como Salvador;
b.     Crermos que Deus enviou Jesus Cristo para morrer em nosso lugar, a fim de nos salvar e;
c.     Crermos que Deus ressuscitou Jesus para nos dar nova vida.

Sendo a justificação uma declaração legal de justiça, possível apenas mediante um relacionamento perfeito com Cristo, muitas outras bênçãos nos advêm, como um novo relacionamento com a Lei e com Deus; a libertação da culpa pessoal e uma nova perspectiva do porvir.
Em Romanos 5.12-21, Paulo contrasta Adão e Cristo, mas a tentativa de comparação é para deixar em relevo o duplo relacionamento que o cristão tem com um e com o Outro, pois por causa do nosso relacionamento com Adão, a presença do pecado é uma realidade na qual lidamos dia a dia. Por outro lado, o nosso relacionamento com Cristo, devido à graça de Deus, nos faz constantemente vitoriosos sobre a natureza adâmica que possuímos. Paulo diz que quanto maior o pecado, maior também é a graça manifesta. Os benefícios do nosso relacionamento com Cristo são “muito maiores” do que os perniciosos efeitos do relacionamento com Adão.

2.3.       A Santificação dos Justificados (Rm 6-8.39)
Santidade é a condição de vida de uma pessoa separada para Deus e dedicada ao Seu serviço. Inclui a separação do pecado e a libertação do Seu poder e, do ponto de vista divino, a santificação é posicional e instantânea. Já do ponto de vista humano, a santificação é progressiva e prática, consistindo em uma maneira santa de viver o dia-a-dia perante os homens e diz respeito a um nível de santidade vinculado à maturidade cristã.
Paulo fala da experiência e do significado do batismo em água como uma razão poderosa para não vivermos mais no pecado. Segundo o apóstolo, fomos batizados para a união com Cristo, em Sua morte (6.3). A nossa posição como estando “em” Cristo, significa que estamos mortos para o pecado.
O batismo em água é um testemunho público que indica havermos morrido para o pecado e começado a viver uma vida em Cristo. É também um mandamento do Senhor para os que aceitam a Cristo. A obediência a este mandamento como parte da confissão da nossa fé é de grande valor espiritual e precisa ser ensinado com profundidade a todos os crentes, pois quando entendemos o seu significado, o batismo fortalece a nossa fé e gera convicção para vivermos para Cristo.
Há diferentes formas de se praticar o batismo nas diversas igrejas cristãs, mas o por imersão é o fundamentalmente bíblico, retratando claramente a união do crente com Cristo na Sua morte e ressurreição. O batismo em água é um símbolo exterior da nossa morte, sepultamento e ressurreição com Cristo. A descida às águas simboliza a nossa morte com Cristo; a imersão retrata o sepultamento e; a saída das águas, a ressurreição com Cristo, para uma nova vida (Cl 2.12; Rm 6.4).
Paulo expõe o pecado e a obediência a Deus como dois tipos de patrão. Antes, éramos escravos do pecado, mas, pela nossa união com Cristo, morremos para a vida velha. O nosso antigo patrão (o pecado) já não pode exigir nada de nós e devemos seguir de uma posição justa para uma vida justa.
Entre os cristãos, existem duas clássicas tentações quanto ao assunto em discussão: a primeira delas é dizer: “Eu tenho salvação por fé, portanto, não importa o meu modo de viver”, o que não é bíblico. Como cristão, somos donos da nossa vida, mas não escravos do pecado! A segunda tentação é a de pensar que estamos conservando a nossa salvação através de boas obras. Achamos em Cristo a nossa verdadeira liberdade, mas devemos render-nos ao nosso novo Senhor em obediência voluntária (Rm 6.17).
Em Romanos 7.1-6, Paulo apresenta a questão do relacionamento do crente com a Lei de Moisés, tomando por base a ilustração do casamento, no qual marido e mulher prometem fidelidade um ao outro até que a morte os separe. Como salvos, morremos com Cristo quando Ele morreu por nós. Deste modo, estamos mortos para a Lei, que antes nos condenava. Estamos livres para nos unirmos a outro – a Jesus Cristo.
Nos versos 7 a 25 do capítulo 7 de Romanos, Paulo descreve o conflito interior com sua própria carne, que é um alerta para todos os homens. É evidente que Deus não espera que vivamos uma vida cristã normal como resultado dos nossos próprios esforços; mas Ele espera que deixemos Cristo viver em nós, pelo Seu Espírito e em nós produzir vida abundante e vitoriosa.
Podemos tirar vantagens espirituais a partir dos versos 15-25, inserindo o “velho homem” e o “novo homem” nos lugares onde aparece o pronome “eu”, assim: “porque o que o velho homem faz, o novo homem não aprova, pois, o que o novo homem quer, isso o velho homem não faz, mas o que o novo homem aborrece, isso o velho homem faz!”.
O segredo da vitória espiritual consiste em deixarmos de olhar para nós mesmos e em concentrarmos-nos no Senhor Jesus Cristo. Além disso, devemos lembrar que a nova natureza não pode viver pecando.
Em Romanos 8, descobrimos o poder para desenvolvermos a nova vida que Cristo nos concede e o segredo de uma vida vitoriosa sobre o pecado. Trata-se da vida no Espírito ou andar no Espírito. A culpa é coisa do passado, o castigo foi cancelado, a lei do pecado e da morte foi anulada e nós estamos livres! O Espírito Santo veio para operar em nós e esta é a vitória que Cristo providenciou para os que O amam.
A vida cristã não consiste apenas da experiência ocorrida do novo nascimento, mas em uma experiência diária e contínua. Após o nascimento, precisamos sair da incubadora, crescer e aprender a andar; isto é “andar no Espírito” e ser “guiado pelo Espírito”.

