1. Introdução
Neste estudo estudaremos os escritos de três grandes
profetas: Isaías, o profeta das promessas; Jeremias, o profeta da
coragem e; Ezequiel, o profeta das visões.
As profecias transmitidas por estes homens de Deus não
somente formam a base de muitas doutrinas do Novo Testamento, tal como
Salvação, Cristologia e Escatologia, mas também proporcionam uma abundância de
verdades espirituais, relevantes à nossa geração da atualidade.
As mensagens dos três profetas são apresentadas em duas
partes: a primeira, advertindo sobre o julgamento do pecado, e a segunda
avivando a esperança e encorajando os corações arrependidos.
17 livros do Antigo Testamento, de Isaías a Malaquias, são
classificados como proféticos e divididos em PROFETAS MAIORES (Isaías, Jeremias
Lamentações, Ezequiel e Daniel) e PROFETAS MENORES (Obadias, Joel, Jonas,
Oseias, Amós, Miqueias, Naum, Habacuque, Sofonias, Ageu, Zacarias e Malaquias).
A distinção entre profetas “maiores” e “menores” consiste,
não em que uns sejam maiores ou menores que os outros, mas em que uns
proferiram maior ou menor número de profecias que outros.
Devido o caráter escatológico do livro de Daniel, ele será
estudado em conjunto com o Livro de Apocalipse, em matéria à parte.
A palavra mais comumente usada no Antigo Testamento para profeta é nabi, que se refere a porta-voz ou arauto. Estes,
ocasionalmente predizem o futuro. Certos profetas, como Abraão (Gn 20.7), não
predisseram futuro algum. Desta maneira, levemos em consideração o termo profeta como designação do “mensageiro
de Deus” e não alguém que meramente prediz o futuro.
Os profetas eram enviados por Deus para exortar, corrigir,
alertar e trazer esperança, pois foram levantados em tempo de grande declínio
espiritual, tensão e apostasia. Vale ressaltar que os profetas não aparecem na
Bíblia na ordem cronológica em que profetizaram.
As três crises principais na qual os profetas foram
levantados, podem ser melhor lembradas pelo acróstico A B C. A representando a
crise da Assíria; B
representando a crise da Babilônia e; C representando a época do Cativeiro.
2. Isaías: o profeta das promessas
Chamado de “O Príncipe dos Profetas do Antigo Testamento”, o
profeta Isaías foi, no Antigo Testamento, aquilo que Paulo foi no Novo
Testamento. Sem dúvida, o Livro de Isaías é o livro profético mais
significativo no Antigo Testamento. Contém tantos ensinos sobre Cristo e a
salvação, que alguns pensadores da Igreja Primitiva achavam que o livro poderia
ser chamado “O Quinto Evangelho”, em vez de livro profético.
Isaías era primo do rei Uzias e a Bíblia o descreve
executando serviço oficial de historiógrafo do próprio Uzias e também de
Ezequias (2Cr 26.22; 32.32). Certamente, Isaías era muito conhecido na corte e
tinha fácil acesso aos reis e sacerdotes (Is 7.3; 38.1).
A família de Isaías enriqueceu muito seu ministério. Sua
esposa era uma ‘profetisa’ e seus dois filhos foram, várias vezes, recursos
visuais da sua mensagem.
Isaías, que abertamente repreendeu reis e multidões
rebeldes, é conhecido como profeta corajoso. Ele falou ao rei Acaz que sua vida
estava “fatigando” a Deus (Is 7.13) e admoestou o rei Ezequias a que pusesse a
sua casa em ordem porque iria morrer (Is 38.1). Com esta mesma coragem, ele
condenou multidões que realizavam cultos hipócritas (Is 1.13) e falou às filhas
de Sião, dizendo-lhes que eram altivas e cheias de galanteios (Is 3.16,17).
Os primeiros 5 capítulos de Isaías foram escritos durante o
reinado de Uzias. No capítulo 6, o rei Uzias morre leproso, em decorrência da
sua transgressão contra Deus, por entrar no templo para queimar incenso no
altar (2Cr 26.16-23).
O reinado de Uzias, que se estendeu por 52 anos, foi uma
época de prosperidade e calma, pois ele serviu ao Senhor de todo o seu coração.
Infelizmente, esta prosperidade levou o povo a uma atitude de autoconfiança e
negligência diante de Deus. A fé não passava de mero formalismo e o sacerdócio
também era corrupto e inapto.
Isaías 6.1 fala da morte de Uzias, o qual foi sucedido pelo
filho Jotão, que tinha co-reinado ao lado de seu pai por 12 anos e, após sua
morte, reinou mais 4 anos. Embora tivesse sido homem reto, a prática do mal
corria pela nação de maneira muito degradante e estava muito generalizada para
ser contida (2Cr 27.2).
Deus sabia que o coração do povo se endureceria à pregação
da Sua Palavra e assim preparou o coração de Isaías para o fato de que a Sua
mensagem teria pouca aceitação (Is 6.9-12).
Os capítulos 7 a 14 do Livro de Isaías foram escritos
durante o reinado de Acaz. Durante os 16 anos deste reinado, a nação desceu a
um nível espiritual tão degradante que se deu a todo tipo de pecado e de
idolatria, culminando com sacrifícios humanos para deuses estranhos (2Cr 28.3).
Todas as profecias dos capítulos 15 a 39 de Isaías foram
escritas durante o reinado de Ezequias, um dos mais devotados reis de Judá que,
por crer na sua própria limitação, apelou por ajuda de Deus para solução de
vários problemas e, em resposta, a nação experimentou um grande avivamento
espiritual.
Embora o nome do rei Manassés não apareça no Livro de
Isaías, acredita-se que ele reinava nos dias em que este profeta escreveu a
última parte deste livro (cap. 40-66). As figuras de corrupção retratadas por
Isaías, certamente não são descrições exatas do país durante o reinado de
Ezequias, mas descrições precisas do estado durante o reinado do seu filho
desviado Manassés, que dirigiu a nação envolvendo-a em profundo pecado (2Rs
21.11).
O Livro de Isaías tem sido chamado “A Bíblia dentro da
Bíblia” por causa da semelhança entre seu conteúdo com o restante da Bíblia.
Por exemplo, Isaías contem 66 capítulos, assim como a Bíblia tem 66 livros.
Estes capítulos podem ser divididos em uma seção de 39 capítulos e uma segunda
de 27 capítulos, assim como a Bíblia contém 39 livros no Antigo Testamento e 27
no Novo Testamento. Estas maiores divisões de Isaías se comparam à Bíblia em
seu conteúdo. A primeira seção do Livro de Isaías dá ênfase à Lei, ao
julgamento e ao Messias prometido. A segunda seção enfatiza a graça, redenção e
o Messias presente.
O tema do Livro de Isaías é “O Senhor é Salvação”.
2.1. Isaías: O Messias Prometido (1-12)
Como já observado, os cinco primeiros capítulos de Isaías
foram escritos durante o reinado de Uzias e, neste tempo, Deus derramou Suas
bênçãos sobre Judá, mas eles demonstraram ingratidão. Assim, no capítulo 1, há
uma simulação de tribunal, onde o juiz é Deus, o júri é Judá e a acusação é a
ingratidão.
Isaías disse que até o boi conhece o seu dono, e o jumento,
o dono da sua manjedoura, contudo os judeus se recusavam a reconhecer o Pai
Celestial.
Nesta altura do drama, Deus é retratado qual promotor
público expondo os pecados de Judá. Nota-se, porém, que Deus não abandona o Seu
povo. Ele procura persuadi-lo para que reconheça os seus erros. O Pai Celestial
estava disposto a absolver o povo de qualquer culpa, caso se arrependesse de
verdade.
A mensagem dos profetas do Antigo Testamento quanto ao
futuro, é muitas vezes indefinida quanto ao tempo do seu cumprimento e quanto à
ordem cronológica dos acontecimentos preditos. Numa visão de Isaías nos
capítulos 2 a 5 temos exemplo disto. Nestes capítulos, o profeta condenou a
hipocrisia daquele tempo; predisse a invasão dos inimigos de Judá num futuro
imediato e também esboçou o plano de Deus a se cumprir num futuro muito
distante. A ordem desses eventos foi lógica, mas não cronológica.
