quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

PROFETAS MAIORES

1.    Introdução
Neste estudo estudaremos os escritos de três grandes profetas: Isaías, o profeta das promessas; Jeremias, o profeta da coragem e; Ezequiel, o profeta das visões.
As profecias transmitidas por estes homens de Deus não somente formam a base de muitas doutrinas do Novo Testamento, tal como Salvação, Cristologia e Escatologia, mas também proporcionam uma abundância de verdades espirituais, relevantes à nossa geração da atualidade.
As mensagens dos três profetas são apresentadas em duas partes: a primeira, advertindo sobre o julgamento do pecado, e a segunda avivando a esperança e encorajando os corações arrependidos.
17 livros do Antigo Testamento, de Isaías a Malaquias, são classificados como proféticos e divididos em PROFETAS MAIORES (Isaías, Jeremias Lamentações, Ezequiel e Daniel) e PROFETAS MENORES (Obadias, Joel, Jonas, Oseias, Amós, Miqueias, Naum, Habacuque, Sofonias, Ageu, Zacarias e Malaquias).
A distinção entre profetas “maiores” e “menores” consiste, não em que uns sejam maiores ou menores que os outros, mas em que uns proferiram maior ou menor número de profecias que outros.
Devido o caráter escatológico do livro de Daniel, ele será estudado em conjunto com o Livro de Apocalipse, em matéria à parte.
A palavra mais comumente usada no Antigo Testamento para profeta é nabi, que se refere a porta-voz ou arauto. Estes, ocasionalmente predizem o futuro. Certos profetas, como Abraão (Gn 20.7), não predisseram futuro algum. Desta maneira, levemos em consideração o termo profeta como designação do “mensageiro de Deus” e não alguém que meramente prediz o futuro.
Os profetas eram enviados por Deus para exortar, corrigir, alertar e trazer esperança, pois foram levantados em tempo de grande declínio espiritual, tensão e apostasia. Vale ressaltar que os profetas não aparecem na Bíblia na ordem cronológica em que profetizaram.
As três crises principais na qual os profetas foram levantados, podem ser melhor lembradas pelo acróstico A B C. A representando a crise da Assíria; B representando a crise da Babilônia e; C representando a época do Cativeiro.

2.    Isaías: o profeta das promessas
Chamado de “O Príncipe dos Profetas do Antigo Testamento”, o profeta Isaías foi, no Antigo Testamento, aquilo que Paulo foi no Novo Testamento. Sem dúvida, o Livro de Isaías é o livro profético mais significativo no Antigo Testamento. Contém tantos ensinos sobre Cristo e a salvação, que alguns pensadores da Igreja Primitiva achavam que o livro poderia ser chamado “O Quinto Evangelho”, em vez de livro profético.
Isaías era primo do rei Uzias e a Bíblia o descreve executando serviço oficial de historiógrafo do próprio Uzias e também de Ezequias (2Cr 26.22; 32.32). Certamente, Isaías era muito conhecido na corte e tinha fácil acesso aos reis e sacerdotes (Is 7.3; 38.1).
A família de Isaías enriqueceu muito seu ministério. Sua esposa era uma ‘profetisa’ e seus dois filhos foram, várias vezes, recursos visuais da sua mensagem.
Isaías, que abertamente repreendeu reis e multidões rebeldes, é conhecido como profeta corajoso. Ele falou ao rei Acaz que sua vida estava “fatigando” a Deus (Is 7.13) e admoestou o rei Ezequias a que pusesse a sua casa em ordem porque iria morrer (Is 38.1). Com esta mesma coragem, ele condenou multidões que realizavam cultos hipócritas (Is 1.13) e falou às filhas de Sião, dizendo-lhes que eram altivas e cheias de galanteios (Is 3.16,17).
Os primeiros 5 capítulos de Isaías foram escritos durante o reinado de Uzias. No capítulo 6, o rei Uzias morre leproso, em decorrência da sua transgressão contra Deus, por entrar no templo para queimar incenso no altar (2Cr 26.16-23).
O reinado de Uzias, que se estendeu por 52 anos, foi uma época de prosperidade e calma, pois ele serviu ao Senhor de todo o seu coração. Infelizmente, esta prosperidade levou o povo a uma atitude de autoconfiança e negligência diante de Deus. A fé não passava de mero formalismo e o sacerdócio também era corrupto e inapto.
Isaías 6.1 fala da morte de Uzias, o qual foi sucedido pelo filho Jotão, que tinha co-reinado ao lado de seu pai por 12 anos e, após sua morte, reinou mais 4 anos. Embora tivesse sido homem reto, a prática do mal corria pela nação de maneira muito degradante e estava muito generalizada para ser contida (2Cr 27.2).
Deus sabia que o coração do povo se endureceria à pregação da Sua Palavra e assim preparou o coração de Isaías para o fato de que a Sua mensagem teria pouca aceitação (Is 6.9-12).
Os capítulos 7 a 14 do Livro de Isaías foram escritos durante o reinado de Acaz. Durante os 16 anos deste reinado, a nação desceu a um nível espiritual tão degradante que se deu a todo tipo de pecado e de idolatria, culminando com sacrifícios humanos para deuses estranhos (2Cr 28.3).
Todas as profecias dos capítulos 15 a 39 de Isaías foram escritas durante o reinado de Ezequias, um dos mais devotados reis de Judá que, por crer na sua própria limitação, apelou por ajuda de Deus para solução de vários problemas e, em resposta, a nação experimentou um grande avivamento espiritual.
Embora o nome do rei Manassés não apareça no Livro de Isaías, acredita-se que ele reinava nos dias em que este profeta escreveu a última parte deste livro (cap. 40-66). As figuras de corrupção retratadas por Isaías, certamente não são descrições exatas do país durante o reinado de Ezequias, mas descrições precisas do estado durante o reinado do seu filho desviado Manassés, que dirigiu a nação envolvendo-a em profundo pecado (2Rs 21.11).
O Livro de Isaías tem sido chamado “A Bíblia dentro da Bíblia” por causa da semelhança entre seu conteúdo com o restante da Bíblia. Por exemplo, Isaías contem 66 capítulos, assim como a Bíblia tem 66 livros. Estes capítulos podem ser divididos em uma seção de 39 capítulos e uma segunda de 27 capítulos, assim como a Bíblia contém 39 livros no Antigo Testamento e 27 no Novo Testamento. Estas maiores divisões de Isaías se comparam à Bíblia em seu conteúdo. A primeira seção do Livro de Isaías dá ênfase à Lei, ao julgamento e ao Messias prometido. A segunda seção enfatiza a graça, redenção e o Messias presente.
O tema do Livro de Isaías é “O Senhor é Salvação”.