2.4.       A Dispensação de Israel (Rm 9-11)
O primeiro problema tratado por Paulo nesta passagem de Romanos é o da resistência de Israel ao Evangelho. Sua tristeza leva-o a desejar sacrificar a sua própria vida se isto, de alguma forma, contribuísse para salvar o seu povo (9.3), uma atitude já manifestada também por Moisés (Êx 32.32).
O problema dos judeus se reveste de grande importância quando analisado à luz dos muitos privilégios que lhes foram concedidos como nação; privilégio que nenhum outro povo obteve! Em Romanos 9.4-5, Paulo enumera as bênçãos das quais o povo de Israel tem desfrutado, que são: “adoção”, “glória”, “pactos”, “a lei”, “o serviço”, “as promessas”, “os pais” e “Cristo”. Deus não tratou dessa maneira com nenhuma outra nação.
Deus escolhe a quem lhe apraz para levar a Sua vontade ao mundo; por isso “nem todos os de Israel são, de fato, israelitas” e “nem por serem descendentes de Abraão são todos seus filhos”. Filho verdadeiro é aquele que participa das promessas (9.8). O que Israel não compreendeu é que o homem recebe a justiça de Deus pela fé em Cristo e não por obras humanas (9.30-33).
No capítulo 10 da Epístola aos Romanos, Deus trata os judeus como indivíduos e não como nação. Eles precisam de salvação, diz Paulo em sua oração, o que é oferecido e assegurado por Deus mediante a justificação pela fé, sem levar os méritos humanos em consideração. Muitas vezes erramos em pensar, assim como os judeus, que a salvação é coletiva. Deus não vai arrebatar nações e sim pessoas.
Tão certos estavam os judeus de obterem a justificação pela Lei que não só falharam em seus esforços, como não reconheceram Deus e a Sua justiça, revelada em Cristo: “porque o fim da lei é Cristo, para justiça de todo aquele que crê... Pois, não há distinção entre judeu e grego.” (10.4,12). É isto que Paulo insiste em mostrar a Israel, objetivando que a salvação é pela fé, segundo o Evangelho e, por isso, não há salvação para os que rejeitam a Cristo.
Do ponto de vista humano, salvação consiste em colocar a nossa fé na revelação da justiça de Deus, segundo o Evangelho (Rm 6.12-15). Paulo nos assegura que a maneira de sermos salvos é muito simples, a considerar que Cristo já desceu dos céus para nos salvar (Gl 4.4; Rm 8.3) e já ressuscitou dentre os mortos, consumando a obra da redenção.
Precisamos proclamar as boas novas que Cristo trouxe, pois ninguém pode ser salvo se o Evangelho não for pregado por aqueles aos quais Deus enviou. Não foram os anjos comissionados para pregar o Evangelho, mas nós e “como pregarão, se não forem enviados? Como está escrito: Quão formosos são os pés dos que anunciam coisas boas!” (Rm 10.15).
O método empregado por Deus para alcançar almas para a salvação em Cristo é homens “enviados” que:
a.     Pregarão (Rm 10.15b);
b.     Pregando, os homens os “ouvirão” (Rm 10.14c);
c.     Ouvindo, “crerão” (Rm 10.14b);
d.     Crendo, “invocarão” (Rm 10.14a);
e.     Invocando, salvar-se-ão (Rm 10.13).