No capítulo 6 vemos que a morte do rei Uzias preocupou muito
o profeta Isaias, pois a estrutura política e espiritual da nação seria
influenciada. Turbado no seu espírito, Isaías foi ao templo para orar e receber
conforto de Deus. Estando em meditação, ficou extasiado com a presença divina e
teve uma visão do céu, onde viu o Rei dos reis assentado no Seu trono,
refulgente de glória. Sem dúvida, esta experiência confirmou o ministério
profético de Isaías, dando a ele a certeza de que a confiança deveria estar
naquele que controla tudo e todos.
Tendo contemplado a plena glória de Cristo, humilhado,
Isaías confessou ser indigno de adorar a Cristo, com lábios impuros. Para
purificá-lo, um anjo tocou os seus lábios com uma brasa viva do altar.
Os capítulos 7 e 8 tem, em profunda importância, o título
“Emanuel”, que significa “Deus Conosco”. Acaz, rei de Judá, foi avisado pelo
profeta para não ir à Assíria pedir socorro militar, mas esse aviso do profeta
foi menosprezado. Como resultado, Judá se tornou quase escravo da Assíria.
Foi no tempo da primeira invasão assíria que Deus, pela
primeira vez, revelou ao profeta Isaías o fato de um libertador vindouro que
seria chamado “Emanuel”.
O Emanuel foi apresentado no capítulo 7 e continua como o
personagem principal até o fim do capítulo 12. O nono capítulo de Isaías prediz
que o Emanuel ministrará, primeiramente na Galileia. Este território é
altamente importante, pois, nessa localidade da Terra Santa, apareceu o Emanuel
pela primeira vez como porta-voz do Pai.
Isaías 9.6-7 é um dos textos bíblicos mais importantes sobre
a divindade de Cristo. Nessa passagem temos uma profecia de que o Cristo, uma
vez encarnado e vindo ao mundo, teria quatro títulos que o distinguiria como
ser divino:
1. Maravilhoso Conselheiro: Embora algumas versões da
Bíblia dividam com uma vírgula esse título em dois, é bem claro no idioma
hebraico que as duas palavras devem ser combinadas formando um só título.
Isaías usou esse título para mostrar que a sabedoria de Cristo é sobrenatural.
2. Deus Forte: A mesma expressão é usada pelo próprio
profeta Isaías quando fala de Jeová, usando a expressão “EL”, no singular, que
é usada no Antigo Testamento unicamente para referir-se a Deus e a ninguém
mais!
3. Pai da Eternidade: Quanto ao Seu amor paternal e o
cuidado para com Seus filhos, Jesus é identificado como o Pai da Eternidade.
Isto destaca Sua divindade, pelos conceitos pai e eterno.
4. Principe da Paz: A paz que vem por Cristo é uma
paz sobrenatural. Na esfera espiritual, Ele promove a nossa paz interior, com
Deus.
O trecho de Isaías 12.1-6 é conhecido como o “Cântico dos
Redimidos”. Ele forma uma perfeita conclusão à seção do Livro de Isaías,
conhecida como o “Livro do Emanuel”, pois trata do gozo dos redimidos.
O cântico alude primeiro à tristeza resultante do estado de
afastamento de Deus. Depois, vem o regozijo porque a ira de Deus foi removida e
veio a restauração normal da comunhão. Por isso, os redimidos podem saciar-se
nas “fontes de salvação” (12.3) e
proclamar ao mundo “os seus feitos”
(12.4).
O brado de júbilo do último versículo deste cântico resume
todos os seis capítulos que tratam do Emanuel, a saber, capítulos 7-12: “Exulta e jubila, ó habitante de Sião,
porque grande é o Santo de Israel no meio de ti” (v.6).
2.2. O Dia do Senhor (13-39)
Nos capítulos 13 a 23 do Livro do profeta Isaías, há várias
profecias a respeito das nações envolvidas nas guerras assírias. O tema dessa
seção é: “Confie em Deus para sua Libertação e Não em Aliança com Outras
Nações”.
Esta seção do Livro de Isaías foi escrita durante um período
histórico agitado e inseguro. Tendo derrotado a Síria e Israel, a Assíria
obrigava as nações à sua volta a se tornarem seus vassalos. Em 715 a.C, as
nações escravizadas resolveram se aliar, formando um só exército para tentarem
sacudir o jugo da Assíria e Judá foi convidado a tomar parte da aliança, mas
Deus usou o profeta Isaías para dizer Não
e o rei Ezequias entendeu que era para confiar exclusivamente em Deus.
Isaías foi um grande profeta, focando profecias de futuro
distante, profetizando contra muitas nações, como: Babilônia (13.1-14.23),
Assíria (14.24-27), Filístia (14.28-32), Moabe (15-16), Síria (17), Etiópia
(18), Egito (19-20), Edom (21.11-16), Jerusalém (22.2-11) e Tiro (23).
O capítulo 14 trata de sobre uma profecia referente à
Babilônia denominada “Batalha das Estrelas”. Isaias revela que a verdadeira
força que opera sob o poder político corrupto da Babilônia é Satanás. As
manobras políticas não passavam de tentativas malignas para eliminar a linhagem
de Davi, de onde viria o Messias. Profeticamente, Isaías expõe como foi que
começou a renhida guerra espiritual num passado remotíssimo. Sem desligar-se
totalmente da linguagem figurada referente ao rei babilônico, Isaias relata como
foi que “a estrela da manhã”
(Lúcifer) conspirou contra Deus (14.12). Essa guerra perdida nos séculos somente
chegará ao fim quando o Diabo for totalmente dominado por outra estrela: a
Estrela da Alva (2Pe 1.19).
Os capítulos 24 a 27 tem por tema, originalmente, “O Dia do
Senhor”. Esse dia consiste em duas partes: A Grande Tribulação e o Reino
Milenar de Jesus Cristo. No capítulo 24 temos sobre o julgamento universal,
falando da grande tribulação; o capítulo 25 mostra a vitória sobre a morte
através da ressurreição de Jesus; o capítulo 26 trata sobre a primeira
ressurreição, através do evento do arrebatamento da Igreja e; o capítulo 27
trata sobre o final da Grande Tribulação e o Milênio.
Os capítulos 28-35 são chamados de “apelo” do Livro de
Isaías. Esses apelos finais, dirigidos a Jerusalém, tinham como propósito dar à
cidade uma oportunidade final de arrepender-se e voltar-se para Deus antes que
lhes sobreviessem as hordas cruéis dos assírios. Todavia, mesmo enfrentando a
ameaça de um juízo horrendo através do exército assírio, Jerusalém não estava
confiando em um livramento divino, mas sim em seus próprios recursos, fazendo
com que conseguisse uma “aliança com a morte”.
O Egito foi convidado pelo povo judaico para formar uma
confederação para que, juntos, invadissem a Assíria. Deus se opôs a essa
aliança por duas razões. Primeiro, o povo estava arriscando uma mudança nos
seus princípios santos e, segundo, Deus mesmo permitiu as invasões da
Assíria, para que o Seu povo fosse despertado a arrepender-se e a voltar-se ao
Senhor, e não aos “estranhos”, à procura de socorro.
Deus ainda libertaria o povo se este voltasse a Ele e
lançasse fora os ídolos. O povo deveria buscar a face de Deus com toda a
sinceridade, por meio do arrependimento e não os deixariam morrer em terra
estranha.
A primeira parte do livro de Isaías é marcada por crises
assíria e pela ênfase na dependência de Deus para se obter a vitória e em não
se confiar em alianças com nações pecaminosas. Os capítulos 36 a 39 destacam o
princípio da fé. Mostram o galardão da fé de Ezequias retratado na derrota dos
assírios.
A segunda parte ocupa-se do assunto do cativeiro babilônico.
Os capítulos 38 e 39 introduzem esta seção, expondo o grave problema que
começou com um simples ato de jactância da parte de Ezequias.