2.1.       Isaías: O Messias Prometido (1-12)
Como já observado, os cinco primeiros capítulos de Isaías foram escritos durante o reinado de Uzias e, neste tempo, Deus derramou Suas bênçãos sobre Judá, mas eles demonstraram ingratidão. Assim, no capítulo 1, há uma simulação de tribunal, onde o juiz é Deus, o júri é Judá e a acusação é a ingratidão.
Isaías disse que até o boi conhece o seu dono, e o jumento, o dono da sua manjedoura, contudo os judeus se recusavam a reconhecer o Pai Celestial.
Nesta altura do drama, Deus é retratado qual promotor público expondo os pecados de Judá. Nota-se, porém, que Deus não abandona o Seu povo. Ele procura persuadi-lo para que reconheça os seus erros. O Pai Celestial estava disposto a absolver o povo de qualquer culpa, caso se arrependesse de verdade.
A mensagem dos profetas do Antigo Testamento quanto ao futuro, é muitas vezes indefinida quanto ao tempo do seu cumprimento e quanto à ordem cronológica dos acontecimentos preditos. Numa visão de Isaías nos capítulos 2 a 5 temos exemplo disto. Nestes capítulos, o profeta condenou a hipocrisia daquele tempo; predisse a invasão dos inimigos de Judá num futuro imediato e também esboçou o plano de Deus a se cumprir num futuro muito distante. A ordem desses eventos foi lógica, mas não cronológica.
No capítulo 6 vemos que a morte do rei Uzias preocupou muito o profeta Isaias, pois a estrutura política e espiritual da nação seria influenciada. Turbado no seu espírito, Isaías foi ao templo para orar e receber conforto de Deus. Estando em meditação, ficou extasiado com a presença divina e teve uma visão do céu, onde viu o Rei dos reis assentado no Seu trono, refulgente de glória. Sem dúvida, esta experiência confirmou o ministério profético de Isaías, dando a ele a certeza de que a confiança deveria estar naquele que controla tudo e todos.
Tendo contemplado a plena glória de Cristo, humilhado, Isaías confessou ser indigno de adorar a Cristo, com lábios impuros. Para purificá-lo, um anjo tocou os seus lábios com uma brasa viva do altar.
Os capítulos 7 e 8 tem, em profunda importância, o título “Emanuel”, que significa “Deus Conosco”. Acaz, rei de Judá, foi avisado pelo profeta para não ir à Assíria pedir socorro militar, mas esse aviso do profeta foi menosprezado. Como resultado, Judá se tornou quase escravo da Assíria.
Foi no tempo da primeira invasão assíria que Deus, pela primeira vez, revelou ao profeta Isaías o fato de um libertador vindouro que seria chamado “Emanuel”.
O Emanuel foi apresentado no capítulo 7 e continua como o personagem principal até o fim do capítulo 12. O nono capítulo de Isaías prediz que o Emanuel ministrará, primeiramente na Galileia. Este território é altamente importante, pois, nessa localidade da Terra Santa, apareceu o Emanuel pela primeira vez como porta-voz do Pai.
Isaías 9.6-7 é um dos textos bíblicos mais importantes sobre a divindade de Cristo. Nessa passagem temos uma profecia de que o Cristo, uma vez encarnado e vindo ao mundo, teria quatro títulos que o distinguiria como ser divino:

1. Maravilhoso Conselheiro: Embora algumas versões da Bíblia dividam com uma vírgula esse título em dois, é bem claro no idioma hebraico que as duas palavras devem ser combinadas formando um só título. Isaías usou esse título para mostrar que a sabedoria de Cristo é sobrenatural.
2. Deus Forte: A mesma expressão é usada pelo próprio profeta Isaías quando fala de Jeová, usando a expressão “EL”, no singular, que é usada no Antigo Testamento unicamente para referir-se a Deus e a ninguém mais!
3. Pai da Eternidade: Quanto ao Seu amor paternal e o cuidado para com Seus filhos, Jesus é identificado como o Pai da Eternidade. Isto destaca Sua divindade, pelos conceitos pai e eterno.
4. Principe da Paz: A paz que vem por Cristo é uma paz sobrenatural. Na esfera espiritual, Ele promove a nossa paz interior, com Deus.

O trecho de Isaías 12.1-6 é conhecido como o “Cântico dos Redimidos”. Ele forma uma perfeita conclusão à seção do Livro de Isaías, conhecida como o “Livro do Emanuel”, pois trata do gozo dos redimidos.
O cântico alude primeiro à tristeza resultante do estado de afastamento de Deus. Depois, vem o regozijo porque a ira de Deus foi removida e veio a restauração normal da comunhão. Por isso, os redimidos podem saciar-se nas “fontes de salvação” (12.3) e proclamar ao mundo “os seus feitos” (12.4).
O brado de júbilo do último versículo deste cântico resume todos os seis capítulos que tratam do Emanuel, a saber, capítulos 7-12: “Exulta e jubila, ó habitante de Sião, porque grande é o Santo de Israel no meio de ti” (v.6).

2.2.       O Dia do Senhor (13-39)
Nos capítulos 13 a 23 do Livro do profeta Isaías, há várias profecias a respeito das nações envolvidas nas guerras assírias. O tema dessa seção é: “Confie em Deus para sua Libertação e Não em Aliança com Outras Nações”.
Esta seção do Livro de Isaías foi escrita durante um período histórico agitado e inseguro. Tendo derrotado a Síria e Israel, a Assíria obrigava as nações à sua volta a se tornarem seus vassalos. Em 715 a.C, as nações escravizadas resolveram se aliar, formando um só exército para tentarem sacudir o jugo da Assíria e Judá foi convidado a tomar parte da aliança, mas Deus usou o profeta Isaías para dizer Não e o rei Ezequias entendeu que era para confiar exclusivamente em Deus.
Isaías foi um grande profeta, focando profecias de futuro distante, profetizando contra muitas nações, como: Babilônia (13.1-14.23), Assíria (14.24-27), Filístia (14.28-32), Moabe (15-16), Síria (17), Etiópia (18), Egito (19-20), Edom (21.11-16), Jerusalém (22.2-11) e Tiro (23).
O capítulo 14 trata de sobre uma profecia referente à Babilônia denominada “Batalha das Estrelas”. Isaias revela que a verdadeira força que opera sob o poder político corrupto da Babilônia é Satanás. As manobras políticas não passavam de tentativas malignas para eliminar a linhagem de Davi, de onde viria o Messias. Profeticamente, Isaías expõe como foi que começou a renhida guerra espiritual num passado remotíssimo. Sem desligar-se totalmente da linguagem figurada referente ao rei babilônico, Isaias relata como foi que “a estrela da manhã” (Lúcifer) conspirou contra Deus (14.12). Essa guerra perdida nos séculos somente chegará ao fim quando o Diabo for totalmente dominado por outra estrela: a Estrela da Alva (2Pe 1.19).
Os capítulos 24 a 27 tem por tema, originalmente, “O Dia do Senhor”. Esse dia consiste em duas partes: A Grande Tribulação e o Reino Milenar de Jesus Cristo. No capítulo 24 temos sobre o julgamento universal, falando da grande tribulação; o capítulo 25 mostra a vitória sobre a morte através da ressurreição de Jesus; o capítulo 26 trata sobre a primeira ressurreição, através do evento do arrebatamento da Igreja e; o capítulo 27 trata sobre o final da Grande Tribulação e o Milênio.
Os capítulos 28-35 são chamados de “apelo” do Livro de Isaías. Esses apelos finais, dirigidos a Jerusalém, tinham como propósito dar à cidade uma oportunidade final de arrepender-se e voltar-se para Deus antes que lhes sobreviessem as hordas cruéis dos assírios. Todavia, mesmo enfrentando a ameaça de um juízo horrendo através do exército assírio, Jerusalém não estava confiando em um livramento divino, mas sim em seus próprios recursos, fazendo com que conseguisse uma “aliança com a morte”.
O Egito foi convidado pelo povo judaico para formar uma confederação para que, juntos, invadissem a Assíria. Deus se opôs a essa aliança por duas razões. Primeiro, o povo estava arriscando uma mudança nos seus princípios santos e, segundo, Deus mesmo permitiu as invasões da Assíria, para que o Seu povo fosse despertado a arrepender-se e a voltar-se ao Senhor, e não aos “estranhos”, à procura de socorro.
Deus ainda libertaria o povo se este voltasse a Ele e lançasse fora os ídolos. O povo deveria buscar a face de Deus com toda a sinceridade, por meio do arrependimento e não os deixariam morrer em terra estranha.
A primeira parte do livro de Isaías é marcada por crises assíria e pela ênfase na dependência de Deus para se obter a vitória e em não se confiar em alianças com nações pecaminosas. Os capítulos 36 a 39 destacam o princípio da fé. Mostram o galardão da fé de Ezequias retratado na derrota dos assírios.
A segunda parte ocupa-se do assunto do cativeiro babilônico. Os capítulos 38 e 39 introduzem esta seção, expondo o grave problema que começou com um simples ato de jactância da parte de Ezequias.
No capítulo 38 vemos que Ezequias ficou gravemente doente. O profeta Isaías foi chamado para orar por ele, chegando proferiu a surpreendente profecia: “Põe a tua casa em ordem, porque morrerás e não viverás” (38.1). Ainda que angustiado, a fé do rei não se abalou. Ele orou e implorou a Deus, que ouviu sua oração e logo a respondeu, lhe concedendo mais 15 anos de vida.
A fé fortalecida de Ezequias fez com ele confiasse em Deus; mas, logo ele veio a fracassar; não devido aos ataques inimigos, mas, por causa de uma simples amizade. Não foram as enfermidades, nem as guerras que o derrubaram, mas o orgulho motivado por uma amizade imprópria com os emissários babilônicos.