Este método torna indesculpável a incredulidade do homem!

A maior e mais positiva evidência que temos de que Deus não rejeitou Israel para sempre é a conversão de Paulo, sendo ele um israelita (Rm 11.2). Elias também recebeu forte e pronta repreensão da parte de Deus: “Reservei para mim sete mil homens, que não dobraram joelhos diante de Baal.” (Rm 11.4).

2.5.       Exortações Práticas (Rm 12-16)
O corpo do crente é o veículo de expressão da alma redimida, como também o templo do Espírito Santo que nele habita. Daí o apelo: “Um sacrifício vivo”. Segue-se a atitude de prontidão para todo serviço que Deus requeira de nós: “não vos conformeis, mas transformais-vos”. Estas palavras responsabilizam o crente quanto ao dever de oferecer sacrifícios espirituais a Deus.
O servo não pode estar separado do serviço e a qualidade do serviço é determinada pela qualidade do servo. Parte de nossa transformação provém de nossa atitude para com a vontade de Deus. Parte da renovação das nossas mentes vem pela aceitação da Epístola aos Romanos 12.16, ao exortar: “Tende o mesmo sentimento uns para com os outros; em lugar de serdes orgulhosos, condescendei com o que é humilde; não sejais sábios aos vossos próprios olhos”. Notemos que a transformação vem pela renovação da nossa mente.
O corpo tem muitos membros e cada um tem uma obra ou serviço específico a executar. Trate-se dos dons ou capacidades concedidas pelo Espírito Santo. Devemos saber qual é o nosso dom a ministrar, conforme Romanos 12. Nos versos 9 a 21, Paulo enumera diversos mandamentos que se explicam por sim mesmos. O desafio não está em compreendê-los, mas sim, em praticá-los, pois o amor divino é o princípio controlador da vida cristã.
Com respeito às relações com o governo humano, o serviço cristão implica em submissão a ele. Porque Paulo entrou nesse assunto? Pelo fato dos cristãos, por alegarem lealdade somente a Cristo, não queriam se submeter às autoridades humanas constituídas, no que o apóstolo descreve: “...aquele que se rebela contra a autoridade está se colocando contra o que Deus instituiu e aqueles que assim procedem trazem condenação sobre si mesmos” (Rm 13.2).
Nenhum membro da Igreja de Cristo está isento das responsabilidades para com o governo civil, segundo Romanos 13.1. Ninguém deve ignorar ou sentir-se livre para violar as leis estabelecidas pelas autoridades governamentais, uma vez que “não há autoridade que não proceda de Deus”.
Nem sempre queremos fazer o melhor para nossos irmãos em Cristo. Nos versos 1 e 2 do capítulo 15, há três atitudes que, como cristãos, temos a responsabilidade de fazer para com os nossos irmãos mais fracos: suportar suas fraquezas, não agradar especificamente a nós mesmos e agradar ao próximo.
O apóstolo Paulo faz também alusão ao profeta Isaías, inserindo os gentios no seu contexto: Da raiz de Jessé viria o Messias, descendente de Davi, “para governar os gentios...”. Aqui está confirmada a doutrina que Paulo ensinou aos romanos e também aos gálatas. Os judeus e gentios que confiam em Cristo formam a Sua Igreja, para que, juntos, possam glorificá-lO (Rm 15.9-12).
O apóstolo Paulo encerra sua epístola alertando os irmãos contra aqueles que promovem “divisões e escândalos”. Uma artimanha de Satanás é a de tentar destruir a Igreja, dividindo-a em facções. As diferenças doutrinárias têm sido um instrumento seu para fazer mudar opiniões e causar as divisões e os escândalos. O remédio preventivo para isso é: “afastai-vos deles”, isto é, dos que promovem divisões por meio do desacordo com a doutrina cristã.