No capítulo 38 vemos que Ezequias ficou gravemente doente. O
profeta Isaías foi chamado para orar por ele, chegando proferiu a surpreendente
profecia: “Põe a tua casa em ordem,
porque morrerás e não viverás” (38.1). Ainda que angustiado, a fé do rei
não se abalou. Ele orou e implorou a Deus, que ouviu sua oração e logo a
respondeu, lhe concedendo mais 15 anos de vida.
A fé fortalecida de Ezequias fez com ele confiasse em Deus;
mas, logo ele veio a fracassar; não devido aos ataques inimigos, mas, por causa
de uma simples amizade. Não foram as enfermidades, nem as guerras que o
derrubaram, mas o orgulho motivado por uma amizade imprópria com os emissários
babilônicos.
2.3. Esperança para uma geração futura (40-48)
O livro de Isaías foi escrito em duas partes, sendo os
capítulos 40 a 66 escritos 200 anos após o profeta, por um autor desconhecido.
Todavia, por ser um livro inspirado pelo grande “Eu Sou”, as partes se
completam e o torna um livro cheio de riquezas e detalhes que sobreviveu a
muitas investidas de Satanás.
Esta segunda metade do Livro de Isaías foi dividida em 27
capítulos, mas, na realidade, foi escrita como um longo poema, divinamente
inspirado, a respeito do plano da redenção. A revelação deste plano tem como
fundo o povo que seria um dia liberto do cativeiro da Babilônia, o qual
precisaria de muito encorajamento para regressar à terra de Israel. Isaías se
preocupava com a libertação física deste cativeiro, porém, se preocupava ainda
mais com a sua libertação do cativeiro espiritual.
No capítulo 40 do livro, Isaías recebe sua segunda comissão:
pregar consolação e esperança à geração futura, demonstrando que Deus não
estava morto e que Ele é maior do que qualquer crise, poder opressor ou deus
estranho.
Mais adiante Isaías enfatiza a onisciência de Deus mediante
uma convocação geral dEle a todas as ilhas e nações para uma “renúncia aos
deuses”. Deus desafia todas as nações a comparecerem a uma conferência,
apresentando cada uma o seu próprio deus, para determinar qual deles é o mais
poderoso (Is 41.1,11,12). Neste julgamento, Deus desafia cada nação a
apresentar uma profecia sobre o futuro, que prove a onisciência do seu próprio
deus (v.23). Uma vez que não há resposta, Deus responde, falando novamente
sobre Ciro, predizendo que ele virá do Oriente e entrará em Israel pelo Norte
(v.25).
Nos capítulos 42 a 45, Isaías apresenta outro aspecto da
grandeza de Deus: o Seu plano de redenção de Israel. A profecia do livramento
de Israel prometia a sua redenção da escravidão sob a Babilônia. Este princípio
da redenção de Israel apronta para a redenção divina aplicada a toda humanidade
em todas as épocas. O título conferido a Deus nestes capítulos é: “O Redentor”
(Is 43.14; 44.6,24).
Isaías 46.1-2 fornece uma descrição vivida dos sacerdotes
babilônicos numa desesperada tentativa de escapar do exército de Ciro. Eles
fugiram levando seus deuses amarrados sobre animais de carga. Em contraste, o
Deus de Israel libertou o Seu povo do cativeiro e os “carregou” fielmente durante
toda a sua vida.
No capítulo 47, Isaías compara Babilônia a uma mulher que,
tendo vivido em pompa, pecado e orgulho, agora caiu daquela elevada posição.
Assentada sobre o pó, ela agora tem que trabalhar como escrava (v.1-2). Esta
profecia se cumpriu exatamente no dia 3 de novembro de 539 a.C., quando Ciro
entrou na cidade e a conquistou em um só dia.
A queda da Babilônia deu oportunidade aos judeus para
retornarem à terra de Judá e mais uma vez servirem a Deus em sua terra. O
Senhor os admoestou a não seguirem o exemplo dos seus antepassados, que haviam
sido rebeldes desde o nascimento da nação (Is 48.8). Até mesmo aquela nova
geração tinha a tendência de adorar a Deus hipocritamente (48.1).
2.4. O Messias Vindouro (49-66)
No capítulo 49 de Isaías, o Servo é apresentado. O título
“Servo do Senhor” pode confundir o leitor, porque Isaías usa-o para se referir
tanto à nação de Israel, como à Pessoa do Messias. Porém, as descrições do
servo que temos no capítulo 49, somente podem se referir a Cristo e não à nação
de Israel, pois este trecho fala do Servo como enviado para restaurar a nação a
Deus (v.5). Embora aqui Ele seja chamado “Israel”, isto subentende um título
figurativo, indicando que o “homem Israel” é um tipo de Cristo.
O esforço inicial do Servo para restaurar Israel a Deus, bem
como a predição da rejeição desta tentativa, estão profetizados em Isaías 49.4.
O cântico continua mostrando que a obra do Servo não será em vão, porque Ele
será “... luz para os gentios...”
(v.6) e, por fim, restaurará Israel a Deus, nos últimos tempos.
A segunda metade do capítulo 49 é um convite para aceitar o
Servo do Senhor e ser salvo. Isaías se refere a este fato como o “dia da
salvação”. Mais tarde o apóstolo Paulo cita este dia como já tendo chegado (2Co
6.2).
Em seguida à declaração sobre o dia da salvação, Isaías faz
a todos um grande convite. Ele cita Deus dizendo o seguinte: “para dizeres aos presos: saí, e aos que
estão em trevas: aparecei...” (v.9). A resposta positiva a este convite
virá de todas as partes da terra.
O segundo cântico do Servo tem como prefácio uma parábola
triste, na qual Israel é comparada a uma esposa infiel que deixou seu marido,
endividou-se e depois foi vendida como escrava para pagar suas dívidas aos
credores. Deus se declara capacitado para remir Seu povo (Is 50.2) e o preço da
redenção será pago por Seu Servo.
Depois de apresentar o Servo que obedientemente sofrerá
pelos pecados de Seu povo, Isaías prossegue insistindo para que este aceite a
obra da salvação. As duas respostas possíveis a tal convite apresentam um
contraste claro e definido. A palavra que mais parece caracterizar o apelo nos
capítulos 51 e 52 é redenção.
O terceiro cântico do Servo (Is 52.13-52.12) é chamado o
Grande Drama de Paixão, na Bíblia. Ele apresenta o Servo como cordeiro sacrificial,
morrendo pelos nossos pecados. Este cântico está localizado bem no centro deste
grande poema messiânico e termina com alguns dos mais expressivos convites à
salvação, encontrados na Bíblia.
Os versículos 4 a 9 dão uma descrição da morte de Cristo sob
as perspectivas teológica e histórica. Sob a perspectiva teológica, a morte de
Cristo pelos pecados do mundo, foi o meio dEle efetuar a expiação vicária da
alma perdida, para a cura do corpo, pelos pecados individuais e pelo pecado na
sua origem.
Nos versículos 7 a 9, Isaías prediz os detalhes históricos
do sofrimento e da morte de Cristo. A ressurreição de Cristo e o resultado da
Sua morte vicária são descritos em Isaías 53.10-12.
Depois destas descrições da paixão de Cristo, Isaias faz
muitos convites para a salvação. No capítulo 54, ele se dirige a Israel sob a
figura de uma mulher estéril e a aconselha a ampliar a sua tenda porque “... transbordarás para direita e para a
esquerda...” (v.3), com filhos. Isaías aqui se refere aos milhões de
gentios que se tornariam uma parte do “Israel verdadeiro”. Paulo corrobora com
este texto de Isaías em Gálatas 4.26-28.
No capítulo 57, Isaías fala à sua geração, advertindo sobre
o perigo que correm aqueles que recusam aceitar o plano de Deus para a sua
salvação. Se alguém rejeitar a Deus, diz Isaías, está recusando a Sua paz. Esta
paz é gratuitamente concedida tanto aos judeus como aos gentios; mas, se
permanecerem na sua rebelião pecaminosa, não terão direito a ela.