2.3.       Esperança para uma geração futura (40-48)
O livro de Isaías foi escrito em duas partes, sendo os capítulos 40 a 66 escritos 200 anos após o profeta, por um autor desconhecido. Todavia, por ser um livro inspirado pelo grande “Eu Sou”, as partes se completam e o torna um livro cheio de riquezas e detalhes que sobreviveu a muitas investidas de Satanás.
Esta segunda metade do Livro de Isaías foi dividida em 27 capítulos, mas, na realidade, foi escrita como um longo poema, divinamente inspirado, a respeito do plano da redenção. A revelação deste plano tem como fundo o povo que seria um dia liberto do cativeiro da Babilônia, o qual precisaria de muito encorajamento para regressar à terra de Israel. Isaías se preocupava com a libertação física deste cativeiro, porém, se preocupava ainda mais com a sua libertação do cativeiro espiritual.
No capítulo 40 do livro, Isaías recebe sua segunda comissão: pregar consolação e esperança à geração futura, demonstrando que Deus não estava morto e que Ele é maior do que qualquer crise, poder opressor ou deus estranho.
Mais adiante Isaías enfatiza a onisciência de Deus mediante uma convocação geral dEle a todas as ilhas e nações para uma “renúncia aos deuses”. Deus desafia todas as nações a comparecerem a uma conferência, apresentando cada uma o seu próprio deus, para determinar qual deles é o mais poderoso (Is 41.1,11,12). Neste julgamento, Deus desafia cada nação a apresentar uma profecia sobre o futuro, que prove a onisciência do seu próprio deus (v.23). Uma vez que não há resposta, Deus responde, falando novamente sobre Ciro, predizendo que ele virá do Oriente e entrará em Israel pelo Norte (v.25).
Nos capítulos 42 a 45, Isaías apresenta outro aspecto da grandeza de Deus: o Seu plano de redenção de Israel. A profecia do livramento de Israel prometia a sua redenção da escravidão sob a Babilônia. Este princípio da redenção de Israel apronta para a redenção divina aplicada a toda humanidade em todas as épocas. O título conferido a Deus nestes capítulos é: “O Redentor” (Is 43.14; 44.6,24).
Isaías 46.1-2 fornece uma descrição vivida dos sacerdotes babilônicos numa desesperada tentativa de escapar do exército de Ciro. Eles fugiram levando seus deuses amarrados sobre animais de carga. Em contraste, o Deus de Israel libertou o Seu povo do cativeiro e os “carregou” fielmente durante toda a sua vida.
No capítulo 47, Isaías compara Babilônia a uma mulher que, tendo vivido em pompa, pecado e orgulho, agora caiu daquela elevada posição. Assentada sobre o pó, ela agora tem que trabalhar como escrava (v.1-2). Esta profecia se cumpriu exatamente no dia 3 de novembro de 539 a.C., quando Ciro entrou na cidade e a conquistou em um só dia.
A queda da Babilônia deu oportunidade aos judeus para retornarem à terra de Judá e mais uma vez servirem a Deus em sua terra. O Senhor os admoestou a não seguirem o exemplo dos seus antepassados, que haviam sido rebeldes desde o nascimento da nação (Is 48.8). Até mesmo aquela nova geração tinha a tendência de adorar a Deus hipocritamente (48.1).

2.4.       O Messias Vindouro (49-66)
No capítulo 49 de Isaías, o Servo é apresentado. O título “Servo do Senhor” pode confundir o leitor, porque Isaías usa-o para se referir tanto à nação de Israel, como à Pessoa do Messias. Porém, as descrições do servo que temos no capítulo 49, somente podem se referir a Cristo e não à nação de Israel, pois este trecho fala do Servo como enviado para restaurar a nação a Deus (v.5). Embora aqui Ele seja chamado “Israel”, isto subentende um título figurativo, indicando que o “homem Israel” é um tipo de Cristo.
O esforço inicial do Servo para restaurar Israel a Deus, bem como a predição da rejeição desta tentativa, estão profetizados em Isaías 49.4. O cântico continua mostrando que a obra do Servo não será em vão, porque Ele será “... luz para os gentios...” (v.6) e, por fim, restaurará Israel a Deus, nos últimos tempos.
A segunda metade do capítulo 49 é um convite para aceitar o Servo do Senhor e ser salvo. Isaías se refere a este fato como o “dia da salvação”. Mais tarde o apóstolo Paulo cita este dia como já tendo chegado (2Co 6.2).
Em seguida à declaração sobre o dia da salvação, Isaías faz a todos um grande convite. Ele cita Deus dizendo o seguinte: “para dizeres aos presos: saí, e aos que estão em trevas: aparecei...” (v.9). A resposta positiva a este convite virá de todas as partes da terra.
O segundo cântico do Servo tem como prefácio uma parábola triste, na qual Israel é comparada a uma esposa infiel que deixou seu marido, endividou-se e depois foi vendida como escrava para pagar suas dívidas aos credores. Deus se declara capacitado para remir Seu povo (Is 50.2) e o preço da redenção será pago por Seu Servo.
Depois de apresentar o Servo que obedientemente sofrerá pelos pecados de Seu povo, Isaías prossegue insistindo para que este aceite a obra da salvação. As duas respostas possíveis a tal convite apresentam um contraste claro e definido. A palavra que mais parece caracterizar o apelo nos capítulos 51 e 52 é redenção.
O terceiro cântico do Servo (Is 52.13-52.12) é chamado o Grande Drama de Paixão, na Bíblia. Ele apresenta o Servo como cordeiro sacrificial, morrendo pelos nossos pecados. Este cântico está localizado bem no centro deste grande poema messiânico e termina com alguns dos mais expressivos convites à salvação, encontrados na Bíblia.
Os versículos 4 a 9 dão uma descrição da morte de Cristo sob as perspectivas teológica e histórica. Sob a perspectiva teológica, a morte de Cristo pelos pecados do mundo, foi o meio dEle efetuar a expiação vicária da alma perdida, para a cura do corpo, pelos pecados individuais e pelo pecado na sua origem.
Nos versículos 7 a 9, Isaías prediz os detalhes históricos do sofrimento e da morte de Cristo. A ressurreição de Cristo e o resultado da Sua morte vicária são descritos em Isaías 53.10-12.
Depois destas descrições da paixão de Cristo, Isaias faz muitos convites para a salvação. No capítulo 54, ele se dirige a Israel sob a figura de uma mulher estéril e a aconselha a ampliar a sua tenda porque “... transbordarás para direita e para a esquerda...” (v.3), com filhos. Isaías aqui se refere aos milhões de gentios que se tornariam uma parte do “Israel verdadeiro”. Paulo corrobora com este texto de Isaías em Gálatas 4.26-28.
No capítulo 57, Isaías fala à sua geração, advertindo sobre o perigo que correm aqueles que recusam aceitar o plano de Deus para a sua salvação. Se alguém rejeitar a Deus, diz Isaías, está recusando a Sua paz. Esta paz é gratuitamente concedida tanto aos judeus como aos gentios; mas, se permanecerem na sua rebelião pecaminosa, não terão direito a ela.
Nos capítulos 58 e 59, Deus usa Isaías para falar sobre a necessidade de um total arrependimento. Se a religião em si fosse suficiente para a salvação, Israel jamais teria precisado de um Salvador. Este povo em geral era muito religioso, mas raramente vivia de modo a agradar a Deus (58.1-7). Isaías conduz a nação a uma oração de confissão e arrependimento (59.9-16). Deus responde de uma maneira pessoal ao estender Seus braços através de Cristo, para salvá-la.
Isaías confirma, nos capítulos 60 a 62, que o verdadeiro arrependimento é seguido de bênçãos. O profeta declara, primeiramente, que a salvação traz consigo iluminação espiritual. Outras bênçãos que fluem de um verdadeiro arrependimento é a cura espiritual e o livramento do pecado, além do gozo espiritual (61.3), santificação (61.3), ministério (61.6) libertação da condenação (61.7) e uma herança eterna (61.7).
O propósito central dos capítulos 63 a 66 é o de levar o homem a tomar a decisão de aceitar ou rejeitar a salvação. No capítulo 63, Cristo vem como um vingador, o guerreiro e redentor justo. Em visão do julgamento futuro, Isaías orou para que o Redentor viesse sem demora. O capítulo 64 inicia com um pedido urgente para que Deus venha rapidamente do céu para julgar as nações. “Oh! Se fendesses os céus e descesses! ...de sorte que as nações tremessem da tua presença”.
Uma promessa preciosa para o crente, ligada a esta oração, está em Isaías 65.24. Esta promessa afirma que Deus supre as nossas necessidades antes mesmo que oremos e que nos responde enquanto ainda estamos orando. Deus responde a oração de Isaías explicando que Ele retarda o juízo devido ao Seu desejo ardente de ver o arrependimento e a volta do Seu povo rebelde. Deus descreve a Si mesmo como um pai, de braços estendidos para os seus filhos o dia todo, dizendo “eis-me aqui, eis-me aqui” (Is 65.1-3).
No capítulo 66, lemos que Deus requer que cada homem teme a decisão de viver para Deus. Há dois grupos de pessoas no mundo e cada pessoa tem que escolher um desses grupos. O primeiro grupo consiste do homem que está “aflito e abatido de espírito e... treme da minha palavra” (Is 66.2). Estes receberão as bênçãos de Deus aqui mencionadas, durante o glorioso reinado de Cristo. O segundo grupo consiste dos que “... escolheram os seus próprios caminhos...” (Is 66.3). Em razão de sua escolha pelo pecado, em lugar de servir a Deus, as pessoas sofrerão condenação.