3.    A Epístola aos Gálatas
A Epístola aos Gálatas diz respeito à controvérsia judaizante, motivo pelo qual se reuniu o Concílio de Jerusalém (At 15). Não foi escrita como um trabalho de história contemporânea, antes constitui um protesto contra a distorção do Evangelho de Cristo causada pela ação dos falsos mestres judaizantes que seguiam após o apóstolo Paulo, com o propósito de prejudicar o seu profícuo ministério.
Paulo destinou essa epístola às pessoas residentes na região conhecida como “Galácia” com o propósito de refutar os falsos mestres e os erros doutrinários. Seu tema é “A Justificação pela Fé e a Liberdade Cristã” e nela, o apóstolo mostra que há importância naquilo que se crê e usa a sua conversão para mostrar isso. Ele ensinava que em Cristo podemos ser salvos e vivermos uma vida agradável a Deus. É bem verdade que o apóstolo não ficava satisfeito em ver as pessoas apenas aceitando Jesus como seu Salvador, ele queria se certificar de que elas estavam crescendo na fé e na verdade, aceitando Jesus também como o Senhor de suas vidas. O apóstolo estabelecia igrejas nos lares cristãos e após saía a pregar em outras regiões, mantendo contato com elas através de epístolas.
Ao lermos a Epístola aos Gálatas, notamos que Paulo sente uma profunda responsabilidade pelas igrejas sob seu cuidado, isto por ter sido ele o fundador delas. Ocorre que seus membros estavam prestes a naufragar na fé em Cristo. Paulo, seu pai na fé, amava-os e queria protegê-los desse perigo (Gl 4.19). Por isso, não nos admiremos por ter ele escrito uma carta tão urgente e franca ao saber do risco que corriam. A doutrina foi e sempre será de vital importância na vida de uma igreja.
A Epístola aos Gálatas foi escrita para um grupo de igrejas da região da Galácia que enfrentavam o mesmo problema e Paulo mostra que o Evangelho anuncia a salvação pela fé (Gl 3.11) e que a fé em Cristo conduz a uma vida cheia do Espírito e de vitória sobre o pecado, o mundo e a carne, enquanto que o esforço humano para obter salvação conduz à derrota.