Nos capítulos 58 e 59, Deus usa Isaías para falar sobre a
necessidade de um total arrependimento. Se a religião em si fosse suficiente
para a salvação, Israel jamais teria precisado de um Salvador. Este povo em
geral era muito religioso, mas raramente vivia de modo a agradar a Deus
(58.1-7). Isaías conduz a nação a uma oração de confissão e arrependimento
(59.9-16). Deus responde de uma maneira pessoal ao estender Seus braços através
de Cristo, para salvá-la.
Isaías confirma, nos capítulos 60 a 62, que o verdadeiro
arrependimento é seguido de bênçãos. O profeta declara, primeiramente, que a
salvação traz consigo iluminação espiritual. Outras bênçãos que fluem de um
verdadeiro arrependimento é a cura espiritual e o livramento do pecado, além do
gozo espiritual (61.3), santificação (61.3), ministério (61.6) libertação da
condenação (61.7) e uma herança eterna (61.7).
O propósito central dos capítulos 63 a 66 é o de levar o
homem a tomar a decisão de aceitar ou rejeitar a salvação. No capítulo 63, Cristo
vem como um vingador, o guerreiro e redentor justo. Em visão do julgamento
futuro, Isaías orou para que o Redentor viesse sem demora. O capítulo 64 inicia
com um pedido urgente para que Deus venha rapidamente do céu para julgar as
nações. “Oh! Se fendesses os céus e
descesses! ...de sorte que as nações tremessem da tua presença”.
Uma promessa preciosa para o crente, ligada a esta oração,
está em Isaías 65.24. Esta promessa afirma que Deus supre as nossas
necessidades antes mesmo que oremos e que nos responde enquanto ainda estamos
orando. Deus responde a oração de Isaías explicando que Ele retarda o juízo
devido ao Seu desejo ardente de ver o arrependimento e a volta do Seu povo
rebelde. Deus descreve a Si mesmo como um pai, de braços estendidos para os
seus filhos o dia todo, dizendo “eis-me
aqui, eis-me aqui” (Is 65.1-3).
No capítulo 66, lemos que Deus requer que cada homem teme a
decisão de viver para Deus. Há dois grupos de pessoas no mundo e cada pessoa
tem que escolher um desses grupos. O primeiro grupo consiste do homem que está “aflito e abatido de espírito e... treme da
minha palavra” (Is 66.2). Estes receberão as bênçãos de Deus aqui
mencionadas, durante o glorioso reinado de Cristo. O segundo grupo consiste dos
que “... escolheram os seus próprios
caminhos...” (Is 66.3). Em razão de sua escolha pelo pecado, em lugar de
servir a Deus, as pessoas sofrerão condenação.
3. Jeremias: O profeta da coragem e das
lamentações
Sabe-se mais a respeito da vida pessoal de Jeremias do que
de qualquer outro profeta do Antigo Testamento, porque os dois livros que
escreveu, Jeremias e Lamentações, além de proféticos, são autobiográficos.
Neles se revela o perfil de um homem de caráter extremamente firme, mas de
coração muito terno.
Jeremias nasceu de uma família de sacerdotes. Cresceu numa
aldeia chamada Anatote, que ficava a poucos quilômetros ao nordeste de
Jerusalém. Quando tinha vinte anos, recebeu a chamada profética. Seu ministério
começou durante o avivamento dos dias do rei Josias e durou aproximadamente 40
anos (626-586 a.C.), abrangendo os reinados de Josias, seus três filhos e seu
neto.
Devido à hipocrisia e à impiedade que prevaleciam naquela
época, Jeremias foi instruído por Deus a pregar uma mensagem de repreensão e de
julgamento iminente sobre a nação. Naturalmente, essa mensagem era desagradável
ao povo e Jeremias foi, sem dúvida, o profeta mais odiado de Judá e o de menor
sucesso, de acordo com os padrões humanos.
Um dos temas básicos de Jeremias é a sua declaração enfática
de que o povo iria para o cativeiro, não porque Deus fosse fraco para
protegê-lo, mas, sim, porque estava castigando seus pecados, sua rebeldia.
Apesar disso, Deus ainda amava Seu povo e anelava restaurá-lo à comunhão com
Ele.
Jeremias é um profeta cuja mensagem foi rejeitada pelo povo.
Chamado por Deus para anunciar palavras de repreensão, castigo e destruição,
ele foi odiado, surrado, preso e finalmente martirizado. Sua chamada ocorreu no
13º ano do reinado de Josias (627 a.C.), um ano depois do começo da grande
reforma efetuada por este rei. Sem dúvida, Jeremias, auxiliado por Naum e
Sofonias, desempenhou um papel muito influente na promoção dessa reforma. Mais
tarde, quando os filhos de Josias, Jeoaquim e Zedequias instigaram o povo a
pecar, ficou claro que os resultados dessa reforma tinham sido apenas
temporários e muito superficiais.
Enquanto Isaías livremente se dispôs a ser profeta de Deus,
Jeremias teve de ser despertado e encorajado a aceitar essa honra. Ele alegou
que era ignorante e jovem demais para tão grande missão, mas Deus era sua força
e o capacitaria para esta tarefa (Jr 1.6-10).
No momento da sua chamada, Jeremias teve duas visões. A
primeira foi um ramo de amendoeira, árvore que florescia meses antes das
demais, sendo por isso tida como um símbolo de prontidão e vigilância. A visão
simboliza o fato de que Deus estava vigilante e que Seu tempo é perfeito,
quanto ao Seu agir. A segunda visão foi a de uma panela fervendo e derramando o
seu conteúdo para o lado do norte. Este símbolo refere-se à direção de onde
viria a ira divina sobre Judá. Babilônia tomaria a antiga rota das caravanas,
contornando a parte superior do deserto árabe e entraria pelo norte.
Associadas à chamada, Deus fez promessas a Jeremias (Jr
1.17-19). Em primeiro lugar, Deus prometeu força ao homem interior de Jeremias
para suportar a rejeição e a oposição do povo. Ele permaneceria firme contra
essa rejeição, como “cidade fortificada,
coluna de ferro e muros de bronze”. Em segundo lugar, Deus prometeu que Sua
presença nunca deixaria o profeta. Jeremias nunca estaria completamente só,
pois Deus prometeu: “Pelejarão contra ti,
mas não prevalecerão; porque eu sou contigo, diz o Senhor, para te livrar”
(Jr 1.19).
O despertamento espiritual do tempo de Josias constitui o
cenário dos capítulos 2 a 6 das profecias de Jeremias. Foi um cenário de
aparente reavivamento, mas era um falso arrependimento, na qual Jeremias usou
muitas ilustrações para descrever.
No capítulo 2, a imagem de Judá figurando a esposa de Deus é
introduzida. Deus lamenta que essa esposa tenha esquecido o amor que na sua
juventude tinha por Ele, que abandonou o lar e trocou Seu amor pelas cisternas
rachadas, na busca pelos prazeres do mundo.
No capítulo 3.6-4.31, Judá, a esposa do Senhor, é agora
descrita voltando para casa, arrependida de seus pecados. Entretanto,
infelizmente ela não amava Seu marido o suficiente para desistir dos seus
pecados. Seu arrependimento não significava genuína mudança de coração.
O capítulo 5 de Jeremias explica claramente que o falso
arrependimento da esposa infiel é semelhante ao de Judá. O reavivamento dos
dias de Josias parecia sincero, mas, no entanto, o povo não teve real mudança
de coração. Deus desafiou Jeremias a sair às ruas de Jerusalém e encontrar um
“judeu arrependido”, que provasse seu arrependimento genuíno com boas obras,
servindo ao Senhor com alegria. Ao fazê-lo, Jeremias não encontrou ninguém.
No capítulo 6, Deus fala da teimosia de Judá, exortando a
nação a escolher caminhar pela senda da justiça. Já o cenário dos capítulos 7 a
12 de Jeremias é o início do reinado de Jeoaquim, que começou a reinar quando
Judá era um estado vassalo do Egito (609 a.C.). No período de apenas alguns
anos, Judá foi atacado pela Babilônia (606 a.C.). Antes que o domínio
babilônico acontecesse, Deus deu a Seu povo uma última oportunidade para se
arrepender.