3.    Jeremias: O profeta da coragem e das lamentações
Sabe-se mais a respeito da vida pessoal de Jeremias do que de qualquer outro profeta do Antigo Testamento, porque os dois livros que escreveu, Jeremias e Lamentações, além de proféticos, são autobiográficos. Neles se revela o perfil de um homem de caráter extremamente firme, mas de coração muito terno.
Jeremias nasceu de uma família de sacerdotes. Cresceu numa aldeia chamada Anatote, que ficava a poucos quilômetros ao nordeste de Jerusalém. Quando tinha vinte anos, recebeu a chamada profética. Seu ministério começou durante o avivamento dos dias do rei Josias e durou aproximadamente 40 anos (626-586 a.C.), abrangendo os reinados de Josias, seus três filhos e seu neto.
Devido à hipocrisia e à impiedade que prevaleciam naquela época, Jeremias foi instruído por Deus a pregar uma mensagem de repreensão e de julgamento iminente sobre a nação. Naturalmente, essa mensagem era desagradável ao povo e Jeremias foi, sem dúvida, o profeta mais odiado de Judá e o de menor sucesso, de acordo com os padrões humanos.
Um dos temas básicos de Jeremias é a sua declaração enfática de que o povo iria para o cativeiro, não porque Deus fosse fraco para protegê-lo, mas, sim, porque estava castigando seus pecados, sua rebeldia. Apesar disso, Deus ainda amava Seu povo e anelava restaurá-lo à comunhão com Ele.
Jeremias é um profeta cuja mensagem foi rejeitada pelo povo. Chamado por Deus para anunciar palavras de repreensão, castigo e destruição, ele foi odiado, surrado, preso e finalmente martirizado. Sua chamada ocorreu no 13º ano do reinado de Josias (627 a.C.), um ano depois do começo da grande reforma efetuada por este rei. Sem dúvida, Jeremias, auxiliado por Naum e Sofonias, desempenhou um papel muito influente na promoção dessa reforma. Mais tarde, quando os filhos de Josias, Jeoaquim e Zedequias instigaram o povo a pecar, ficou claro que os resultados dessa reforma tinham sido apenas temporários e muito superficiais.
Enquanto Isaías livremente se dispôs a ser profeta de Deus, Jeremias teve de ser despertado e encorajado a aceitar essa honra. Ele alegou que era ignorante e jovem demais para tão grande missão, mas Deus era sua força e o capacitaria para esta tarefa (Jr 1.6-10).
No momento da sua chamada, Jeremias teve duas visões. A primeira foi um ramo de amendoeira, árvore que florescia meses antes das demais, sendo por isso tida como um símbolo de prontidão e vigilância. A visão simboliza o fato de que Deus estava vigilante e que Seu tempo é perfeito, quanto ao Seu agir. A segunda visão foi a de uma panela fervendo e derramando o seu conteúdo para o lado do norte. Este símbolo refere-se à direção de onde viria a ira divina sobre Judá. Babilônia tomaria a antiga rota das caravanas, contornando a parte superior do deserto árabe e entraria pelo norte.
Associadas à chamada, Deus fez promessas a Jeremias (Jr 1.17-19). Em primeiro lugar, Deus prometeu força ao homem interior de Jeremias para suportar a rejeição e a oposição do povo. Ele permaneceria firme contra essa rejeição, como “cidade fortificada, coluna de ferro e muros de bronze”. Em segundo lugar, Deus prometeu que Sua presença nunca deixaria o profeta. Jeremias nunca estaria completamente só, pois Deus prometeu: “Pelejarão contra ti, mas não prevalecerão; porque eu sou contigo, diz o Senhor, para te livrar” (Jr 1.19).
O despertamento espiritual do tempo de Josias constitui o cenário dos capítulos 2 a 6 das profecias de Jeremias. Foi um cenário de aparente reavivamento, mas era um falso arrependimento, na qual Jeremias usou muitas ilustrações para descrever.
No capítulo 2, a imagem de Judá figurando a esposa de Deus é introduzida. Deus lamenta que essa esposa tenha esquecido o amor que na sua juventude tinha por Ele, que abandonou o lar e trocou Seu amor pelas cisternas rachadas, na busca pelos prazeres do mundo.
No capítulo 3.6-4.31, Judá, a esposa do Senhor, é agora descrita voltando para casa, arrependida de seus pecados. Entretanto, infelizmente ela não amava Seu marido o suficiente para desistir dos seus pecados. Seu arrependimento não significava genuína mudança de coração.
O capítulo 5 de Jeremias explica claramente que o falso arrependimento da esposa infiel é semelhante ao de Judá. O reavivamento dos dias de Josias parecia sincero, mas, no entanto, o povo não teve real mudança de coração. Deus desafiou Jeremias a sair às ruas de Jerusalém e encontrar um “judeu arrependido”, que provasse seu arrependimento genuíno com boas obras, servindo ao Senhor com alegria. Ao fazê-lo, Jeremias não encontrou ninguém.
No capítulo 6, Deus fala da teimosia de Judá, exortando a nação a escolher caminhar pela senda da justiça. Já o cenário dos capítulos 7 a 12 de Jeremias é o início do reinado de Jeoaquim, que começou a reinar quando Judá era um estado vassalo do Egito (609 a.C.). No período de apenas alguns anos, Judá foi atacado pela Babilônia (606 a.C.). Antes que o domínio babilônico acontecesse, Deus deu a Seu povo uma última oportunidade para se arrepender.
Em um dia especial de festa a nação apareceu no templo para orar para que Deus os libertasse da Babilônia. Os falsos profetas transmitiram ao povo apenas as palavras de encorajamento que ele queria ouvir, dizendo que enquanto o templo estivesse em pé, Deus não permitiria que a cidade fosse destruída (Jr 7.4,14). Mas Deus instruiu Jeremias a ir ao templo com uma mensagem completamente diferente. Ele deveria, em primeiro lugar, oferecer ao povo a oportunidade de ser salvo e de mudar a sua vida pervertida. Após, admoesta o povo, declarando que, se confiasse numa esperança falsa para salvá-lo, estaria condenado com toda a certeza.
Talvez os versículos mais tristes do Livro de Jeremias sejam os citados pelo profeta depois de ter, sem sucesso, tentado chamar o povo ao arrependimento. “Passou a sega, findou o verão, e nós não estamos salvo.” (8.20).