3.1.       Deus concede a Paulo o seu Evangelho
Que ideia fazemos sobre a chamada divina para o ministério cristão de tempo integral? Deus ainda hoje chama pessoalmente as pessoas para o ministério? Devemos ter em mente estas perguntas ao aplicarmos Gálatas 1.1 à nossa própria vida e ao ministério que Deus nos confiou.
Observemos com atenção a palavra igrejas, no verso 2. Esta epístola é dirigida a diversas igrejas locais. A palavra igreja é tradução do grego ekklesia, que significa assembleia, isto é, no caso específico da teologia cristã, um povo especial, chamado do mundo para pertencer e servir a Deus e para adorá-lO. Atentemos agora para o Senhor Jesus Cristo: Ele é o centro do Evangelho de Paulo, que diz: “...Cristo em vós, a esperança da glória” (Cl 1.27).
O Evangelho é a revelação final de Deus. Não há mais revelação a se acrescentar à mensagem redentora de Deus. Ela não pode ser substituída ou trocada por uma nova revelação. O Evangelho – as boas-novas de salvação pela fé em Cristo – é o verdadeiro e imutável Evangelho. Por essa razão, Paulo diz que aquele que anuncia outro evangelho seja anátema (Gl 1.9).
Em muitas ocasiões, Paulo enfatiza quão zeloso fora ele com a fé judaica antes de sua conversão ao Cristianismo (At 26.9-11). Somente uma revelação divina poderia convencê-lo da verdade do Evangelho. Ele era um “apóstolo” da Lei e apenas Deus poderia transformá-lo em um apóstolo de Cristo. Foi a intervenção divina que o fez sair do Judaísmo frio e sem vida para o Cristianismo vivo e poderoso, tendo Cristo como a sua razão de ser.
Se Paulo pregasse um falso evangelho, Pedro e Tiago o teriam corrigido. A verdade é que não temos qualquer relato de problema ocorrido nesse sentido; pelo contrário, há um registro de Paulo ser sempre bem recebido em todas as igrejas da Judeia (Gl 1.23).
No capítulo 2, Paulo continua a defesa da fé cristã com argumentos históricos, relembrando aos gálatas que o Evangelho fora aceito pelos líderes da igreja de Jerusalém. Eles poderiam ver a dedicação e a sinceridade de Paulo quanto ao Evangelho da liberdade cristã à medida que lessem a carta.
Nos versículos 1 e 2 do referido capítulo, Paulo faz alusão à visita que fizera a Jerusalém 14 anos após a sua conversão que, segundo ele, foi por uma revelação divina. Ao encontrar os apóstolos responsáveis pela igreja de Jerusalém, houve o reconhecimento e a prova definitiva de haver um único Evangelho pregado, tanto aos judeus quanto aos gentios.
Os apóstolos reconheceram que Deus concedera a Paulo um ministério especial, o da incircuncisão (isto é, aos gentios) e que, de igual modo, concedera a Pedro o ministério da circuncisão (isto é, aos judeus). Em razão disso, os responsáveis pela igreja de Jerusalém aprovaram o Evangelho de Paulo e reconheceram o seu apostolado como havendo sido concedido por Deus.
Foi Pedro quem proclamou primeiro o Evangelho do Reino de Deus aos pecadores, pregando aos judeus e vendo o derramamento do Espírito Santo sobre os gentios. Então, por qual razão Paulo se queixa de Pedro em Gálatas 2.12-13? A de se separar dos cristãos gentios. A atitude de Pedro dava a entender que os cristãos gentios eram espiritualmente inferiores aos cristãos judeus. Até mesmo Barnabé, com todo seu preparo, foi levado pela dissimulação de Pedro e dos demais judeus (2.13b). O problema exigia uma ação imediata e corretiva antes que se intensificasse e Paulo, então, repreendeu Pedro na presença de todos (Gl 2.14).
Os versos 15 a 18 do capítulo 2 de Gálatas evidenciam que, em se tratando de salvação, não existe meio termo: ou somos salvos por Cristo ou não somos salvos por nenhum outro meio, nem mesmo pela Lei.
Nos versículos 19-21, notamos três fatos da maior importância em torno do assunto da nossa identificação com Cristo e o novo andar com Ele, a partir da nossa conversão, a saber:
a.     O nosso “viver para Deus” (v.19) deve ser ininterrupto;
b.     A nossa “fé no Filho de Deus” (v.20) é fator vital, pois “o justo vive por fé”;
c.     A constante dependência da “graça de Deus” (v.21); “Não anulo” nesse mesmo versículo, tem o sentido original de não ignorar, não marginalizar.