Em um dia especial de festa a nação apareceu no templo para
orar para que Deus os libertasse da Babilônia. Os falsos profetas transmitiram
ao povo apenas as palavras de encorajamento que ele queria ouvir, dizendo que
enquanto o templo estivesse em pé, Deus não permitiria que a cidade fosse
destruída (Jr 7.4,14). Mas Deus instruiu Jeremias a ir ao templo com uma
mensagem completamente diferente. Ele deveria, em primeiro lugar, oferecer ao
povo a oportunidade de ser salvo e de mudar a sua vida pervertida. Após,
admoesta o povo, declarando que, se confiasse numa esperança falsa para
salvá-lo, estaria condenado com toda a certeza.
Talvez os versículos mais tristes do Livro de Jeremias sejam
os citados pelo profeta depois de ter, sem sucesso, tentado chamar o povo ao
arrependimento. “Passou a sega, findou o
verão, e nós não estamos salvo.” (8.20).
3.1. A primeira e a segunda deportação de Judeus
(13-29)
Foram três deportações de judeus para a Babilônia. A
primeira envolveu os jovens sábios, com intuito de elevar a Babilônia. A
segunda envolveu todos os moradores, com exceção dos pobres e deficientes. A
terceira envolveu a queda e destruição do templo, bem como o roubo dos
utensílios sagrados.
Embora o Livro de Jeremias não tenha sido escrito em ordem
cronológica, o tempo de certos eventos é claramente assinalado no livro. Uma
data muito importante, regularmente citada, é a que se refere ao “ano quarto de Jeoaquim” (Jr 25.1; 36.1;
45.1; 46.2). O quarto ano deste rei ocorreu em 606 a.C. Esta é uma das datas
mais importantes registradas na Bíblia, visto que marca o começo do cativeiro
da Babilônia.
Jeremias profetizou que os exércitos da Babilônia então em
marcha, seriam vitoriosos sobre todos os seus adversários e levariam cativos os
judeus para Babilônia, para lá ficarem durante 70 anos (Jr 25).
Em 606 a.C., Babilônia atacou Judá e facilmente subjulgou
(Jr 46.2). Para assegurar a lealdade do rei Jeoaquim, Nabucodonosor levou como
refém, um grande número de jovens das famílias mais destacadas. No ano seguinte
(605 a.C), Babilônia derrotou o Egito na famosa batalha de Carquêmis (fronteira
entre a Turquia e a Síria), tornando-se mais fácil manter o jugo opressor sobre
Judá.
Com o horror e a tristeza da primeira deportação ainda
vívida na mente do povo, Jeremias achou que seria hora oportuna de falar-lhe
sobre arrependimento. O profeta decidiu que a melhor hora para apresentar esta
mensagem ao povo seria num dia de jejum que tinha sido proclamado. Um dos
oficiais do rei, ao ouvir a mensagem, ficou tão impressionado que pediu para
Baruque lê-la de novo em reunião particular com outros oficiais. Depois desta
segunda leitura, foi decidido que o rei teria que ouvir esta mensagem divina.
Quando encontraram o rei Jeoaquim, ele estava na sua casa de
inverno, esquentando-se diante de um braseiro aceso. O rei escutou a leitura de
somente algumas páginas da mensagem, antes de ficar dominado pelo ódio e cortar
a mensagem em pequenos pedaços com um canivete de escrivão (Jr 36.23). Ele
jogou os pedaços no fogo que estava no braseiro e ordenou que prendessem
Jeremias e Baruque. Todavia, Deus não permitiu e ninguém conseguia encontrar
Jeremias ou Baruque, pois “o Senhor os
havia escondido” (Jr 36.26).
Como o exílio de 606 a.C., não refreou em quase nada os
pecados de Judá, Deus lançou mão de outra deportação para chamar a atenção do
Seu povo. Os capítulos 13 a 17 do livro de Jeremias falam como Deus procurou
chamar Seu povo ao arrependimento, com sermões persuasivos e a provocação de
uma seca, o que foi em vão.
Concluindo que concessão da misericórdia em nada adiantava,
Deus declarou que iria punir Judá mais uma vez e determinou a Jeremias que não
orasse mais, porque não adiantaria (Jr 11.14).
A fim de ilustrar a seriedade dos pecados de Judá, Jeremias
foi instruído a comprar e colocar um cinto de linho sobre os lombos. Depois, o
Senhor ordenou-lhe a levar o cinto ao Eufrates (na Babilônia) e escondê-lo na
fenda de uma rocha. Passados muitos dias, quando quis recuperá-lo, o cinto
estava sujo, podre e sem valor algum (13.6-7). Esta experiência serviu como uma
ilustração para mostrar como Judá, simbolizado pelo lindo cinto, tinha se
corrompido.
Embora Judá, como nação, estivesse condenada ao julgamento,
Deus aceitaria com alegria o arrependimento de qualquer indivíduo judeu que
quisesse confiar nEle para sua salvação. Este é um tema importante no Livro de
Jeremias, que enfatiza constantemente a responsabilidade individual pelo pecado
pela salvação.
A segunda deportação (Jr 18-20) aconteceu oito anos após a
primeira. Jeoaquim rebelou-se não só contra Deus, mas também contra
Nabucodonosor. Pensou que se deixasse de pagar tributos à Babilônia não seria
punido. Esta estratégia funcionou alguns anos, mas, em 598 a.C., Nabucodonosor
voltou a punir Judá. Assim, teve lugar a segunda deportação.
Próximo à época do cerco a Jerusalém, em 598 a.C., Deus
ordenou a Jeremias para ir à casa do oleiro onde Ele entregaria uma mensagem
para Judá, representada por um vaso de barro. O relacionamento de Deus com Judá
foi comparado ao relacionamento do oleiro com o barro. Enquanto lhe dava forma,
o vaso de barro estragou-se nas mãos do oleiro, que amassou o barro de novo e
refez o vaso como bem lhe pareceu. Do mesmo modo, Deus encontrou Sua obra de
arte (Judá) deformada pelo pecado e, sendo moldada por Suas mãos, Ele poderia
mudá-la de acordo com Seus planos de justiça e paz.
No versículo 10 do capítulo 18, temos uma afirmação de que
Deus poderia “se arrepender”. Isto não tem o sentido de culpa ou erro da parte
de Deus. Ao contrário, a palavra significa literalmente uma mudança da Sua
parte nos atos decretados, por causa de mudança espiritual entre os homens, no
seu modo de viver e agir.
Conforme Jeremias esclarece, Judá se recusara a submeter-se
à mudança de vida que Deus exigia. Neste exemplo, Judá é descrito como um vaso
que, ao ser moldado, endureceu-se de forma distorcida e inútil. Jeremias tomou
o vaso deformado e o quebrou no “vale do
filho de Hinom” (Jr 19.1-6).
Ao contemplar o sermão do vaso quebrado, Jeremias subiu do
vale para a entrada do templo, onde recomeçou a pregar. Sua mensagem, como de
costume, ofendeu o povo. Como estava proibido de pregar no templo, Pasur, que
era o oficial na Casa do Senhor, mandou açoitá-lo e prendê-lo no tronco.
Jeremias foi solto no dia seguinte, arrasado em seu espírito e decidido a não
mais proclamar o nome de Deus e a Sua Palavra. Entretanto, sua chamada era real
e a Palavra de Deus foi como força viva na sua alma. Assim, logo ele voltou a
pregar a mensagem de Deus (Jr 20.9).
Logo após a entrega dessas mensagens, Jerusalém foi sitiada
e dominada pelo exército da Babilônia por mais de um ano. O perverso rei
Jeoaquim morreu e seu corpo foi lançado fora do portão da cidade sem um funeral
decente, como se fosse a carcaça de um jumento (Jr 22.19).
Este segundo grupo de cativos era composto por líderes do
povo, os melhores soldados e os exímios artesãos (2Rs 24.14). Pasur, o oficial
do templo que prendera Jeremias, também estava nesse grupo (Jr 20.6). Jeremias
tentou explicar ao povo que o domínio babilônico fazia parte do plano de Deus
para erradicar da terra a idolatria.