3.1.       A primeira e a segunda deportação de Judeus (13-29)
Foram três deportações de judeus para a Babilônia. A primeira envolveu os jovens sábios, com intuito de elevar a Babilônia. A segunda envolveu todos os moradores, com exceção dos pobres e deficientes. A terceira envolveu a queda e destruição do templo, bem como o roubo dos utensílios sagrados.
Embora o Livro de Jeremias não tenha sido escrito em ordem cronológica, o tempo de certos eventos é claramente assinalado no livro. Uma data muito importante, regularmente citada, é a que se refere ao “ano quarto de Jeoaquim” (Jr 25.1; 36.1; 45.1; 46.2). O quarto ano deste rei ocorreu em 606 a.C. Esta é uma das datas mais importantes registradas na Bíblia, visto que marca o começo do cativeiro da Babilônia.
Jeremias profetizou que os exércitos da Babilônia então em marcha, seriam vitoriosos sobre todos os seus adversários e levariam cativos os judeus para Babilônia, para lá ficarem durante 70 anos (Jr 25).
Em 606 a.C., Babilônia atacou Judá e facilmente subjulgou (Jr 46.2). Para assegurar a lealdade do rei Jeoaquim, Nabucodonosor levou como refém, um grande número de jovens das famílias mais destacadas. No ano seguinte (605 a.C), Babilônia derrotou o Egito na famosa batalha de Carquêmis (fronteira entre a Turquia e a Síria), tornando-se mais fácil manter o jugo opressor sobre Judá.
Com o horror e a tristeza da primeira deportação ainda vívida na mente do povo, Jeremias achou que seria hora oportuna de falar-lhe sobre arrependimento. O profeta decidiu que a melhor hora para apresentar esta mensagem ao povo seria num dia de jejum que tinha sido proclamado. Um dos oficiais do rei, ao ouvir a mensagem, ficou tão impressionado que pediu para Baruque lê-la de novo em reunião particular com outros oficiais. Depois desta segunda leitura, foi decidido que o rei teria que ouvir esta mensagem divina.
Quando encontraram o rei Jeoaquim, ele estava na sua casa de inverno, esquentando-se diante de um braseiro aceso. O rei escutou a leitura de somente algumas páginas da mensagem, antes de ficar dominado pelo ódio e cortar a mensagem em pequenos pedaços com um canivete de escrivão (Jr 36.23). Ele jogou os pedaços no fogo que estava no braseiro e ordenou que prendessem Jeremias e Baruque. Todavia, Deus não permitiu e ninguém conseguia encontrar Jeremias ou Baruque, pois “o Senhor os havia escondido” (Jr 36.26).
Como o exílio de 606 a.C., não refreou em quase nada os pecados de Judá, Deus lançou mão de outra deportação para chamar a atenção do Seu povo. Os capítulos 13 a 17 do livro de Jeremias falam como Deus procurou chamar Seu povo ao arrependimento, com sermões persuasivos e a provocação de uma seca, o que foi em vão.
Concluindo que concessão da misericórdia em nada adiantava, Deus declarou que iria punir Judá mais uma vez e determinou a Jeremias que não orasse mais, porque não adiantaria (Jr 11.14).
A fim de ilustrar a seriedade dos pecados de Judá, Jeremias foi instruído a comprar e colocar um cinto de linho sobre os lombos. Depois, o Senhor ordenou-lhe a levar o cinto ao Eufrates (na Babilônia) e escondê-lo na fenda de uma rocha. Passados muitos dias, quando quis recuperá-lo, o cinto estava sujo, podre e sem valor algum (13.6-7). Esta experiência serviu como uma ilustração para mostrar como Judá, simbolizado pelo lindo cinto, tinha se corrompido.
Embora Judá, como nação, estivesse condenada ao julgamento, Deus aceitaria com alegria o arrependimento de qualquer indivíduo judeu que quisesse confiar nEle para sua salvação. Este é um tema importante no Livro de Jeremias, que enfatiza constantemente a responsabilidade individual pelo pecado pela salvação.
A segunda deportação (Jr 18-20) aconteceu oito anos após a primeira. Jeoaquim rebelou-se não só contra Deus, mas também contra Nabucodonosor. Pensou que se deixasse de pagar tributos à Babilônia não seria punido. Esta estratégia funcionou alguns anos, mas, em 598 a.C., Nabucodonosor voltou a punir Judá. Assim, teve lugar a segunda deportação.
Próximo à época do cerco a Jerusalém, em 598 a.C., Deus ordenou a Jeremias para ir à casa do oleiro onde Ele entregaria uma mensagem para Judá, representada por um vaso de barro. O relacionamento de Deus com Judá foi comparado ao relacionamento do oleiro com o barro. Enquanto lhe dava forma, o vaso de barro estragou-se nas mãos do oleiro, que amassou o barro de novo e refez o vaso como bem lhe pareceu. Do mesmo modo, Deus encontrou Sua obra de arte (Judá) deformada pelo pecado e, sendo moldada por Suas mãos, Ele poderia mudá-la de acordo com Seus planos de justiça e paz.
No versículo 10 do capítulo 18, temos uma afirmação de que Deus poderia “se arrepender”. Isto não tem o sentido de culpa ou erro da parte de Deus. Ao contrário, a palavra significa literalmente uma mudança da Sua parte nos atos decretados, por causa de mudança espiritual entre os homens, no seu modo de viver e agir.
Conforme Jeremias esclarece, Judá se recusara a submeter-se à mudança de vida que Deus exigia. Neste exemplo, Judá é descrito como um vaso que, ao ser moldado, endureceu-se de forma distorcida e inútil. Jeremias tomou o vaso deformado e o quebrou no “vale do filho de Hinom” (Jr 19.1-6).
Ao contemplar o sermão do vaso quebrado, Jeremias subiu do vale para a entrada do templo, onde recomeçou a pregar. Sua mensagem, como de costume, ofendeu o povo. Como estava proibido de pregar no templo, Pasur, que era o oficial na Casa do Senhor, mandou açoitá-lo e prendê-lo no tronco. Jeremias foi solto no dia seguinte, arrasado em seu espírito e decidido a não mais proclamar o nome de Deus e a Sua Palavra. Entretanto, sua chamada era real e a Palavra de Deus foi como força viva na sua alma. Assim, logo ele voltou a pregar a mensagem de Deus (Jr 20.9).
Logo após a entrega dessas mensagens, Jerusalém foi sitiada e dominada pelo exército da Babilônia por mais de um ano. O perverso rei Jeoaquim morreu e seu corpo foi lançado fora do portão da cidade sem um funeral decente, como se fosse a carcaça de um jumento (Jr 22.19).
Este segundo grupo de cativos era composto por líderes do povo, os melhores soldados e os exímios artesãos (2Rs 24.14). Pasur, o oficial do templo que prendera Jeremias, também estava nesse grupo (Jr 20.6). Jeremias tentou explicar ao povo que o domínio babilônico fazia parte do plano de Deus para erradicar da terra a idolatria.
O novo rei de Judá, Zedequias, era um homem fraco, que temia o futuro julgamento de Deus, mas que tinha medo de perder sua popularidade. Ele foi o último rei de Judá.
Logo depois que assumiu o trono, Deus mandou Jeremias ir ter com o rei Zedequias, com instruções a respeito de como ele deveria governar Judá. Zedequias deveria ser um rei justo, submetendo-se voluntariamente às autoridade babilônicas. Se não obedecesse a Deus a esse respeito, a última fase do julgamento viria sobre Jerusalém.
Infelizmente, o novo rei e seus conselheiros espirituais não fizeram caso dos avisos de Jeremias. Eles se tornaram iguais a “pastores” que não se preocupam com o bem-estar do rebanho. Como resultado, Deus disse que o rebanho seria espalhado pelo mundo, até o tempo em que o “verdadeiro pastor” o reunisse novamente. Esse rei-pastor seria da linhagem de Davi e seria chamado: “Senhor, Justiça Nossa! (Jr 23.5-6).
Nos capítulos 27 e 28, para ilustrar a vontade de Deus para com Judá, Jeremias apareceu em público usando em seu pescoço um jugo leve, de madeira. Ele queria enfatizar a importância da submissão e castigo de Deus e para avisar aos emissários sobre o desastre iminente.
Hananias, um dos falsos profetas, dramaticamente quebrou o jugo de Jeremias e predisse que a Babilônia seria vencida em dois anos e que libertaria todos os cativos para voltarem a Judá. Podemos imaginar que a multidão aplaudiu Hananias e ridicularizou Jeremias e sua mensagem.
Logo em seguida, Jeremias profetizou que, por ter rejeitado o jugo leve, o povo iria ter o jugo pesado, de ferro. Hananias foi sentenciado ao julgamento divino por pregar falsas mensagens e morreu no mesmo ano (Jr 28.16,17).
Deus colocou um peso no coração de Jeremias para que escrevesse uma carta aos cativos, avisando-os para que não fossem enganados por falsas esperanças. Informou que o cativeiro ainda duraria muito tempo; por isso, eles deveriam se casar, construir casas e se tornarem bons cidadãos em sua nova terra (Jr 29). Jeremias sabia que a única solução para a crise era a submissão. As pessoas teriam que tomar a decisão de se submeter a Deus ou de ser destruído.