3.2.       As Escrituras ensinam o Evangelho da Fé (Gl 3)
Paulo inicia o capítulo 3 chamando os gálatas de “insensatos” (v.1) pelo fato de terem sido enganados. O apóstolo considerava que eles tinham possibilidades de resistirem aos falsos ensinos e a doutrina dos judaizantes contradizia o Evangelho que Paulo lhes ensinara. Os gálatas não examinaram esse novo ensino à luz da verdade divina que já haviam recebido do apóstolo.
Paulo mostra aos gálatas que o Evangelho da fé por eles recebido é o mesmo que fora concedido aos judeus desde Abraão, há muitos séculos. Em seu argumento teológico, Paulo mostra que o método divino da justificação do homem sempre foi pela fé e destaca Abraão como exemplo (v.6-9). Vale ressaltar que, os judeus apontavam Moisés em seus argumentos, representando a Lei; já Paulo vai muito além e cita Abraão que viveu antes da Lei.
A Lei foi concedida para refrear a natureza humana caída e para tornar as más ações em ofensa legal, também declarava errados determinados atos e os proibia. Todavia, a Lei tinha uma duração: “... até que viesse o descendente (Cristo)” (v.19). O limite temporal da Lei compreendia do tempo em que o mediador a recebeu (Moisés) até o surgimento da descendência de Abraão, a quem fora feita a promessa (Cristo).
O objetivo da Lei, então, era mostrar-nos que éramos culpados pelo pecado e conduzir-nos à salvação pela fé em Cristo, pois a promessa fora dada aos que creem (v.22) e, quando somos justificados pela fé em Cristo, recebemos uma nova vida e também o Espírito de Deus (Gl 3.2,3,14). Isto não significa que a Lei foi posta de lado, pelo contrário, recebemos poder para vivermos de acordo com a Lei de Deus (Rm 8.3,4).
O crente justificado é um membro da família de Deus e não um servo debaixo da Lei (3.26). Ser filho de Deus não significa apenas um novo relacionamento com Deus, mas uma nova vida. Todos se aproximam de Deus na mesma condição: pela fé em Cristo. A união com Cristo é sem distinção de posição social, nacionalidade, cultura e sexo. Todos os crentes formam a verdadeira Igreja Invisível de Deus. Todos que estão em Cristo são igualmente descendentes e herdeiros de Abraão, segundo a promessa.

3.3.       O Evangelho só produz Filhos (Gl 4.1-31)
Em Gálatas 4.1-3, Paulo fala de uma criança vivendo sob a orientação de tutores até a sua maioridade. Esses tutores representam a Lei, o judeu é a criança e a maioridade é a aceitação da obra de Cristo. Incluindo todos os judeus e gentios, Paulo diz “Assim, também nós” (4.3).
Deus enviou seu Filho e, através de Sua obra redentora no Calvário, tanto judeus como gentios podem tornar-se filhos, através do plano divino da adoção. Entretanto, em termos de salvação, a adoção vai além da relação humana. Recebemos uma nova natureza. Somos filhos, não só por adoção, mas também por nascimento.
Depois de se tornarem filhos adultos, os gálatas estavam preferindo ser governados pela Lei, dessa forma, começavam a negar sua relação filial com Deus, bem como a negar Jesus que os redimira da salvação. Voltar à Lei significa renunciar à nossa salvação de filhos. É abandonar o lugar superior e privilegiado de filhos e retornar à servidão como um menino, que não difere em nada de um servo. Paulo declara, no verso 11, temer que seus esforços para levar os gálatas a Cristo tenham sido em vão e os roga para não abandonarem o Evangelho e diz: “Sede qual eu sou...” (v.12).
Em Gênesis 21.9-21, temos retratada tanto a posição da Lei como a da Graça. Recorrendo ao exemplo dos filhos do patriarca Abraão, Paulo esclarece que, assim como o filho da escrava Agar tinha que dar lugar ao filho da mulher livre, Sara, a Lei havia dado lugar para à Graça (Gl 4.21-27).