O novo rei de Judá, Zedequias, era um homem fraco, que temia
o futuro julgamento de Deus, mas que tinha medo de perder sua popularidade. Ele
foi o último rei de Judá.
Logo depois que assumiu o trono, Deus mandou Jeremias ir ter
com o rei Zedequias, com instruções a respeito de como ele deveria governar
Judá. Zedequias deveria ser um rei justo, submetendo-se voluntariamente às
autoridade babilônicas. Se não obedecesse a Deus a esse respeito, a última fase
do julgamento viria sobre Jerusalém.
Infelizmente, o novo rei e seus conselheiros espirituais não
fizeram caso dos avisos de Jeremias. Eles se tornaram iguais a “pastores” que
não se preocupam com o bem-estar do rebanho. Como resultado, Deus disse que o
rebanho seria espalhado pelo mundo, até o tempo em que o “verdadeiro pastor” o
reunisse novamente. Esse rei-pastor seria da linhagem de Davi e seria chamado:
“Senhor, Justiça Nossa! (Jr 23.5-6).
Nos capítulos 27 e 28, para ilustrar a vontade de Deus para
com Judá, Jeremias apareceu em público usando em seu pescoço um jugo leve, de
madeira. Ele queria enfatizar a importância da submissão e castigo de Deus e
para avisar aos emissários sobre o desastre iminente.
Hananias, um dos falsos profetas, dramaticamente quebrou o
jugo de Jeremias e predisse que a Babilônia seria vencida em dois anos e que
libertaria todos os cativos para voltarem a Judá. Podemos imaginar que a multidão
aplaudiu Hananias e ridicularizou Jeremias e sua mensagem.
Logo em seguida, Jeremias profetizou que, por ter rejeitado
o jugo leve, o povo iria ter o jugo pesado, de ferro. Hananias foi sentenciado
ao julgamento divino por pregar falsas mensagens e morreu no mesmo ano (Jr
28.16,17).
Deus colocou um peso no coração de Jeremias para que
escrevesse uma carta aos cativos, avisando-os para que não fossem enganados por
falsas esperanças. Informou que o cativeiro ainda duraria muito tempo; por
isso, eles deveriam se casar, construir casas e se tornarem bons cidadãos em
sua nova terra (Jr 29). Jeremias sabia que a única solução para a crise era a
submissão. As pessoas teriam que tomar a decisão de se submeter a Deus ou de
ser destruído.
3.2. A queda de Jerusalém (30-51)
Seguro de que receberia ajuda do Egito e de outros aliados,
Zedequias se rebelou contra Babilônia. Porém, quando esta lançou seu ataque, os
aliados do Egito ainda não tinham chegado e o exército judeu foi totalmente
derrotado.
No capítulo 30, vemos que Deus usa o sofrimento dos tempos
de Jeremias como um exemplo para descrever o que será o período da Grande
Tribulação, também chamado de “o tempo de angustia para Jacó”.
O capítulo 31 do Livro de Jeremias mostra o lindo quadro da
restauração de Israel durante o Milênio. Israel é comparado a um rebanho de
carneiros espalhados que são reunidos de novo pelo pastor e mantidos sob seu
cuidado.
O impasse criado pela Antiga Aliança em virtude da
desobediência humana, só poderia ser superado se a pena da desobediência fosse
paga de uma vez por todas. O perdão de Deus se baseia na Nova Aliança ou Novo
Testamento. Jeremias explicou que a Nova Aliança a ser estabelecida não se
limitaria a Israel como nação simplesmente, mas visaria a alcançar cada
indivíduo. Além disso, a Nova aliança seria caracterizada por uma mudança de
coração (Jr 31.31-38).
À certa altura do sítio a Jerusalém, o Egito finalmente
enviou seus exércitos em socorro daquela cidade (Jr 37.5). A fim de enfrentar
esta nova ameaça, os babilônicos tiveram que suspender o cerco temporariamente.
Naturalmente eufórico por causa da retirada dos inimigos, Judá equivocou-se,
pensando que o longo conflito tinha chegado ao fim e que Jeremias profetizara
falsamente.
Com o término do sítio, a reputação de Jeremias estava quase
que reduzida à de um falso profeta, o que o deixou em situação muito delicada.
Açoitado e jogado num cárcere, suas condições eram tais que ele achava que
seria morto (Jr 37.20). Vale ressaltar que, por tanto sofrer no ministério e
pelo juízo de Deus, Jeremias foi instruído a não se casar (Jr 16.1-4).
Por saber que Jeremias era profeta de Deus, Zedequias não
quis ordenar sua morte, nem tampouco quis se arriscar a ofender seus oficiais.
Como Pilatos, o rei recusou-se a tomar decisão, mas não hesitou em dar aos
acusadores de Jeremias a liberdade de fazerem com ele o que bem entendessem
(38.5). Os oficiais foram diretamente para o átrio da guarda, na prisão, e
jogaram Jeremias numa cisterna cheia de lama para morrer ali.
O profeta teria morrido no fundo da cisterna se não fosse a
coragem e a fé de Ebede-Meleque, um etíope africano, servo do rei. Este homem
teve a coragem de falar com o rei em favor da vida de Jeremias. Mais uma vez o
rei facilmente concordou. Ebede-Meleque libertou o profeta com a ajuda de 30
homens.
Nos últimos dias antes da rendição de Jerusalém, Jeremias
recebeu uma estranha ordem do Senhor. Ele deveria comprar um campo e guardar as
duas cópias da escritura num vaso de barro. Deus explicou que um dia Ele destruiria
Babilônia e naquele dia a terra seria devolvida ao povo de Israel. Esta
escritura selada talvez explique a linguagem figurada do documento selado
mencionado no livro de Apocalipse. Deus já nos deu uma cópia aberta, ou seja, a
Bíblia, do Seu título de posse da terra. Tudo que falta é Ele vir e aprisionar
o usurpador (Satã) e reaver o título de posse da terra, que é Seu, por direito.
Um pouco antes de Jerusalém cair, Jeremias recebeu de Deus
uma mensagem sobre o futuro da Babilônia. Os capítulos 50 e 51 falam que
Babilônia seria exaltada por algum tempo e que teria liberdade para perseguir o
povo de Deus, mas que, um dia, ela seria destruída e o povo de Deus ficaria
livre deste opressor estrangeiro.
Depois de viverem 18 meses cercados pelo inimigo, os habitantes
de Jerusalém chegaram ao estado de antropofagia (canibalismo). Quase um terço
da população morreu de fome e doenças. Mas o que é ainda mais difícil de
entender é como o povo continuava a ignorar as mensagens de Jeremias e se
recusavam a voltar para Deus.
Quando o inimigo finalmente abriu brecha no principal muro
de Jerusalém, Zedequias entendeu que já não restava mais esperança para a
cidade. Agindo como um covarde, fugiu com seu exército durante a noite para
escapar com vida. Apesar disso, o rei não se saiu melhor do que seus infelizes
súditos: foi capturado e seus filhos e oficiais foram mortos diante de seus
olhos. Depois, teve seus olhos vazados e foi levado à Babilônia, onde morreu na
cela de uma prisão.
Para se assegurar de que a cidade nunca mais seria usada
como fortaleza, Nabucodonosor destruiu o templo, por ter sido um símbolo da
resistência judaica.
Os capítulos 40 a 44 narram sobre os restantes que ficaram.
Uma posição de honra foi oferecida a Jeremias em Babilônia, mas ele recusou; e,
vez disso, escolheu permanecer com os poucos restantes do povo em Judá,
ministrando entre esse grupo até a sua morte. Segundo a tradição, Jeremias foi
morto por apedrejamento a fim de calar a sua voz e evitar a culpa que sentiam
por seus pecados quando ouviam as repreensões.
4. Lamentações de Jeremias: o livro das
lágrimas
O Livro de Lamentações de Jeremias é um poema escrito pelo
profeta logo depois da destruição de Jerusalém. A Tradição nos diz que o livro
foi escrito numa caverna, ao pé de um pequeno monte chamado “Gólgota”, situado
ao norte de Jerusalém. É interessante que nesse mesmo lugar onde Jeremias
possivelmente chorou pelos pecados do povo, Cristo mais tarde morreria pela
humanidade.