3.2.       A queda de Jerusalém (30-51)
Seguro de que receberia ajuda do Egito e de outros aliados, Zedequias se rebelou contra Babilônia. Porém, quando esta lançou seu ataque, os aliados do Egito ainda não tinham chegado e o exército judeu foi totalmente derrotado.
No capítulo 30, vemos que Deus usa o sofrimento dos tempos de Jeremias como um exemplo para descrever o que será o período da Grande Tribulação, também chamado de “o tempo de angustia para Jacó”.
O capítulo 31 do Livro de Jeremias mostra o lindo quadro da restauração de Israel durante o Milênio. Israel é comparado a um rebanho de carneiros espalhados que são reunidos de novo pelo pastor e mantidos sob seu cuidado.
O impasse criado pela Antiga Aliança em virtude da desobediência humana, só poderia ser superado se a pena da desobediência fosse paga de uma vez por todas. O perdão de Deus se baseia na Nova Aliança ou Novo Testamento. Jeremias explicou que a Nova Aliança a ser estabelecida não se limitaria a Israel como nação simplesmente, mas visaria a alcançar cada indivíduo. Além disso, a Nova aliança seria caracterizada por uma mudança de coração (Jr 31.31-38).
À certa altura do sítio a Jerusalém, o Egito finalmente enviou seus exércitos em socorro daquela cidade (Jr 37.5). A fim de enfrentar esta nova ameaça, os babilônicos tiveram que suspender o cerco temporariamente. Naturalmente eufórico por causa da retirada dos inimigos, Judá equivocou-se, pensando que o longo conflito tinha chegado ao fim e que Jeremias profetizara falsamente.
Com o término do sítio, a reputação de Jeremias estava quase que reduzida à de um falso profeta, o que o deixou em situação muito delicada. Açoitado e jogado num cárcere, suas condições eram tais que ele achava que seria morto (Jr 37.20). Vale ressaltar que, por tanto sofrer no ministério e pelo juízo de Deus, Jeremias foi instruído a não se casar (Jr 16.1-4).
Por saber que Jeremias era profeta de Deus, Zedequias não quis ordenar sua morte, nem tampouco quis se arriscar a ofender seus oficiais. Como Pilatos, o rei recusou-se a tomar decisão, mas não hesitou em dar aos acusadores de Jeremias a liberdade de fazerem com ele o que bem entendessem (38.5). Os oficiais foram diretamente para o átrio da guarda, na prisão, e jogaram Jeremias numa cisterna cheia de lama para morrer ali.
O profeta teria morrido no fundo da cisterna se não fosse a coragem e a fé de Ebede-Meleque, um etíope africano, servo do rei. Este homem teve a coragem de falar com o rei em favor da vida de Jeremias. Mais uma vez o rei facilmente concordou. Ebede-Meleque libertou o profeta com a ajuda de 30 homens.
Nos últimos dias antes da rendição de Jerusalém, Jeremias recebeu uma estranha ordem do Senhor. Ele deveria comprar um campo e guardar as duas cópias da escritura num vaso de barro. Deus explicou que um dia Ele destruiria Babilônia e naquele dia a terra seria devolvida ao povo de Israel. Esta escritura selada talvez explique a linguagem figurada do documento selado mencionado no livro de Apocalipse. Deus já nos deu uma cópia aberta, ou seja, a Bíblia, do Seu título de posse da terra. Tudo que falta é Ele vir e aprisionar o usurpador (Satã) e reaver o título de posse da terra, que é Seu, por direito.
Um pouco antes de Jerusalém cair, Jeremias recebeu de Deus uma mensagem sobre o futuro da Babilônia. Os capítulos 50 e 51 falam que Babilônia seria exaltada por algum tempo e que teria liberdade para perseguir o povo de Deus, mas que, um dia, ela seria destruída e o povo de Deus ficaria livre deste opressor estrangeiro.
Depois de viverem 18 meses cercados pelo inimigo, os habitantes de Jerusalém chegaram ao estado de antropofagia (canibalismo). Quase um terço da população morreu de fome e doenças. Mas o que é ainda mais difícil de entender é como o povo continuava a ignorar as mensagens de Jeremias e se recusavam a voltar para Deus.
Quando o inimigo finalmente abriu brecha no principal muro de Jerusalém, Zedequias entendeu que já não restava mais esperança para a cidade. Agindo como um covarde, fugiu com seu exército durante a noite para escapar com vida. Apesar disso, o rei não se saiu melhor do que seus infelizes súditos: foi capturado e seus filhos e oficiais foram mortos diante de seus olhos. Depois, teve seus olhos vazados e foi levado à Babilônia, onde morreu na cela de uma prisão.
Para se assegurar de que a cidade nunca mais seria usada como fortaleza, Nabucodonosor destruiu o templo, por ter sido um símbolo da resistência judaica.
Os capítulos 40 a 44 narram sobre os restantes que ficaram. Uma posição de honra foi oferecida a Jeremias em Babilônia, mas ele recusou; e, vez disso, escolheu permanecer com os poucos restantes do povo em Judá, ministrando entre esse grupo até a sua morte. Segundo a tradição, Jeremias foi morto por apedrejamento a fim de calar a sua voz e evitar a culpa que sentiam por seus pecados quando ouviam as repreensões.