3.4.       A Liberdade Cristã (Gl 5.1-6.18)
Paulo já provou pelas Escrituras, nos capítulos 3 e 4 de sua Epístola aos Gálatas, que somos filhos livres, nascidos do Espírito, e que já recebemos a nossa herança. Ele não era contrário à prática da circuncisão em si, mas contra o ensino de que ela seria necessária para se alcançar a salvação. Acrescentando isso à obra redentora de Cristo, estamos dizendo que a Sua morte não foi suficiente para nos salvar. Paulo considera caído da graça aquele que procura circuncidar-se para poder se salvar (Gl 5.4).
O homem justificado pela fé experimenta uma transformação interior, operada pelo Espírito Santo e esse privilégio se encontra apenas “em Cristo”. As observâncias exteriores não tem efeito algum no plano da salvação, porquanto o que vale é a fé efetiva (Gl 5.3-6).
No versículo 13, Paulo apresenta duas realidades: uma negativa, “...dar ocasião à carne”; e outra, positiva, “...sede servos uns dos outros pelo amor”. Este amor que Paulo está falando é o amor divino que o Espírito Santo põe em nosso coração. Deus coloca o Seu amor em nós como um controle positivo sobre a nossa natureza humana herdada e influenciada pelo pecado.
Em Romanos 8.2-5, o apóstolo Paulo usa a frase “a lei do Espírito” para se referir ao controle do Espírito Santo na vida do crente. Receber o Espírito Santo é um passo vital quando o crente se coloca sob o controle desse mesmo Espírito, e bem diferente é que: “...andemos também no Espírito” (Gl 5.25).
Paulo nos fornece uma lista de obras da carne, alertando que “...não herdarão o reino de Deus os que tais coisas praticam” (5.19-21). Agora ele nos oferece uma lista com os vários aspectos do fruto do Espírito (5.22-26). O fruto do Espírito é resultado da presença e domínio do Espírito Santo em nossa vida. Esse fruto não é algo que o homem pode produzir ou fazer. Ele é visto em nós através da plena atividade do Espírito em nosso interior.
Observemos que os componentes do fruto do Espírito são nove. O primeiro é o amor e o último é o domínio próprio.

Encerrando a Epístola, Paulo trás a aplicação do evangelho na vida diária, através dos conselhos a seguir:
a.     Vós, que sois espirituais, restaurem os que têm alguma falta, com espírito de mansidão (Gl 6.1);
b.     Levai as cargas uns dos outros, isto é um dever cristão (Gl 6.2);
c.     Prove cada um a sua própria obra pelo padrão bíblico (Gl 6.4);
d.     Cada um levará o seu próprio fardo, sendo nós responsáveis por ajudar os fracos e também manter nossas vidas em pureza (Gl 6.5).

Paulo escreveu de próprio punho toda a Epístola aos Gálatas. Era o seu costume usar um escriturário e, normalmente, ele assinava só o fecho da carta (I Co 16.21; Cl 4.18; 2Ts 3.17). Porém, pelo caráter urgente da Epístola aos Gálatas, foi necessário ser o mais pessoal possível.
No último verso, Paulo não hesita em chamar os gálatas de “irmãos” e ora também por eles para que tenham a graça divina, o favor imerecido de Deus para os homens. Graça recebida não à base das próprias obras, mas à base do amor e da misericórdia de Deus (Ef 2.8-9).

Nenhum comentário:

Postar um comentário