O livro está organizado como um acróstico alfabético,
formado pelas 22 letras do alfabeto hebraico. Embora seja pouco conhecido entre
os cristãos, o Livro de Lamentações é muito popular entre os judeus. Faz parte
de um conjunto de cinco livros conhecidos como os “Escritos”, os quais são
lidos em duas espécies de festa e de jejum. Lamentações é lido num determinado
dia de jejum, em meados do mês de julho, para relembrar a destruição do templo.
A mensagem do livro de Lamentações tem um lado negativo e um
lado positivo. O negativo é o relato das mágoas do profeta. O positivo é a
firme esperança despertada nos judeus para reconhecerem seus pecados, voltarem
para Deus e serem restaurados.
O primeiro capítulo é uma acusação contra Jerusalém que
pecou contra Deus. No capítulo 2, Jeremias revela que Jerusalém fora destruída
não por um inimigo, mas sim por Deus, que usou os babilônicos como uma vara de
castigar e corrigir Seus filhos obstinados.
A parte central do livro de Lamentações contém uma mensagem
de esperança e está contida no capítulo 3. Apesar dos pecados e castigo, Deus
ainda amava Judá.
No quarto capítulo, Jeremias estabelece um contraste bem
definido na vida dos judeus, entre o antes e o depois de se rebelarem contra
Deus. Já o último capítulo registra uma oração. O livro inteiro é um apelo ao
povo para que se aproxime de Deus. Tendo apresentado o pecado da nação, o seu
castigo, a esperança do futuro e a gloria do passado em comparação com o horror
do presente, Jeremias agora pede ao povo que ore a Deus, compungido. A oração
confessa a culpa do povo e suplica a Deus que o restaure a Ele.
Convertei-nos a ti, Senhor, e seremos
convertidos; renova os nossos dias como dantes. (Lm 5.21)
5. Ezequiel: o homem e sua mensagem
Ezequiel era de família sacerdotal, filho de
Buzi, o sacerdote. Ele mesmo foi sacerdote. Os sacerdotes iniciavam seu serviço
no templo aos trinta anos. Mas, no ano em que Ezequiel fez trinta anos ele se
encontrava no cativeiro babilônico (1.1), a cerca de 1100 quilômetros distante
do templo de Jerusalém. O profeta viveu entre os exilados, sua profecia foi formulada
em meio às pessoas deportadas para as terras estranhas da Babilônia.
Ezequiel era um homem de amplos
conhecimentos, não somente das tradições de sua nação, mas também de assuntos
internacionais e da história. Sua familiaridade com tópicos gerais de cultura,
desde a construção de navios até a literatura, é igualmente espantosa. Era
dotado de grande intelecto e tinha capacidade de compreender questões de amplo
alcance. Seu estilo é impessoal, mas em alguns trechos é apaixonante e bastante
transparente.
Na sua segunda vinda a Jerusalém (598-597),
Nabucodonosor deportou para a Babilônia, o rei Joaquim e a família real, junto
com outros dez mil membros da elite (2 Reis 24.12-14). Ezequiel estava entre
eles. Era contemporâneo do profeta Jeremias, porém, mais jovem. Enquanto
Jeremias profetizava em Jerusalém, Ezequiel anunciava a Palavra do Senhor aos
que estavam cativos na Babilônia, junto ao rio Quebar. Era conhecido de Daniel,
não sabemos se mantinha relações mais próximas com ele (14.20; 28.3). Ezequiel
era casado, mas, sua esposa morreu durante o cativeiro (24.15-18).
Se o profeta tinha trinta anos quando
começou seu ministério (1.1), e essa data corresponde ao quinto ano de exílio
do rei Joaquim (1.2-3), então Ezequiel tinha por volta de vinte e seis anos
quando foi levado cativo. A última data registrada no livro (26 de abril de 571
a.C., em 29.17) demonstra que o ministério de Ezequiel compreendeu pelo menos
vinte e três anos. As circunstâncias de sua morte são desconhecidas. Pouco se
sabe de sua vida antes do chamado para o ministério profético. Seu nome
significa “Deus fortalece”, o que lembra sua obra de conforto e incentivo aos
exilados.
Como Ezequiel contém mais datas que
qualquer outro livro profético do Antigo Testamento, suas profecias podem ser
datadas com considerável precisão. Doze das treze datas especificam ocasiões em
que Ezequiel recebeu uma mensagem divina. A outra é a data da chegada do
mensageiro que relatou a queda de Jerusalém (33.21).
Tendo recebido o chamado de Deus em
julho de 593 a.C., Ezequiel continuou no exercício da vocação por 22 anos,
sendo o último oráculo recebido em abril de 571 a.C. (29.17). Se o trigésimo
ano citado no capítulo 1 e versículo 1 refere-se à idade de Ezequiel por
ocasião do chamado, sua carreira profética excedeu em dois anos o período
normal de serviço sacerdotal (Nm 4.3). Seu período de atividade coincide com o
momento tenebroso de Jerusalém e antecede em 7 anos a sua destruição, em 586
a.C., continuando por mais 15 anos após essa data.
A profecia de Ezequiel é marcada por visões e
ações simbólicas. Já se pode observá-las nos primeiros capítulos. Neles
predominam a visão vocacional (caps 1 a 3) e algumas ações simbólicas. Numa
delas o profeta come um rolo (livro) (caps 2 e 3), noutra realiza simbolicamente
o cerco de Jerusalém (caps 4 e 5). Visões e ações simbólicas similares se
repetem em passagens subsequentes. Até mesmo a morte da mulher de Ezequiel
transforma-se em um gesto simbólico (caps 24 e 33). Enfim, a linguagem
simbólica marca amplamente o estilo deste profeta.
A mensagem profética e estrutura literária de
Ezequiel estão intimamente ligadas. A mensagem de três partes do livro é na
verdade, uma teodiceia (defesa
ou interpretação do julgamento de Deus a Judá e a destruição resultante),
e ela corresponde às três dimensões ou fases do ministério de Ezequiel aos
exilados. Os capítulos de 1 a 24 antecedem a queda de Jerusalém e são dirigidas
à casa rebelde de Judá. O propósito da comissão divina de Ezequiel era trazer a
nação de Israel advertências da parte de Deus, sobre o julgamento iminente
(2.3-8), deixar bem claro a responsabilidade de cada geração pelos seus pecados
(18.20) e convidar aos que tivessem quebrantamento de coração ao
arrependimento, com o conselho: “Arrependam-se
e vivam” (18.21-23,32).
Após a destruição de Jerusalém em 587 a.C.,
Ezequiel voltou sua atenção às nações vizinhas de Israel que participaram do
“dia da angústia de Jacó” (caps. 25 a 32) e se alegraram com ele. Mas, a sua
arrogância não contaria com a isenção do juízo divino, elas também foram
advertidas de que Deus planejara visitá-las com ira e vingança por seus delitos
(25.1-11). Nesta fase do ministério de Ezequiel, estava implícito para Israel
que o Senhor Deus realmente era justo em seu governo soberano das nações (28.24-26).
A parte final do livro promete a renovação da
aliança e a restauração da monarquia davídica em Israel (33 a 48). Aliás,
quando o capitulo 37 se refere às tribos, fala justamente da união dos
divididos Judá e Israel em torno do descendente de Davi. Mas o novo tempo
davídico não será a repetição do velho. Este Davi estará destinado apascentar o
rebanho seguindo as pisadas de Javé, que busca a ovelha desgarrada e
machucada (34.16). O novo Davi será justo e dedicado aos pobres. A esperança
messiânica de Ezequiel está de acordo com a dos grandes profetas de séculos
anteriores, que haviam prenunciado a vinda do Messias (Is 9.6-7), nascido na
pequena Belém (Ml 5).
Os capítulos 40 a 48 trazem detalhes do
projeto do novo templo em Jerusalém, cidade com a qual Deus mantém uma aliança
eterna (16.60). Este projeto do templo é uma das visões mais estupendas do
livro. Não só delineiam uma espécie de maquete do santuário, mostra que o Novo
templo estará sob o controle dos sacerdotes, não de governantes.