4.    Lamentações de Jeremias: o livro das lágrimas
O Livro de Lamentações de Jeremias é um poema escrito pelo profeta logo depois da destruição de Jerusalém. A Tradição nos diz que o livro foi escrito numa caverna, ao pé de um pequeno monte chamado “Gólgota”, situado ao norte de Jerusalém. É interessante que nesse mesmo lugar onde Jeremias possivelmente chorou pelos pecados do povo, Cristo mais tarde morreria pela humanidade.
O livro está organizado como um acróstico alfabético, formado pelas 22 letras do alfabeto hebraico. Embora seja pouco conhecido entre os cristãos, o Livro de Lamentações é muito popular entre os judeus. Faz parte de um conjunto de cinco livros conhecidos como os “Escritos”, os quais são lidos em duas espécies de festa e de jejum. Lamentações é lido num determinado dia de jejum, em meados do mês de julho, para relembrar a destruição do templo.
A mensagem do livro de Lamentações tem um lado negativo e um lado positivo. O negativo é o relato das mágoas do profeta. O positivo é a firme esperança despertada nos judeus para reconhecerem seus pecados, voltarem para Deus e serem restaurados.
O primeiro capítulo é uma acusação contra Jerusalém que pecou contra Deus. No capítulo 2, Jeremias revela que Jerusalém fora destruída não por um inimigo, mas sim por Deus, que usou os babilônicos como uma vara de castigar e corrigir Seus filhos obstinados.
A parte central do livro de Lamentações contém uma mensagem de esperança e está contida no capítulo 3. Apesar dos pecados e castigo, Deus ainda amava Judá.
No quarto capítulo, Jeremias estabelece um contraste bem definido na vida dos judeus, entre o antes e o depois de se rebelarem contra Deus. Já o último capítulo registra uma oração. O livro inteiro é um apelo ao povo para que se aproxime de Deus. Tendo apresentado o pecado da nação, o seu castigo, a esperança do futuro e a gloria do passado em comparação com o horror do presente, Jeremias agora pede ao povo que ore a Deus, compungido. A oração confessa a culpa do povo e suplica a Deus que o restaure a Ele.

Convertei-nos a ti, Senhor, e seremos convertidos; renova os nossos dias como dantes. (Lm 5.21)



5.    Ezequiel: o homem e sua mensagem
Ezequiel era de família sacerdotal, filho de Buzi, o sacerdote. Ele mesmo foi sacerdote. Os sacerdotes iniciavam seu serviço no templo aos trinta anos. Mas, no ano em que Ezequiel fez trinta anos ele se encontrava no cativeiro babilônico (1.1), a cerca de 1100 quilômetros distante do templo de Jerusalém. O profeta viveu entre os exilados, sua profecia foi formulada em meio às pessoas deportadas para as terras estranhas da Babilônia.
 Ezequiel era um homem de amplos conhecimentos, não somente das tradições de sua nação, mas também de assuntos internacionais e da história. Sua familiaridade com tópicos gerais de cultura, desde a construção de navios até a literatura, é igualmente espantosa. Era dotado de grande intelecto e tinha capacidade de compreender questões de amplo alcance. Seu estilo é impessoal, mas em alguns trechos é apaixonante e bastante transparente.
Na sua segunda vinda a Jerusalém (598-597), Nabucodonosor deportou para a Babilônia, o rei Joaquim e a família real, junto com outros dez mil membros da elite (2 Reis 24.12-14). Ezequiel estava entre eles. Era contemporâneo do profeta Jeremias, porém, mais jovem. Enquanto Jeremias profetizava em Jerusalém, Ezequiel anunciava a Palavra do Senhor aos que estavam cativos na Babilônia, junto ao rio Quebar. Era conhecido de Daniel, não sabemos se mantinha relações mais próximas com ele (14.20; 28.3). Ezequiel era casado, mas, sua esposa morreu durante o cativeiro (24.15-18).
 Se o profeta tinha trinta anos quando começou seu ministério (1.1), e essa data corresponde ao quinto ano de exílio do rei Joaquim (1.2-3), então Ezequiel tinha por volta de vinte e seis anos quando foi levado cativo. A última data registrada no livro (26 de abril de 571 a.C., em 29.17) demonstra que o ministério de Ezequiel compreendeu pelo menos vinte e três anos. As circunstâncias de sua morte são desconhecidas. Pouco se sabe de sua vida antes do chamado para o ministério profético. Seu nome significa “Deus fortalece”, o que lembra sua obra de conforto e incentivo aos exilados.
 Como Ezequiel contém mais datas que qualquer outro livro profético do Antigo Testamento, suas profecias podem ser datadas com considerável precisão. Doze das treze datas especificam ocasiões em que Ezequiel recebeu uma mensagem divina. A outra é a data da chegada do mensageiro que relatou a queda de Jerusalém (33.21).
 Tendo recebido o chamado de Deus em julho de 593 a.C., Ezequiel continuou no exercício da vocação por 22 anos, sendo o último oráculo recebido em abril de 571 a.C. (29.17). Se o trigésimo ano citado no capítulo 1 e versículo 1 refere-se à idade de Ezequiel por ocasião do chamado, sua carreira profética excedeu em dois anos o período normal de serviço sacerdotal (Nm 4.3). Seu período de atividade coincide com o momento tenebroso de Jerusalém e antecede em 7 anos a sua destruição, em 586 a.C., continuando por mais 15 anos após essa data.
A profecia de Ezequiel é marcada por visões e ações simbólicas. Já se pode observá-las nos primeiros capítulos. Neles predominam a visão vocacional (caps 1 a 3) e algumas ações simbólicas. Numa delas o profeta come um rolo (livro) (caps 2 e 3), noutra realiza simbolicamente o cerco de Jerusalém (caps 4 e 5). Visões e ações simbólicas similares se repetem em passagens subsequentes. Até mesmo a morte da mulher de Ezequiel transforma-se em um gesto simbólico (caps 24 e 33). Enfim, a linguagem simbólica marca amplamente o estilo deste profeta.
A mensagem profética e estrutura literária de Ezequiel estão intimamente ligadas. A mensagem de três partes do livro é na verdade, uma teodiceia (defesa ou interpretação do julgamento de Deus a Judá e a destruição resultante), e ela corresponde às três dimensões ou fases do ministério de Ezequiel aos exilados. Os capítulos de 1 a 24 antecedem a queda de Jerusalém e são dirigidas à casa rebelde de Judá. O propósito da comissão divina de Ezequiel era trazer a nação de Israel advertências da parte de Deus, sobre o julgamento iminente (2.3-8), deixar bem claro a responsabilidade de cada geração pelos seus pecados (18.20) e convidar aos que tivessem quebrantamento de coração ao arrependimento, com o conselho: “Arrependam-se e vivam” (18.21-23,32).
Após a destruição de Jerusalém em 587 a.C., Ezequiel voltou sua atenção às nações vizinhas de Israel que participaram do “dia da angústia de Jacó” (caps. 25 a 32) e se alegraram com ele. Mas, a sua arrogância não contaria com a isenção do juízo divino, elas também foram advertidas de que Deus planejara visitá-las com ira e vingança por seus delitos (25.1-11). Nesta fase do ministério de Ezequiel, estava implícito para Israel que o Senhor Deus realmente era justo em seu governo soberano das nações (28.24-26).
A parte final do livro promete a renovação da aliança e a restauração da monarquia davídica em Israel (33 a 48). Aliás, quando o capitulo 37 se refere às tribos, fala justamente da união dos divididos Judá e Israel em torno do descendente de Davi. Mas o novo tempo davídico não será a repetição do velho. Este Davi estará destinado apascentar o rebanho seguindo as pisadas de Javé, que busca a ovelha desgarrada e machucada (34.16). O novo Davi será justo e dedicado aos pobres. A esperança messiânica de Ezequiel está de acordo com a dos grandes profetas de séculos anteriores, que haviam prenunciado a vinda do Messias (Is 9.6-7), nascido na pequena Belém (Ml 5).
Os capítulos 40 a 48 trazem detalhes do projeto do novo templo em Jerusalém, cidade com a qual Deus mantém uma aliança eterna (16.60). Este projeto do templo é uma das visões mais estupendas do livro. Não só delineiam uma espécie de maquete do santuário, mostra que o Novo templo estará sob o controle dos sacerdotes, não de governantes.
Os profetas do Antigo Testamento pressupõem e ensinam a soberania de Deus sobre toda a criação, sobre todos os povos e nações, bem sobre o desenvolvimento da história. Em nenhum outro livro da Bíblia a soberania e o controle de Deus são expressos de modo mais claro e abrangente do que no Livro de Ezequiel. Desde o primeiro capítulo, que relata com realismo a invasão avassaladora da presença de Deus no mundo de Ezequiel, até a última expressão da visão do profeta “O Senhor está aqui”, o livro faz soar a soberania de Deus.
A soberania absoluta de Deus também se evidencia em sua mobilidade. Ele não está limitado ao Templo em Jerusalém, pode abandonar o santuário em Jerusalém, para reagir contra o pecado do povo, como também por sua imensa graça e misericórdia visitar seus filhos no exílio da Babilônia. Deus tem liberdade para condenar e também para perdoar. Seus juízos severos contra Israel refletem em uma análise mais profunda a demonstração de sua graça. Deus é santo. O pecado é uma afronta a sua santidade e deve ser julgado. Israel é uma nação rebelde, porém o exílio tem o propósito de produzir uma nação purificada, um remanescente disposto a viver em obediência a Deus (6.8; 9.8; 11.12-13; 12.16).
O exílio tinha acontecido, em parte, como resultado da culpa acumulada por gerações de israelitas que tinham se rebelado contra Deus e sua lei. Mesmo que a culpa tenha sempre uma dimensão de um todo, ou seja, toda a nação, Ezequiel enfatizou as consequências individuais da desobediência e da transgressão (18.1-32; 33 1-20).