Os profetas do Antigo Testamento pressupõem e
ensinam a soberania de Deus sobre toda a criação, sobre todos os povos e
nações, bem sobre o desenvolvimento da história. Em nenhum outro livro da
Bíblia a soberania e o controle de Deus são expressos de modo mais claro e
abrangente do que no Livro de Ezequiel. Desde o primeiro capítulo, que relata
com realismo a invasão avassaladora da presença de Deus no mundo de Ezequiel,
até a última expressão da visão do profeta “O
Senhor está aqui”, o livro faz soar a soberania de Deus.
A soberania absoluta de Deus também se
evidencia em sua mobilidade. Ele não está limitado ao Templo em Jerusalém, pode
abandonar o santuário em Jerusalém, para reagir contra o pecado do povo, como
também por sua imensa graça e misericórdia visitar seus filhos no exílio da
Babilônia. Deus tem liberdade para condenar e também para perdoar. Seus juízos
severos contra Israel refletem em uma análise mais profunda a demonstração de
sua graça. Deus é santo. O pecado é uma afronta a sua santidade e deve ser julgado.
Israel é uma nação rebelde, porém o exílio tem o propósito de produzir uma
nação purificada, um remanescente disposto a viver em obediência a Deus (6.8;
9.8; 11.12-13; 12.16).
O exílio tinha acontecido, em parte, como
resultado da culpa acumulada por gerações de israelitas que tinham se rebelado
contra Deus e sua lei. Mesmo que a culpa tenha sempre uma dimensão de um todo,
ou seja, toda a nação, Ezequiel enfatizou as consequências individuais da
desobediência e da transgressão (18.1-32; 33 1-20).
5.1. A Visão das Rodas
As visões arrebatadoras de Ezequiel foram
essências para a mensagem geral do livro por dois motivos: Em primeiro lugar,
ela reforçavam a veracidade do conhecimento do profeta sobre o papel divino na
queda de Judá e a destruição de Jerusalém. A ênfase escatológica predominante
nas visões do profeta mostrou aos exilados que as promessas de Javé ainda eram
válidas, os ossos secos poderiam ganhar vida e voltarem a se reunir.
Em segundo lugar, as visões de Ezequiel foram
meios não convencionais de transmitir o conhecimento de Deus aos exilados. Sua
visão de rodas é especial por aparecer três vezes no texto, ao contrário do
chamado de Ezequiel (1 a 3), do julgamento de Jerusalém (10) e da restauração
de Israel (43 a 46).
Os detalhes desta visão estranha e complexa,
com suas criaturas bizarras e seus dispositivos fantásticos, desafiam qualquer
explicação. Todavia, a intenção básica da visão é inconfundível. O Deus de
Ezequiel e dos hebreus vive e reina nos céus, majestoso em sua diversidade
transcendente. Ele exerce controle absoluto sobre toda a criação, mesmo os
israelitas cativos na Babilônia. O próprio Senhor está numa carruagem
magnífica, possibilitando seu movimento e representando sua presença em
qualquer direção. Além disso, seus olhos veem tudo e por isso, ele certamente
agirá a favor do seu povo no tempo certo.
5.2.
Filho do Homem
O Senhor chamou Ezequiel pelo título de
“Filho do Homem” cerca de 90 vezes no livro. Só há uma ocorrência da expressão
em outro livro do Antigo Testamento, que é em Daniel 8.17. Empregada para
enfatizar a humanidade do mensageiro comparado a origem divina da mensagem. A
expressão também revela a natureza simbólica da vida e do ministério de
Ezequiel, tanto para os hebreus exilados quanto para os que permaneceram em
Jerusalém. Ezequiel fez o papel de servo totalmente engajado no propósito de
Deus, deixando sua vida servir de ilustração viva da casa rebelde de Israel.
5.3.
Profetizando fora de Israel
Ezequiel foi feito profeta entre exilados.
Ele é o primeiro a profetizar fora da terra de Israel. Isto significa uma
ruptura decisiva na história da profecia bíblica: alguém se apresentar como
profeta longe da terra santa. E este justamente vem do grupo dos sacerdotes,
aqueles que mais expressamente aproximavam e identificavam a ação de Javé em
profecias com a terra da promessa. Costumavam celebrar as ações salvíficas de
Deus apenas em relação a Israel. Havia tendência em restringir as ações de Javé
ao tamanho dos limites de Israel. Os mais exaltados até mesmo tendiam a ligar a
presença de Deus apenas ao templo, templo de Jerusalém. Este lugar era tido
como morada de Javé. Quem quisesse prestar culto ao Senhor, deveria peregrinar
até Sião. Ali estava como que sediada a divindade.
Outros profetas se preocuparam em grande
parte com a idolatria de Israel, com degradação moral, com as intrigas e
alianças com povos estrangeiros para se proteger, deixando de confiar no
Senhor. Proclamam o juízo divino, mas também falam da restauração e redenção
futura.
O vasto alcance da mensagem de Ezequiel tem
semelhança com tudo isso, a grande diferença é que ele foca Israel de modo
incomparável como povo santo. Israel, ao contaminar o culto que prestava ao
Senhor Jeová, tornara-se impuro e contaminara o templo, a cidade, o país
inteiro. Diante dessa contaminação, Deus teria de retirar sua presença e
castigar o povo com destruição.
Mas a fidelidade de Deus para com a aliança e
seu desejo de salvar eram tão grandes, que Ele avivaria de novo o seu povo,
seria o Bom Pastor. Compassivo com as suas ovelhas, purificando suas impurezas
e os recolocando de volta ao lugar de onde nunca deveriam ter saído se tivessem
se mantido fiel ao Senhor.
5.4. Organização
As revelações proféticas de Deus através de
Ezequiel foram transmitidas aos hebreus oralmente e, ao que tudo indica
registrada em data posterior, conforme comprovam expressões como “diga-lhes”
(14.4), “conte uma
parábola” (17.2-3), “pregue”
(20.46) e muitas outras citações. A falta de ordem cronológica rígida da
literatura pode ser evidencia da compilação dos oráculos por Ezequiel, já que é
provável que se fosse outro a organizar, teria se preocupado com a sequencia
exata do material, já que existem datas no texto que poderiam ser seguidas.
Nenhum outro livro profético contém tantas
informações cronológicas como Ezequiel. O profeta era consciente da importância
de sua mensagem para aquele momento histórico. A cronologia da segunda metade
do primeiro milênio a.C., incluindo o período de Ezequiel é conhecida através
dos registros cronológicos da Bíblia e de outros documentos, em diversas
línguas, provenientes do antigo Oriente Próximo. Observações astronômicas
registradas por antigos escribas permitem relacionar os calendários antigo e
moderno com um alto grau de confiabilidade. Ezequiel contém indicações de data
em diversas passagens (1.1-2; 8.1; 20.1; 24). Estas datas situam-se no período entre
593 a 573 a.C.
A estrutura geral dos oráculos de Ezequiel
contribui para o propósito básico da mensagem do profeta, isto é a soberania de
Deus. Os oráculos dos capítulos 1 a 24, contra Jerusalém enfatizam o
ensinamento de Ezequiel a respeito da soberania de Jeová sobre Israel, chamando
a atenção para o juízo que viria por causa da desobediência a aliança com o
Senhor.
5.5.
Conclusão
Ezequiel é o único livro profético
inteiramente autobiográfico. Ele foi escrito na primeira pessoa a partir da
perspectiva do próprio profeta. Se comparado com outros livros proféticos,
Ezequiel apresenta um número maior de ações simbólicas (3.22-26; 4.1-14;
12.10-20; 21.6-, 18-24; 24.15-24; 37.15-28). O profeta se identificava com sua
mensagem: ele sofreu no próprio corpo as consequências de representar Deus
diante do seu povo, e de representar a nação sob o julgamento de Deus. Ezequiel
faz uso de muitas parábolas (12.21-22; 16.44; 18.2-3).
Nota: hoje não
existe mais ministério profético, mas existe o dom de profecia.
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