5.1.       A Visão das Rodas
As visões arrebatadoras de Ezequiel foram essências para a mensagem geral do livro por dois motivos: Em primeiro lugar, ela reforçavam a veracidade do conhecimento do profeta sobre o papel divino na queda de Judá e a destruição de Jerusalém. A ênfase escatológica predominante nas visões do profeta mostrou aos exilados que as promessas de Javé ainda eram válidas, os ossos secos poderiam ganhar vida e voltarem a se reunir.
Em segundo lugar, as visões de Ezequiel foram meios não convencionais de transmitir o conhecimento de Deus aos exilados. Sua visão de rodas é especial por aparecer três vezes no texto, ao contrário do chamado de Ezequiel (1 a 3), do julgamento de Jerusalém (10) e da restauração de Israel (43 a 46).
Os detalhes desta visão estranha e complexa, com suas criaturas bizarras e seus dispositivos fantásticos, desafiam qualquer explicação. Todavia, a intenção básica da visão é inconfundível. O Deus de Ezequiel e dos hebreus vive e reina nos céus, majestoso em sua diversidade transcendente. Ele exerce controle absoluto sobre toda a criação, mesmo os israelitas cativos na Babilônia. O próprio Senhor está numa carruagem magnífica, possibilitando seu movimento e representando sua presença em qualquer direção. Além disso, seus olhos veem tudo e por isso, ele certamente agirá a favor do seu povo no tempo certo.

5.2.        Filho do Homem
O Senhor chamou Ezequiel pelo título de “Filho do Homem” cerca de 90 vezes no livro. Só há uma ocorrência da expressão em outro livro do Antigo Testamento, que é em Daniel 8.17. Empregada para enfatizar a humanidade do mensageiro comparado a origem divina da mensagem. A expressão também revela a natureza simbólica da vida e do ministério de Ezequiel, tanto para os hebreus exilados quanto para os que permaneceram em Jerusalém. Ezequiel fez o papel de servo totalmente engajado no propósito de Deus, deixando sua vida servir de ilustração viva da casa rebelde de Israel.

5.3.        Profetizando fora de Israel
Ezequiel foi feito profeta entre exilados. Ele é o primeiro a profetizar fora da terra de Israel. Isto significa uma ruptura decisiva na história da profecia bíblica: alguém se apresentar como profeta longe da terra santa. E este justamente vem do grupo dos sacerdotes, aqueles que mais expressamente aproximavam e identificavam a ação de Javé em profecias com a terra da promessa. Costumavam celebrar as ações salvíficas de Deus apenas em relação a Israel. Havia tendência em restringir as ações de Javé ao tamanho dos limites de Israel. Os mais exaltados até mesmo tendiam a ligar a presença de Deus apenas ao templo, templo de Jerusalém. Este lugar era tido como morada de Javé. Quem quisesse prestar culto ao Senhor, deveria peregrinar até Sião. Ali estava como que sediada a divindade.
Outros profetas se preocuparam em grande parte com a idolatria de Israel, com degradação moral, com as intrigas e alianças com povos estrangeiros para se proteger, deixando de confiar no Senhor. Proclamam o juízo divino, mas também falam da restauração e redenção futura.
O vasto alcance da mensagem de Ezequiel tem semelhança com tudo isso, a grande diferença é que ele foca Israel de modo incomparável como povo santo. Israel, ao contaminar o culto que prestava ao Senhor Jeová, tornara-se impuro e contaminara o templo, a cidade, o país inteiro. Diante dessa contaminação, Deus teria de retirar sua presença e castigar o povo com destruição.
Mas a fidelidade de Deus para com a aliança e seu desejo de salvar eram tão grandes, que Ele avivaria de novo o seu povo, seria o Bom Pastor. Compassivo com as suas ovelhas, purificando suas impurezas e os recolocando de volta ao lugar de onde nunca deveriam ter saído se tivessem se mantido fiel ao Senhor.     

5.4.       Organização
As revelações proféticas de Deus através de Ezequiel foram transmitidas aos hebreus oralmente e, ao que tudo indica registrada em data posterior, conforme comprovam expressões como “diga-lhes” (14.4), “conte uma parábola” (17.2-3), “pregue” (20.46) e muitas outras citações. A falta de ordem cronológica rígida da literatura pode ser evidencia da compilação dos oráculos por Ezequiel, já que é provável que se fosse outro a organizar, teria se preocupado com a sequencia exata do material, já que existem datas no texto que poderiam ser seguidas.
Nenhum outro livro profético contém tantas informações cronológicas como Ezequiel. O profeta era consciente da importância de sua mensagem para aquele momento histórico. A cronologia da segunda metade do primeiro milênio a.C., incluindo o período de Ezequiel é conhecida através dos registros cronológicos da Bíblia e de outros documentos, em diversas línguas, provenientes do antigo Oriente Próximo. Observações astronômicas registradas por antigos escribas permitem relacionar os calendários antigo e moderno com um alto grau de confiabilidade. Ezequiel contém indicações de data em diversas passagens (1.1-2; 8.1; 20.1; 24). Estas datas situam-se no período entre 593 a 573 a.C.
A estrutura geral dos oráculos de Ezequiel contribui para o propósito básico da mensagem do profeta, isto é a soberania de Deus. Os oráculos dos capítulos 1 a 24, contra Jerusalém enfatizam o ensinamento de Ezequiel a respeito da soberania de Jeová sobre Israel, chamando a atenção para o juízo que viria por causa da desobediência a aliança com o Senhor.

5.5.        Conclusão
Ezequiel é o único livro profético inteiramente autobiográfico. Ele foi escrito na primeira pessoa a partir da perspectiva do próprio profeta. Se comparado com outros livros proféticos, Ezequiel apresenta um número maior de ações simbólicas (3.22-26; 4.1-14; 12.10-20; 21.6-, 18-24; 24.15-24; 37.15-28). O profeta se identificava com sua mensagem: ele sofreu no próprio corpo as consequências de representar Deus diante do seu povo, e de representar a nação sob o julgamento de Deus. Ezequiel faz uso de muitas parábolas (12.21-22; 16.44; 18.2-3).

Nota: hoje não existe mais ministério profético, mas existe o dom de profecia.

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